ELEANOR
O SOM SECO E CORTANTE de metal rasgando carne irrompe no silêncio da floresta, seguido pelo baque surdo de um corpo caindo e o estrondoso tilintar metálico da armadura reverberando como um trovão. O impacto chocante sacode minhas entranhas, despertando um alívio quase profano misturado a um pavor gélido. Meu corpo gira por instinto, antes que a mente consiga processar o ruído, buscando desesperadamente a origem daquele som fatal.
O que vejo, contudo, paralisa meu sangue nas veias.
No chão, uma cabeça grotesca e decapitada repousa em uma poça de fluido espesso e viscoso. Os olhos enormes e brilhantes, de um roxo vivo e alienígena, ainda estão fixos em algum ponto vazio. As escamas que cobrem sua pele cintilam à luz, refletindo tons de prata e púrpura, como uma armadura de cristal estilhaçada. Sua boca está entreaberta, revelando fileiras de presas afiadas como lâminas, dentes que pareciam feitos para pulverizar ossos. O cheiro metálico de sangue inunda minhas narinas, misturado a algo mais azedo, quase químico, que queima minha garganta.
Uma voz grave atravessa o silêncio pesado, chamando meu nome com uma clareza quase palpável. O som parece ter peso, cada sílaba vibrando como um comando inescapável. Meu olhar sobe, hesitante, em direção à origem do chamado. Na penumbra, uma figura imponente emerge das sombras, cada passo ecoando na superfície dura como um tambor ameaçador.
A luz da tocha mais próxima finalmente o alcança, revelando sua presença de forma devastadora. Ele tem cabelos negros como a noite, que caem em ondas desalinhadas, emoldurando um rosto esculpido com traços austeros e marcantes. Sua mandíbula forte, a sombra de um sorriso quase predatório, e os olhos... olhos verdes intensos, como folhas iluminadas pelo sol ao meio-dia, penetrantes e insondáveis. Cada detalhe emana poder, perigo e algo mais, algo que faz meu coração hesitar entre o medo e a curiosidade.
— Eleanor... finalmente te encontrei. — A voz dele é uma navalha raspando em veludo, grave e rouca, um sussurro que promete a desgraça.
Antes que eu consiga respondê-lo, antes que a primeira sílaba escape, o quarto se liquefaz em névoa. A silhueta do homem distorce-se e seu sussurro mescla-se a um som agudo, metálico e insistente. Sou arrancada do pesadelo com a violência de um corpo içado da água fria. As imagens ainda me ardem na retina, turvas e perturbadoras: um abismo de horrores que a realidade, agora um véu fino sobre a minha alma, mal consegue ocultar.
Abro os olhos, ofegante. O calor de um corpo estava próximo, mas o espaço ao meu lado estava vazio. Arthur já estava acordado, sentado e apoiado no manto de lã sobre o chão de terra e musgo, observando-me com uma intensidade silenciosa. Sinto a ausência dele, cruelmente paradoxal, como se um continente nos separasse. Ele é carne e osso, mas sua essência se desfez.
A presença de Arthur, é um suplício silencioso. Seus braços não me oferecem o refúgio familiar que eu busco, mas apenas apertam a culpa que me consome. O olhar que antes me oferecia a ternura de um protetor e companheiro de jornada está agora maculado, carregado por sombras densas de desaprovação e angústia. A cada respiração que eu tomo sob o manto de lã, sinto o peso sufocante de sua preocupação.
Eu gostaria de quebrar o silêncio, para dizer que fiz o que fiz por necessidade, não por escolha. Mas as palavras parecem presas na minha garganta, engolidas pelo abismo de culpa que separa nossas almas. O que ele pensa de mim agora? Será que ele me vê como um monstro, como aqueles que juramos combater juntos? A incerteza me consome, transformando sua presença confortadora em um lembrete doloroso do que perdemos.
Quando finalmente arrisco um olhar na direção dele novamente, encontro seus olhos verdes sombrios fixos em mim. Não há raiva ali, apenas uma tristeza profunda que corta meu coração. É como se ele estivesse lutando para reconciliar a irmã que ele ama com a imagem dessa pessoa que ele vê agora. E eu, eu não sei como consertar isso, como restaurar a confiança quebrada entre nós.
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Hydrazar: O Despertar do Gelo (EM REVISÃO)
Action→PRIMEIRO LIVRO! O frio é a sua coroa. O trono foi roubado. A vingança, forjada no gelo. Em um reino que pune a magia com a morte, Eleanor não é apenas a última herdeira: ela é um segredo vivo que pode congelar o mundo inteiro. Forçada a correr e a...
