-Eu Sou SoL
Finalmente chegou a hora do aniversário dela. O relógio batia 18h30 quando terminei de me arrumar. A ansiedade me consumia mais do que o normal; hoje eu não entregaria apenas um presente, eu entregaria o meu coração em forma de dedicatória na contracapa de um livro.
A casa ao lado, que antes parecia embaçada e sem vida, agora estava tomada por carros estacionados e vozes que vinham de todos os lados. Lions cumpriu o que havia prometido: veio me buscar. Usava jeans e o cabelo perfeitamente alinhado, sem um fio fora do lugar — o garoto perfeito.
— Você está lindíssima — disse ele com firmeza, cruzando as mãos como se tentasse esconder o próprio nervosismo.
Ele e meu tio Tito me ajudaram a descer a varanda com a cadeira de rodas. Repeti, como um mantra, os cinco passos contra o pânico, mas a voz que insistia em minha mente era outra: “Vamos lá, Sol. A parte mais difícil já ficou para trás. Você conseguiu comprar o presente. Agora é simples: só precisa entregá-lo.”
A casa era belíssima. A mãe de Lions havia dado um toque vitoriano à antiga casa dos Lorritos, tornando-a imponente e acolhedora. Ficava evidente que eram ricos. Lions nunca contou em detalhes no que os pais trabalhavam, mas já ouvi meu tio dizer que eram donos de uma grande distribuidora de alimentos. Isso explicava por que até uma festa aparentemente simples ainda carregava um ar de luxúria.
O bolo branco de dois andares, os balões cor-de-rosa, a música alta e animada — tudo estava perfeito, e ainda assim não tinha nada a ver com ela. Demoraram um mês para organizar a festa, mas era como se os detalhes não importassem. Eu a observei passar diante da minha janela durante dias e meses… e é uma pena que aquela festa não traduzisse nem metade do que ela é.
O casal mais bem-vestido da festa se aproximou de mim com passos lentos, como se quisessem ouvir a breve conversa entre Lions, Tito e eu.
— Pai, mãe! Essa é a Sol, amiga da Lumar. Minha amiga também — disse Lions, orgulhoso.
Os dois se entreolharam, como se duvidassem que alguém como eu pudesse ser amiga de seus filhos.
— É um prazer te conhecer, Sol. Eu sou Jonas Padilha — disse o pai, segurando uma garrafa de cerveja importada. No pulso esquerdo, brilhava um relógio caríssimo, pesado demais para quem me olhava como se eu fosse pequena.
— E eu sou Marine — completou a mãe, com um sorriso elegante e caloroso, que ainda assim não escondia o ar de observação crítica.
— O Lions fala muito de você — acrescentou Jonas, piscando discretamente para o filho, como se esperasse aprovação.
Atrás deles, um garoto mais novo se aproximou. Era Jonh, irmão do Lions. Ele acenou rapidamente, com um sorriso leve.
— Olá, Sol — disse, num cumprimento breve, sem formalidades, como quem já me conhecia há algum tempo.
Jonh era tão na dele que às vezes eu esquecia que também era irmão da Lumar.
O tempo corria, e a cada minuto a ausência dela se tornava mais gritante. Meu tio se enturmou com Jonas, pareciam velhos amigos. Eu me escondi no canto mais escuro; já não ouvia música nem conversas, só a batida acelerada dentro do meu peito: “Onde você está, Lumar?”
Lions percebeu meu olhar insistente e se aproximou, apoiando-se discretamente no braço da minha cadeira. Havia uma sombra em seu rosto, como se carregasse um peso.
— Sol… — disse baixo, quase só para mim. — Tem uma coisa que talvez eu tenha esquecido de falar.
— O quê? — murmurei, sentindo a ansiedade me consumir.
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Eu Sou SoL
RomanceSoL, uma jovem de 17 anos, tornou-se paraplégica aos 16 e, desde então, encontra refúgio em seu quarto, isolando-se do mundo exterior. A ausência de afeto romântico e a inexperiência de um primeiro beijo pesam sobre ela. No entanto, o destino reserv...
