blue city | erling haaland

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continuação de yellow heart

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CLARISSE

quatro meses antes

      Manchester não era como Dortmund. Não importava quantas vezes o Google tivesse me dito que, sim, um dos símbolos da cidade era a droga de uma abelha, que tudo aqui em Manchester tinha a ver com trabalhadores fabris e industriais, que Dortmund nem era tão especial assim porque os britânicos engomadinhos tinham dado a partida para a primeira máquina a vapor na Revolução Industrial e sua densidade populacional fosse um milhão de vezes maior que a nossa e todos os outros blá, blá, blá que li durante minhas pesquisas. Manchester ainda não se parecia com Dortmund e a mensagem de Herman que dizia "nem vai precisar se acostumar com o jeito britânico de viver, porque Dortmund e Manchester são iguais" era só uma piada de muito mau gosto do meu irmão mais novo.

Manchester era pavorosa. Do seu jeito clássico e histórico até o último grão de poeira, era pavorosa.

Aperto a mão da mulher de meia idade e olhos verdes foscos. Ela tem cabelos castanhos manchados por fios brancos, lábios finos e pálidos e um nariz aquilino, avermelhado pela gripe que a atingiu durante a semana. Tenho quase certeza de que deveria estar quente neste país abandonado por Deus, não quero me gabar, mas quando sai da Alemanha, uma semana atrás, Dortmund estava climaticamente melhor. Não posso dizer o mesmo sobre o nosso humor. Dias ensolarados, corações escuros pela decepção. Manchester, por outro lado, estava aproveitando a felicidade impossível de guardar mesmo debaixo do clima esquisito. Pelo menos metade da cidade estava.

Bufei uma risada amarga.

Eleonora Banks demorou a soltar a minha mão enquanto a balançava freneticamente, tinha aquele olhar sonhador de quem acabou de conquistar a aposentadoria e estava dando adeus ao lugar sem olhar para trás. Repetiu algumas vezes a frase "não irá se arrepender" com aquele sotaque engomadinho e aquela risada forçada que deveria ser simpática. Acreditei nela, mas fiquei tentada a replicar um "duvido muito", só porque detestava britânicos e seus sotaques e detestava esta cidade.

Ela me soltou e tirou do bolso do casaco jeans o que fiquei esperando por toda aquela última conversa. As chaves param em minhas mãos antes que eu possa pensar 1,2,3 e Eleonora me lançou um sorriso de dentes grandes.

— Seu avô não irá se arrepender! — ela comentou em soprano, sinto sua animação me bater na cara e todos os pensamentos ruins que tive sobre a mulher fazem ainda mais sentido. Sou como aquela criatura verde, feia e rabugenta que Dr. Seuss criou e Jim Carrey deu vida no cinema. — Em dias de jogos, esse lugar enche com a torcida! Você sabe, fish and chips é a nossa coisa como pretzels são a de vocês, sabe, alemães. — Mais sorrisos dentuços e sinto vontade de bater a minha cabeça na parede de tijolos da construção que me encara com janelas escuras e portas brancas que parecem mais um sorriso dentuço como o de Eleonora.

GOL DE PLACAOnde histórias criam vida. Descubra agora