Continuação

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As semanas que se sucederam após a minha grande coragem de ir à livraria para escolher um presente para ela acenderam em mim uma força absurda.
Foi como se, por um instante, a Sol apagada dentro de mim piscasse uma luz fraca - uma fagulha breve, mas suficiente - e isso bastou para que eu seguisse em frente. Agora estava claro o que escreveria na contracapa do livro.
Antes, tudo me parecia vazio, direto demais... Mas, de repente, as palavras certas se alinharam em perfeita sintonia com as batidas do meu coração, como se cada letra surgisse no compasso daquilo que ainda pulsa, apesar de tudo.

Mas ainda havia algo me impedindo. Uma dúvida cruel:
"Seria eu a covarde que escreve em folhas de papel ou a corajosa que grita em voz alta o que venho guardando na parte mais obscura do meu coração?"
Mais uma vez, guardei o livro sem escrever nenhuma palavra.
Eu ainda tenho algumas horas antes da festa, talvez até lá eu decida o que fazer.

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O celular vibra e lá está uma mensagem em caps lock do Lions.

- NÃO SE ESQUEÇA HEIM! SERÁ AS 19:HORAS

Creio que ele seja mais ansioso que eu, pois ainda são sete horas da manhã e ele já me manda um lembrete.

A vibração ecoa pelo quarto silencioso, como um ruído estranho invadindo a bolha densa em que me encontro. A luz da manhã entra tímida pelas frestas da cortina, desenhando faixas pálidas sobre o chão de madeira. O som dos passarinhos lá fora contrasta com o peso no meu peito, como se o mundo ainda insistisse em cantar mesmo quando tudo dentro de mim está em silêncio.
As horas passaram arrastadas, com o tique-taque lento demais do relógio de parede - como se o tempo também estivesse indeciso.
Mal conseguia notar que era o aniversário dela.
A minha rotina não me dava descansos. Essa data caiu em uma sexta-feira, dia de consulta com doutor Lucas.

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Ele chegou como sempre chega: discreto, educado, com aquele cheiro sutil de menta e papel velho.
Sentou-se à minha frente, puxando a poltrona para mais perto como quem não tem pressa de ir embora. O estofado rangeu levemente sob o peso do corpo dele, o quebrou o silêncio suave do cômodo.

- Eu ainda não te dei os parabéns pela sua coragem de ir à livraria? - Foi um avanço notável para a sua recuperação.

- Pensei que me acharia uma pessoa desesperada - Já que atropelei um ano de consulta.

Ele me olha e me lança um pequeno olhar. Nada de sorriso. Apenas um aceno com os olhos, quase imperceptível.

- Você acha que errou ao fazer isso?

- Não. Eu teria errado se não houvesse tentado.

- E como você se sentiu ao estar lá?

- Dou um forte suspiro - Livre. Havia um mundo fora dessas janelas e varanda.

Ele permaneceu em silêncio como quem espera um "mas".

- Bom... a minha presença causou desconforto nas outras pessoas. Elas não conseguiam entender o porquê eu era aleijada, mas isso não me impediu de escolher um livro.

- Deficiente físico, Sol.

- Eu entendo, doutor. Mas quem está em uma cadeira sou eu. E não posso nem me contradizer em paz?

Ele não rebate. Apenas anota algo em seu caderno. O som da caneta no papel é baixo, mas me irrita.
O silêncio entre nós é espesso, mas não desconfortável. Há algo na pausa que permite que eu respire, mesmo que o ar esteja denso.
O barulho do ventilador no teto gira sem pressa. As elices lançam um vento preguiçoso que apenas move levemente os fios soltos do meu cabelo.
O ar parece morno, mesmo com as janelas entreabertas. Uma brisa sem força entra e some antes de chegar até mim.

Eu Sou SoLOnde histórias criam vida. Descubra agora