No futebol, um gol de placa é um gol muito bonito, considerado merecedor de uma placa ou homenagem a quem fez o gol.
No amor, um gol de placa é aquele marcado por alguém que, entre erros e acertos, acerta um cabeceio, encobrindo o goleiro e virando...
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BUENOS AIRES, ARGENTINA
A chuva caia sobre mim como um dilúvio. Eu deveria ter ouvido o que a recepcionista do hotel disse assim que saí. As nuvens escuras que despejavam uma tempestade torrencial por Buenos Aires não faziam sombra sobre a cidade no início da tarde, mas bastou algumas horas para que o tempo virasse e o mundo começasse a acabar.
Corri para atravessar a rua, esperando que o trânsito da cidade fosse um pouquinho menos atolado. Água jorrava pelo asfalto e meus tênis estavam encharcados — não que fosse fazer diferença, afinal, estava inteiramente molhada naquele instante. Me esgueirei entre um carro e uma moto e pedi desculpas assim que um dos motoristas buzinou e gritou pela janela.
Meu espanhol não era dos melhores, mas achei que tivesse entendido o xingamento direcionado a mim. Mais uma vez, desejei ter dado moral ao aviso da recepcionista. Quando cheguei a calçada, me abriguei embaixo do toldo de uma loja. Havia algumas pessoas ali que, assim como eu, decidiram tentar a sorte. Limpei meu rosto com as mãos, tirei o celular do bolso da calça e abri o Google Maps. Era para eu ter chegado até aquela rua uma hora atrás, não fosse o golpe que um taxista tentou me dar. Rodando o centro da cidade por mais de trinta minutos, só percebi o que estava acontecendo quando passei a ver inúmeras vezes o mesmo outdoor.
Era isso que acontecia com turistas tão sem noção quanto eu: eram feitos de bobo por qualquer otário!
As direções no mapa diziam que eu precisava andar mais uns cinco minutos à frente e, então, a sorveteria Firenze apareceria na esquina. As fotos na internet diziam que uma bandeira italiana estava pintada em uma das vidraças e a cor das paredes era verde. Esperava que continuasse no mesmo lugar ou eu poderia começar a chorar naquele instante. Caminhei esbarrando no fluxo constante de pessoas com guarda-chuvas e mais reclamações eram lançadas em minha direção. Estava começando a me adaptar com algumas das palavras gritadas com desprezo, mesmo que não entendesse absolutamente nada, o ódio era compreendido em qualquer lugar do mundo.
Bom, eu também ficaria irritada se, em plena segunda-feira de pico, no meio de uma tormenta que não parecia que teria fim, uma maluca tentasse nadar na maré contrária. Quando uma folga no movimento surgiu, suspirei em agradecimento. A partir daí, não demorou muito para que encontrasse o estabelecimento que procurava. Era difícil não enxergá-lo. Havia um sorvete enorme pendurado sobre o toldo, a bandeira chamativa era vista em distâncias e o verde era muito mais gritante do que imaginei.
Só podia ser coisa de Elise.
Corri para chegar até a porta, entrando sem pestanejar. Um sininho tocou sobre a minha cabeça, anunciando minha chegada para o total de zero pessoas dentro do estabelecimento. Soltei o ar como se tivesse feito uma maratona e grunhi exasperada. Só podia ser karma. Todas as coisas que haviam dado errado desde que aquela garota impertinente foi embora de Florença... só podia ser karma. Minha vida era muito tranquila antes da minha meia-irmã inventar de que suas chances de sucesso não estavam em nossa casa, mas em um continente novo, longe de todo mundo. Desde então, a única coisa que conseguia fazer era pensar no quão irresponsável ela poderia ser. Talvez fosse egoísmo da minha parte, mas Elise nunca foi o membro mais maduro da nossa família. Esse era o problema de ser mimada.