IX.

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DRAKAR

A PROPOSTA DE CASAMENTO me persegue como o frio aço de uma lâmina pressionada contra a garganta, cada palavra impregnada com o peso sufocante de um reino à beira do abismo. Eleanor, a última herdeira dos Syndarion, não é meramente uma lenda sussurrada entre as sombras, ela é um poder bruto, uma tempestade indomável que nenhum homem ousaria tentar dobrar. Eu, o rei que deve dominar o dragão, ou talvez seja eu quem será consumido pelo seu fogo?

Olho para a grande janela de minha sala, observando as nuvens se dispersarem no horizonte e revelarem uma lua pálida. O silêncio que se instala parece um prenúncio das decisões que mudarão o rumo do meu reinado.

Sagacius entra silenciosamente na sala, como sempre, com suas vestes negras deslizando pelo mármore frio.

— Majestade, — ele murmura, fazendo uma reverência contida, mas seus olhos, sempre perspicazes, estudam cada detalhe de minha expressão. — os homens retornaram da missão com Eleanor Syndarion. 

Eu entendo o que ele quer dizer. Há algo no ar, uma energia palpável que só os mais perceptivos podem captar. Eleanor aceitará ou recusará? Seu silêncio, por enquanto, é uma resposta mais perturbadora do que qualquer palavra poderá ser.

— Sente-se, Sagacius. Tenho refletido sobre muitas coisas, — digo, acenando para o assento à minha frente. Ele se aproxima com cautela, sentando-se devagar, como se cada movimento pudesse quebrar algo no ar. — o que diria sobre esse casamento? Será a única maneira de unir nossas forças ou estamos simplesmente alimentando um fogo que não pode ser controlado?

Sagacius inspira profundamente. Seus olhos escuros penetram nos meus.

— Majestade, não se trata apenas de uma aliança de forças. O nome Syndarion representa mais do que poder militar, carrega consigo mitos, crenças antigas e, acima de tudo, um destino profetizado. Se Eleanor for a chave dessa profecia... então talvez não tenhamos escolha. A questão é se você está preparado para o peso dessa aliança.

Reflito sobre suas palavras, minha mente vagando pelas implicações de uma união com Eleanor. A disputa entre as casas não é apenas política, é uma questão profundamente pessoal. Há segredos que eu ainda não desvendei, segredos enterrados nas fundações do próprio castelo em que me encontro.

— Você menciona a profecia dos Syndarion como se fosse inevitável, — digo, com um tom de amargura na voz. — mas qual é o preço de fazer parte dela?

Sagacius desvia o olhar por um momento, talvez hesitando, ou talvez calculando o quanto me revelaria.

— A verdadeira questão, majestade, é se Eleanor domina seu destino ou se é dominada por ele.

Levanto-me abruptamente, o peso das minhas dúvidas e responsabilidades me forçando a me afastar do assento. Caminho até a lareira, onde o fogo queima lentamente.

— As histórias falam de uma herdeira que liberará uma fúria antiga, — murmuro, mais para mim mesmo do que para ele. — e se Eleanor for essa herdeira? E se essa fúria que ela desatar vier contra nós?

— Sua Majestade precisa compreender que, se Eleanor realmente for essa herdeira, não há como evitar o confronto, — diz Sagacius, levantando-se também. — ela será a chave para nossa vitória... ou nossa destruição.

Um novo elemento começa a se formar na minha mente, uma ideia que eu sei ser perigosa, mas que poderá trazer as respostas que eu preciso.

— E se eu encontrasse Eleanor pessoalmente? — Pergunto, virando-me para Sagacius. — Antes que ela faça qualquer escolha definitiva... talvez haja uma maneira de conhecê-la, de avaliar sua força, não como rei oferecendo um casamento, mas como um homem buscando entendimento. — Sagacius arqueia uma sobrancelha, mas não me interrompe. — Ela já conheceu meus homens, mas eu... Eu sou um mistério para ela, assim como ela é para mim. Eu preciso ver por mim mesmo se ela é essa força incontrolável, se há algo além dos rumores e das lendas.

Hydrazar: O Despertar do Gelo (EM REVISÃO)Onde histórias criam vida. Descubra agora