ainda bem | lucas paquetá

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                Se existe algo no mundo que eu não gosto, são surpresas

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                Se existe algo no mundo que eu não gosto, são surpresas. E minha vida era regada delas, como uma piadinha muito sem graça do universo. Parecia que nada que eu planejava poderia sair como eu queria, era tudo uma grande loteria em que, às vezes, a sorte estava ao meu lado e, sempre, o azar era o meu melhor amigo.

Tudo começou quando eu tinha dez anos e tive de me mudar para o Rio de Janeiro. Minha família era de Cotia, em São Paulo, nasci e cresci ali, tropecei nas lajotas do meu bairro e quebrei um braço jogando taco no meio da rua. Lembro de uma vez que briguei com um moleque mais alto que eu porque ele queria se engraçar pra cima do meu irmão mais velho. Tive que correr três quarteirões para que o pivete não me arrebentasse inteira.

Eu me orgulhava das cicatrizes que havia arrumado ao longo da infância e me orgulhava de todos os diplomas colados na geladeira da minha mãezinha. Feira de ciências na escola? No papo. Título de futsal da escolinha? Eu tinha vários. Medalha de honra ao mérito de todos os bimestres? ! Eu fazia coleção delas. Meu grupinho de amigos me idolatrava e eu me achava a última bolachinha do pacote.

Então, um dia meu irmão teve de se mudar para o Rio de Janeiro, para poder jogar na base do Flamengo. Eu como uma corintiana roxa me senti traída. O moleque tava indo pra outro estado jogar no Flamengo?

Sem chances.

Bati o pé. Mas quanto mais birra fazia, mais me sentia mal. Era o sonho do meu irmão e se tinha uma coisa de que eu entendia essa coisa era de sonho. Guilherme merecia. Aquele pirralho irritante sonhava com a fama e o sucesso todo santo dia, era o que o tirava da cama e fazia aquele sorriso prepotente brotar na cara feia dele logo de manhã cedo.

No Rio de Janeiro, eu tive que refazer minha vida. Escolinha nova, turma nova, pessoas novas. Tava no papo. Reconstruí o que eu tinha perdido em pouco tempo. Gabriela Goes não era pouca coisa, não. Títulos, amigos, popularidade e notas altas vieram como chuva de verão, desabaram sobre mim e eu aproveitei cada momento.

Teve um tempo que pensei que eu poderia ser tudo na vida. Um futuro que daria inveja em qualquer um. Eu era tão sonhadora quanto meu irmão mais velho, tava no sangue, coisa que passava de pai para filho e orgulhava nossa família.

Então, a segunda surpresa colocou meus pés no chão. Eu tinha quinze anos quando conheci o Alberto. Jogador amigo do meu irmão. Eles eram amigos do tipo "vou entrar na sua frente e levar um tiro no seu lugar". Beto era gatinho e desde o dia que apareceu na nossa casa pela primeira vez, me apaixonei. Foi tiro e queda. Ele tinha aquele sorriso idiota de cantinho, cabelinho loiro na régua e olhos azuis que pareciam duas bolinhas de gude, aquelas que você nem quer jogar porque são tão bonitas que parecem pedras preciosas.

Eu fiquei caidinha pelo garoto. Não me importava muito que ele fosse dois anos mais velho que eu e que tivesse a pior fama entre as garotas da escola. Todo mundo queria um pedaço dele, eu queria um pedaço dele e faria de tudo para conseguir.

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