Capítulo 12

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– Davis, precisamos conversar – depois de uma madrugada pensando no assunto, ele parecia a melhor opção de Aisha para seu namorado falso.

O que Aisha não sabia é que Luke estava magoado por ter a visto com Dean pela janela e não queria se aproximar para não acabar falando o que vinha na sua mente. Ele tinha acredita na história da depressão e mesmo chateado, não descontaria suas frustrações em uma pessoa supostamente doente. Agora era ela que corria atrás dele pelos corredores.

– Luke? Precisamos conversar, você não me ouviu? – ela se pôs na frente dele depois de finalmente tê-lo alcançado enquanto ele suspirava cansado, não queria vê-la, ainda não estava pronto para aceitar que estava apaixonado por uma pessoa que não seria capaz de o retribuir.

– Desculpa Aisha, tenho um trabalho pendente para entregar, preciso ir. – Luke nem se quer a olhou nos olhos, se afastou rapidamente e apressou o passo para sair rápido dali.

Aisha não entendeu nada do que tinha acontecido, estranhou ele ter se afastado assim levando em conta que na última vez que ela tinha o visto, eles se beijaram e ela tinha sido mais gentil do que de costume. Não tinha como imaginar o real motivo dele ter feito aquilo e depois de alguns minutos pensou que devia ser paranoia dela e que talvez Luke não estivesse em um bom dia.
Só que nos três dias seguintes a história se repetiu com as mais variadas desculpas e conseguir falar com ele já havia virado uma questão de honra e ego para ela, estava decidida a usar todas as artimanhas possíveis e já estava com a primeira em mãos: o endereço da casa dele.

Depois de – por intermédio de Elena – conseguir autorização do pai para sair, Aisha foi com o motorista e um segurança para o bairro de Luke, Matteo ainda não confiava nela para deixa-la sair só. Estava próximo do anoitecer quando a Andrews se deparou com a casa onde o Davis morava. Não era humilde como ela julgava que seria, claro que não era uma mansão como a dela mas ainda assim era grande, bonita, definitivamente Luke tinha uma boa família.

Ao bater na porta, se deparou com uma senhora ruiva e simpática de mais ou menos quarenta anos, tinha um rosto incrivelmente familiar, não parecia nada com Luke mas a lembrava de outra pessoa, só não sabia quem.

– Olá, como posso te ajudar? – a senhora disse com um sorriso no rosto.

– Senhora Davis? Gostaria de falar com Luke, ele está? – Aisha também sorriu, só que falsamente.

– Sim querida, entre. Vou chama-lo no quarto, digo que quem o procura?

– Aisha Andrews, nós estudamos juntos.

– Você é a... – Ashley nem precisou terminar a frase para Aisha saber o que ela diria.

– Sim, senhora Davis, sou a filha de Matteo e Elena.

– Por favor, pode me chamar apenas de Ashley e me perdoe por minha indiscrição, pensei que você fosse diferente.

– Todos sempre pensam – disse baixinho, quase que de forma inaudível, se segurando para não revirar os olhos.

Ashley não ouviu, já estava subindo as escadas para chamar o filho no quarto. Enquanto isso, Aisha observava os detalhes da casa, viu que haviam fotos antigas na parede mas não teve coragem de se levantar do sofá para ver mais de perto. Tudo era bonito, de bom gosto, mais colorido e alegre do que ela estava acostumada mas parecia ser um lar aconchegante e terno, assim como a matriarca, que apesar de curiosa, parecia ser uma pessoa boa e carinhosa, diferente de Elena que faziam anos que não se aproximava sem ter um motivo por trás.

– Aisha? Ela se surpreendeu ao ver de quem era a voz feminina que tinha a chamado do topo da escada.

– Nicole? O que faz aqui? – perguntou.

– Eu que te pergunto, o que faz na minha casa? – Nicole respondeu sorridente, não esperava que Aisha fosse aparecer na casa dela.

– Eu preciso falar com o Luke...

– Meu irmão?

– Luke é seu irmão? – ambas estavam confusas com as informações mas foi nesse momento que Aisha se deu conta de quem era o rosto que ela havia achado parecido com o de Ashley. Mãe e filha era cópia uma da outra, mesmo tom de cabelo, mesma cor dos olhos, altura similar.

– Infelizmente sim – Nicole diz irônica e ambas riem – o que ele aprontou dessa vez?

– Nada, eu acho, preciso da ajuda dele com um problema pessoal.

– O que houve? Você está bem? Posso te ajudar com algo?

“Poderia se meu pai não fosse surtar por eu namorar uma mulher” Aisha pensou.
Matteo sabia que ela era bissexual mas acreditava que ela ficava com mulheres apenas para provoca-lo e por isso nunca validou a sexualidade da filha. Provavelmente ele surtaria com o suposto namoro, acharia que era provocação e tripudiaria da pior forma. Sem contar que as pessoas ainda tinham uma mente antiquada e retrograda.

– Eu estou bem, são coisas da escola mesmo. – Aisha disse, sabia que essa história da depressão provavelmente tinha deixado algumas poucas pessoas preocupadas.
Ela desmentiria essa história para Nicole futuramente, ela lhe inspirava honestidade e talvez pudesse lhe dar um voto de confiança. Provavelmente para Lily também se a mesma se demonstrasse ser assim. Não gostava de confiar nas pessoas mas ser tratada como uma bonequinha de porcelana por todos era algo que não aguentaria por muito tempo.

As duas passaram alguns minutos conversando trivialidades da escola até que Ashley retornou para a sala.

– Querida? – Aisha pensou por cinco segundos em responder com a frase de um livro que leu quando mais nova e ainda era uma boba romântica: eu não sou sua querida.

– Eu e meu filho não estamos em um bom momento e ele não quis ouvir o que eu tinha a dizer, mas ele está lá em cima, você pode subir, o quarto dele é o terceiro, a direita.

– Obrigada!

– Boa sorte com ele, Luke está um porre nos últimos dias. – Nicole disse e Aisha riu.
Não teve dificuldade de identificar qual era o quarto dele, o desenho de hogwarts na porta entregou rapidamente qual era já que ele costumava usar camisetas temáticas dos filmes.

Deu duas batidas na porta e ouviu Luke gritar de volta um “vai embora mãe, não quero conversa”.

Então Aisha bateu de novo e disse:

– Sou eu, Luke, Aisha Andrews, precisamos conversar.

Demoraram poucos segundos até um Luke surpreso abrir a porta.

– O que faz aqui? – perguntou atônito.

– Estou tentando falar com você desde terça e você anda fugindo de mim. – Ela disse em tom acusatório.

– Bom, agora não tenho mais para onde fugir, fale o que quer de mim. – Ele falou sinceramente, adoraria poder fugir daquela conversa, ainda mais que o ambiente e as circunstancias não o ajudariam muito. Estavam sozinhos, no quarto dele.

– Preciso da sua ajuda, você vai achar maluquice o que tenho para te propor mas realmente preciso de você nisso, você quer namorar comigo?

Luke ficou extremamente surpreso com a pergunta e chegou a se iludir brevemente com o teor daquela conversa.

– O quê?

– Não se iluda com pouco, Davis. Preciso que você finja ser meu namorado na frente de algumas pessoas – foi direta ao ponto – seriam alguns jantares, mãos dadas pela escola e bom, talvez possamos aproveitar juntos esse namoro sem a parte dos sentimentos. – Ela disse maliciosamente, aquele teatro não precisaria ser casto e puro.

– Você por acaso lembra o que aconteceu na última vez que conversamos?

– A gente se beijou, porquê?

– Corrigindo: você me beijou e sumiu, assim como me beijou na boate várias vezes e me ignorou várias vezes depois e agora vem atrás de mim porque acha que sou um idiota que vai aceitar participar desse teatro com você.

– Até onde me consta, eu estava doente.

– Aisha, por Deus, você pediu para trocar de armário e ir pro outro extremo da escola só para não ficar perto de mim antes de toda aquela babaquice que fizeram com você e antes de ficar doente.

– Eu já pedi desculpas por isso.

– Mas isso não apaga suas atitudes que só beneficiam a você mesma.

Aisha já sabia que aquela discussão era causa perdida para ela, sabia que tinha sido escrota com ele e que seria difícil fazê-lo mudar de ideia sem usar suas táticas.
Ela se aproximou dele e cochichou no seu ouvido, tal qual no dia em que se conheceram:

– Isso pode beneficiar a nós dois.

Ele ficou desconcertado com isso, por mais que se esforçasse, não se achava muito capaz de resistir muito tempo aos efeitos de Aisha Andrews. Luke já estava apaixonado, como fingiria não sentir nada por meses? Como beijaria ela e diria ao seu coração para que não acelerasse todas as vezes? Como aproveitaria esse namoro sem a parte dos sentimentos? Era difícil, o lado racional dele dizia para que negasse a proposta e seguisse a ignorando até esquece-la, mas seu lado sentimental clamava por beijos e toques.

– O que eu tenho a ganhar com isso?

– É só pedir o que quiser e será seu. – Aisha disse novamente próxima ao ouvido dele.

– Preciso de um tempo para pensar, segunda te dou uma resposta definitiva.

– Tudo bem, mas pense bem antes de decidir, é uma proposta de benefício mútuo e eu sempre cumpro o que prometo. – Ela pegou sua bolsa que tinha jogado em cima de uma poltrona qualquer enquanto conversavam e antes de sair do quarto dele, deu um beijou em sua bochecha, bem próximo a boca.

– Até segunda.

Luke a olhou sair com cara de bobo, ainda não acreditava em tudo o que tinha acabado de acontecer. Era nessas horas que mais sentia a falta do pai, queria abraça-lo, pedir um conselho sincero, mas ele nem se quer tinha atendido suas últimas ligações, não respondeu nenhuma de suas mensagens, não disse nada sobre seu paradeiro e muito menos lhe esclareceu as dúvidas que tinha.
Aquilo era estranho se tratando da pessoa de caráter que seu pai sempre tinha demonstrado ser e por mais que Luke tentasse, não imaginava o que podia haver por trás disso. Na verdade, já estava ficando preocupado, pensando que talvez algo de ruim tinha acontecido e por isso Peter estava praticamente incomunicável. Ele precisava acha-lo, precisava saber o que havia por trás.

Depois de alguns dias pensando, chegou a conclusão que Aisha – com o todo o dinheiro e poder da sua família – era o meio tecnicamente mais fácil de obter resultados já que não sabia se quer por onde começar a procurar. Só que aceitar a proposta dela implicaria novos problemas para a vida dele já que ele não era acostumado a fingir, muito menos agir como se não sentisse nada. Era difícil, uma verdadeira faca de dois gumes e ele sabia que aceitando ou não, terminaria magoado de qualquer forma.

Luke acabou demorando alguns dias a mais do prazo estipulado para pensar e ter uma decisão final, enquanto Aisha que já estava sem paciência e farta de esperar, se manteve afastada para não o pressionar. Ela não tinha outra opção além dessa, na verdade, já que nenhum outro menino de Moon Garden tinha aparentado cumprir minimamente seus pré-requisitos.

Na segunda feira da semana seguinte uma decisão final havia finalmente sido tomada por Luke, que não aceitaria participar de nada sem impor algumas cláusulas. Enquanto Aisha estava foi pressionada por todo o fim de semana na própria casa a resolver o mais rápido possível aquele problema já que a situação de Matteo estava apenas decaindo, ela não aguentava esperar mais, mas antes de enfrentar, tinha um breve acerto de contas.

Aisha estava em divida com Lily depois de ter arremessado o celular dela na parede, enquanto estava no auge da sua raiva, por isso, comprou o último modelo de uma marca famosa e decidiu presenteá-la. Era uma espécie de trégua já lhe era conveniente ser amiga de Lily e mesmo não admitindo que sentia esse tipo de coisas, tinha empatia pela garota. Não seria sua amiga de fato mas a trataria como seu projeto pessoal, a tornaria forte e a ensinaria a se defender assim como ela precisou aprender logo cedo. Só na vez dela não havia ninguém, precisou aprender sozinha a base dos socos e pontapés que sua vida lhe dava constantemente.

– Isso é para mim? – Lily perguntou emocionada ao ver a nova amiga lhe estendendo o embrulho que tinha em mãos.

– Sim, eu estava te devendo isso e...

Antes de concluir a frase, foi abraçada de forma calorosa. Para Aisha havia sido apenas um celular de algumas centenas de dólares. Para Lily, foi um gesto de carinho que nunca tinha recebido de ninguém.
Depois de ambas passarem aquele dia na escola juntas, a pequena Lodge se afastou brevemente para guardar seus livros e Aisha ficou na sala organizando seu material. Estava distraída, cantarolando uma música qualquer até se dar conta que alguém a observava da porta.

– Você adora ficar me observando, não é? – ela perguntou.

– Não se ache muito – Luke respondeu no mesmo tom – já tenho uma resposta para aquilo que me propôs.

– Você tem um raciocínio bem lento, eu diria, uma semana para dar uma resposta sobre algo tão simples e...

– Eu aceito – ele diz rapidamente – mas tenho algumas condições e vamos precisar conversar bem antes de começar esse namoro.

– Tudo bem, proponho um jantar de negócios amanhã, às oito.

– Jantar de negócios, vai tratar isso dessa forma?

– Não confunda as coisas, Davis. Te mando um e-mail com o endereço.

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