- Alô, Luigi, você está aí? - Vitor perguntava do outro lado da linha.
- Oi, estou sim. Nossa, que surpresa! Claro que lembro de você, mas tem muitos anos que não conversamos. Desde minha mudança para fora do Brasil, acabamos perdendo o contato. Até perguntei de você para minha mãe, ela disse que seus pais mudaram e você estava cursando medicina no interior - respondi, ainda sem entender o motivo daquela ligação repentina depois de tantos anos.
- Sim, você foi embora, das vezes que voltou nunca conseguimos nos encontrar e a vida foi passando. A Amanda casou com o Sérgio, lembra dele? Estão morando no RJ e eu, mesmo resistindo por um tempo e tentando outras coisas, acabei vindo para Ribeirão Preto fazer medicina - ele falava, me colocando a par das coisas.
- Que legal, os seus pais que devem estar contentes. Eu sei que a Amanda não levava mesmo jeito para a profissão, você sempre deixou no ar o que poderia fazer.
- Pois é, as nossas brincadeiras de médico serviram para algo, não é mesmo - ele disse, gargalhando ao telefone e me fazendo ficar corado.
Gael me olhava, com um jeito desconfiado, tentando prestar atenção na conversa e entender quem era a pessoa que estava no outro lado da linha.
- Bons tempos - foi a única coisa que consegui dizer - Mas o importante é que você será um profissional excelente, já deve estar quase se formando, não?
- Estou sim, esse é meu último ano - ele respondeu - Mas vim para São Paulo esse final de semana e meu pai comentou comigo que encontrou sua mãe na semana passada e ela disse que você estava no Brasil por conta do aniversário do seu irmãozinho. Aliás, agora ele já deve ser um homem feito, não é mesmo? Falei com a Manoela, que por coincidência disse que estava cuidando dos preparativos e me passou seu contato.
- Sim, um homem feito - respondi, olhando para Gael e recordando as coisas que aquele homem, o menino que até uma semana atrás enxergava como meu irmãozinho, era capaz de despertar em mim - Inclusive vim para o Brasil justamente por conta do aniversário de 18 anos dele, que foi ontem, se a Manoela tivesse comentado comigo eu falava para ela te trazer.
- Nossa, o tempo passa mesmo, dê meus parabéns a ele, seria um prazer ter ido e principalmente reencontrado você, mas acho que não ficaria confortável em aparecer depois de tantos anos, na sua casa, em uma festa, afinal temos muitas histórias de festas na sua casa, não é mesmo? - ele disse, rindo por certamente recordar de nossas aventuras quando adolescentes.
É, realmente, minha vinda para o Brasil foi apenas para criar situações que me deixavam encabulado.
- Mas você ainda está em São Paulo, não é mesmo? - ele perguntou - Se fosse possível, gostaria de te encontrar, colocar o papo em dia, você topa?
- Minha passagem de volta para Nova York é na Terça-Feira a noite, você fica em São Paulo até que dia? - respondi, mas na dúvida se seria uma boa reencontra-lo depois de tantos anos.
Pude notar que Gael continuava atento a conversa e quando citei meu retorno para Nova York seu semblante ficou triste, como se a realidade batesse na porta. Ao mesmo tempo, dava para notar um olhar de ciúmes ao perceber o quanto aquela conversa se estendia. Mesmo nunca tendo contado para ele sobre minhas aventuras da época da adolescência, Gael era um rapaz esperto e certamente notou algum clima na conversa.
- Poxa, mas que viagem rápida, pensei que ficaria mais tempo em São Paulo - respondeu Vitor - Se você puder, podemos marcar algo hoje à noite, um barzinho, o que acha?
- Eu preciso verificar - tentava arrumar uma desculpa para evitar aquele reencontro - Esses dias foram corridos, mas se der eu te aviso e nos encontramos, pode ser?
- Ok - disse ele desanimado com minha resposta incerta - Mas faz um esforço, pensa com carinho, pode ser? Seria bom reencontrar um amigo das antigas.
- Tudo bem, pode deixar. Eu te aviso até o fim da tarde, de qualquer maneira foi bom falar com você. Da um beijo nos seus pais - respondi, desligando o telefone.
Minha mãe, Álvaro e Chiara nem deram bola para a ligação. Mas o olhar de Gael era um misto de curiosidade em saber quem era, ciúmes por sentir um clima no ar e tristeza por relembrar que em 2 dias eu partiria para Nova York. Pelo menos era isso que eu achava.
VOCÊ ESTÁ LENDO
AMOR DE IRMÃO
Historia CortaDois irmãos, laços de sangue, até onde isso pode definir o que é certo ou errado? Difícil dizer o que é permitido ou não quando nosso coração nos prega uma peça.
