CAPÍTULO DOIS

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"Tudo o que quero ser é mais como eu e menos como você"

—Por acaso eu tenho falado grego, menino? Para que tudo que te esclareço se perca na sua mente? Ou faz isso de propósito, William?

O dia nem havia clareado. Nos preparávamos para as matinas antes dos nossos trabalhos e meu pai quase gritava comigo.

-—Acha mesmo que não percebi a sua desatenção ontem à noite, em uma conversa importante? E nem preciso perguntar o motivo, eram as suas ilusões. Quanto tempo isso vai durar? Você não vai amadurecer e se dar conta de sua missão? Do seu propósito! Quando vai deixar de ser um mimadinho egoísta?

— Que maravilha!—pensei. Começar o dia com espetáculo de quem finge se importar, mas só quer alguém sendo a continuação de si. Depois dessa, não consegui ficar calado. Não que fosse faltar ao respeito com ele, mas iria dizer o que pensava e sentia.

— Bom dia para o senhor também, pai, a benção! —Tentava não demonstrar o sarcasmo e descontentamento na minha voz. -—Então quer dizer que sou um mimadinho egoísta? Interessante saber o que o senhor pensa! É bem fácil falar quando na verdade quer que eu seja uma continuação do senhor, ignorando minha essência e individualidade. Mas estou cansado, sabia? Do fundo do meu coração, estou exausto de ser o que o senhor quer. A cada dia me sinto tão sem fé, perdido debaixo de tudo isso...

Meu pai me olhou com uma expressão que me fez ser grato por saber que olhares não podiam matar, mesmo assim continuei.

—O que espera de mim? Que viva sobre a pressão de seguir seus passos? Porque parece que cada passo que dou é um outro erro para você, e vivo me sentindo como se perdesse bem mais tempo do que posso aguentar.

— Cale-s...

— Quase agora me chamou de egoísta! E quer saber? Talvez tenha ficado assim: Tão insensível à certas coisas, pode ser que nem consiga perceber vocês. Mas até nisso tem vantagem, até no cansaço. É ele que me torna mais consciente e me faz ver que quero ser mais eu e menos como vocês. — Respirei fundo, os olhos lacrimejando, e continuei tentando manter a calma. —Por favor, não pense que te falto com o respeito, pai, mas não vê que me sufoca? Que aperta demais por medo de perder o controle já que tudo que pensou que eu seria se desmoronou bem na sua frente?

Ouve uma pausa onde ambos fizemos silêncio.

—Te entendo, pai. Entendo seus medos e preocupações. Sei que posso falhar, mas sei que também já esteve bem aqui, lutou para ser quem é e estava justamente como eu quando alguém se desapontou com você.

—Sim, filho — falou. — Se parece muito comigo na juventude. Seu jeito obstinado e forte. Que nunca desiste. Mas a vida passa rápido, a nossa mente muda. Sabe muito bem o que quero dizer, não sabe? Conversamos diversas vezes sobre o assunto ,e, bem, olhe para nós: no auge de uma missão que pode nos custar a vida. Nunca disse para ninguém, mas não temo o mar, os ventos ou os infiéis. Meu maior medo, desde que sua mãe, você e a Alice chegaram na minha vida é partir e deixar vocês desamparados de alguma forma. Não pense que sou uma pessoa ruim, William, mas o que não quero para mim, quero menos ainda para dois jovens. Uma menina tão delicada como a Stella. A melhor afilhadinha que alguém poderia ter. Eu não duvido do amor que ela sente por você e como estaria destruída se o pior acontecesse. Então, filho, se você a ama de todo coração e não a quer apenas como um brinquedo, um prêmio, terá que fazer isso, por mais doloroso que seja. A maior prova de amor que dará é deixá-la livre e seguir o seu destino. Amar também é deixar ir. - Meu pai estendeu os braços, me abrigando em seu abraço. —Me perdoa, meu filho,se não soube agir do jeito certo, se pareci duro demais ou sem empatia. Eu quero o melhor para vocês dois.

—Me perdoa também, pai, se não soube te entender. Eu amo o senhor e a mamãe. - Me desvencilhou de seus braços, nos recompomos e ele disse:

-—Agora vamos! Já estamos atrasados e o dia será longo, não?



Duas semanas depois, depois de uma tarde de treinos, lá estávamos eu e o Noah, sentados num canto.

- Ei, fazem alguns dias desde certas conversas entre nós dois. E viu que conseguimos vencer mais uma batalha? Ainda estamos aqui,conforme te disse. Logo, logo voltará para a Stella e finalmente se casará e se dividirá entre a Ordem e a sua futura família.

Noah e seus planos, sempre motivado e sonhador. Ele é um amigo muito especial, me doía dizer que essa última parte não aconteceria.

- Sim... Vencemos mais uma vez. Demos sorte, Noah.

- Muito mais que sorte. Somos os Templários. - Me fitou e eu soube que a partir dali não conseguiria mais esconder meus sentimentos. - William, o que aconteceu? Por que está assim?

- Assim como?

- Sem brilho. Como se algo tivesse apagado para sempre dentro de você. - Bem, era isso mesmo. Ele sempre percebia.

- Eu estive conversando com meu pai. No fim das contas ele está com razão.

- Não me diga que... Desistiu da Stella?

- Infelizmente sim, Noah. Irei fazer os votos perpétuos. Tudo o que vivemos será apenas uma lembrança doce e aconchegante. Pode parecer extremo, mas também é amor. Eu a quero livre. E não é só isso... Você sabe bem, já que crescemos juntos e passamos por muitas coisas. Sabe que ser Templário era o maior desejo do Zayn, né? Então eu também farei isso por ele, onde quer que esteja.

- Eu estou sem palavras. É tão triste, mas ao mesmo tempo tão nobre e generoso nas duas circunstâncias. Estou orgulhoso de você! Mas existe mais alguma coisa que te pertuba, não tem?

- Tenho um mau pressentimento. Não sei de onde vem isso mas parece que tem algo errado entre nós. Algo que pode causar um estrago incalculável.

- Credo, menino! - Fez o sinal da Cruz. - O que te faz pensar isso?

- Sei que irei parecer infantil,com a minha implicância com o Harry, Louis, Liam e Niall, mas olhe discretamente e perceba como eles agem de forma estranha.

- Esses meninos me assustam desde a infância. Agora mais ainda.

- E como fundamento para a suspeita, tenho algumas coisas que a Sophia me disse, anos atrás. Coisas sobre o Harry que envolvem o demônio em pessoa. Queira Deus que eu e ela estejamos errados, mas...

- William, sei que isso pode soar ousado,mas a gente precisa investigar de perto. De uma forma profunda. Ainda que seja arriscado.

- Noah,o que pensa em fazer? - Me assustei com a proposta..

- Ainda não sei muito bem, mas já os notei saindo escondido do Templo à noite. Precisamos encontrar um jeito de surpreendê-los. Mas antes precisamos espioná-los discretamente para o bem de todos nós, de toda a Ordem.

Ele tinha razão, por mais arriscado que fosse. Que Deus nos ajude!

"Não á nós, Senhor. Não á nós. Mas para a Glória de Seu Nome"

Dessa vez o nosso lema fez mais sentido que nunca, e para mim foi o maior clamor. Só espero estar do lado certo da história.

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