Kelly Blackburn Jaha passou toda a adolescência isolada, como uma intrusa em uma estação espacial, obrigada a desaparecer do mundo apenas para sobreviver. Seu sobrenome era um erro, um peso que a condenava a não existir, invisível até para aqueles q...
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Desci devagar, cada passo pesado demais, como se o ar tivesse virado concreto. E então eu vi.
Wells. No chão. Imóvel.
O sangue espalhado ao redor dele era escuro demais, real demais. Meu coração começou a bater tão forte que doeu. Doeu de verdade. Meus ouvidos zuniram, minhas mãos tremeram, e por um segundo eu achei que fosse desmaiar.
Não. Não agora.
Aproximei-me devagar, como se ele pudesse desaparecer se eu chegasse rápido demais.
Me ajoelhei ao lado dele. O cheiro metálico do sangue me atingiu em cheio. Meu estômago revirou, minha visão embaçou. Então ele se mexeu. Muito pouco. Quase nada.
— Kelly... — a voz dele saiu fraca, falhada, quase um sopro. Meu mundo rachou inteiro naquele instante.
— Wells — falei, desesperada, me inclinando sobre ele. Minhas mãos pairaram no ar, sem coragem de tocá-lo — Ei... ei, olha pra mim. Fica comigo, tá ouvindo? Fica comigo.
Meus dedos finalmente tocaram seu braço. Estava frio. Não gelado — ainda não — mas frio o suficiente para me apavorar.
— Eu... eu vim te procurar — minha voz tremia tanto que mal se sustentava. — Eu ia falar com você hoje. Eu... eu ia pedir desculpa.
Ele tentou sorrir. Tentou. Isso foi pior do que vê-lo sangrar.
— Você sempre... fala demais — murmurou, a respiração irregular.
Um soluço escapou de mim antes que eu pudesse segurar.
— Cala a boca — falei entre lágrimas, inclinando a testa até encostar na dele — Não fala. Guarda forças. Por favor.
Minhas mãos tremiam enquanto eu pressionava o ferimento, mesmo sabendo que talvez não adiantasse. O sangue continuava escorrendo, quente, escorrendo pelos meus dedos, marcando minha pele como uma culpa que eu não poderia lavar depois.
— Eu fui horrível com você — continuei, as palavras saindo em desespero — Eu sei. Eu sei que fui. Mas eu nunca deixei de te amar. Nunca. Você é meu irmão, Wells. Você sempre vai ser.
Ele engoliu em seco, os olhos brilhando, presos nos meus.
— Eu só... queria te proteger...Aquilo me destruiu — era a primeira vez que falamos sobre esse assunto... e também seria a última.
— Eu sei — chorei — Eu sei. E eu te odeio por isso às vezes... mas agora eu só... eu só preciso que você fique. Por favor.
Minhas lágrimas caíam no rosto dele, misturando-se ao sangue. Não me importei. Não consegui me importar com mais nada.