XV

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AS TOCHAS DO ACAMPAMENTO cintilam como se também lutassem para permanecer acesas sob o vento cortante

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AS TOCHAS DO ACAMPAMENTO cintilam como se também lutassem para permanecer acesas sob o vento cortante. Suas chamas lançam sombras inquietas, dançando de forma irregular pelas tendas e barricadas improvisadas. O cheiro de madeira queimada mistura-se ao aroma metálico do frio, enquanto a neve soprada pelas rajadas teima em invadir os espaços abertos. O tecido das barracas estala como açoites, cada som ecoando como um grito abafado de guerra.

Eu estou sentada à cabeceira da mesa principal, envolta em um casaco pesado que pouco faz contra o gelo que parece nascer dentro de mim. Ao meu redor, os lordes vociferam em discussões acaloradas, suas vozes fundindo-se em uma cacofonia que, para mim, não passa de um ruído distante. Falam de estratégias, mapas e alianças, mas cada palavra parece tão distante quanto o calor de uma fogueira esquecida.

Minhas costas estão eretas, minhas mãos pousam sobre a mesa com a calma que se espera de uma rainha. Mas por dentro, eu sou uma tempestade de gelo capaz de matar qualquer um. A cada frase lançada, a cada olhar que busca aprovação, o peso das decisões que precisa tomar aperta como uma corrente invisível ao redor do meu pescoço. Eu sou o eixo de tudo, e, ao mesmo tempo, uma engrenagem à beira de quebrar.

Por um instante, o mundo parece prender a respiração. O tempo para, suspenso em uma tensão palpável. Então, rompe-se o silêncio. Um rugido. Ele não é humano, nem deste mundo. Thalindra. O gelo nas montanhas ao redor responde com um estalo profundo, como se a terra tivesse medo de contradizê-la. Fecho os olhos, sentindo o chamado dela, o elo entre nós vibrando em meu peito como um fio de seda tensionado ao limite. Thalindra não é apenas uma Glacithor, ela é parte de mim. E, ultimamente, eu sinto que ela duvida de minha força, como se estivesse à espera de algo que nem eu sei se poderei oferecer.

O silêncio que segue o rugido é quebrado apenas pelo barulho de uma garganta sendo limpa. Um dos lordes, o mais ousado – ou talvez o mais tolo – inclina-se para frente, forçando um tom que oscila entre respeito e insolência.

— Majestade, a vossa graça parece... ausente esta noite.

A lâmina afiada do meu autocontrole reluz, brilhando como aço prestes a ser desembainhado. Não respondo de imediato. Deixo que o peso do silêncio se arraste entre nós, tão cortante quanto o frio lá fora. Quando finalmente abro os olhos, o gesto é calculado – lento, deliberado. Meu olhar encontra o dele com uma precisão gélida, como uma flecha atingindo o alvo.

— O silêncio de um rei ou rainha, Lorde Altheran, não é ausência. É poder. — Minha voz corta o ar, baixa e mortal, carregada de um gelo que nenhuma fogueira poderia derreter. — E deveria ser mais aterrorizante do que qualquer palavra que escolham proferir.

Permito que o silêncio retorne, pesado e denso, espalhando-se pela sala como uma sombra. Os murmúrios que se erguem ao meu redor não me incomodam; ao contrário, deixam o momento ainda mais calculado. Espero, deixando cada segundo pesar como chumbo, antes de avançar, inclinando-me apenas o suficiente para que minhas próximas palavras perfurem.

Hydrazar: O Despertar do Gelo (EM REVISÃO)Onde histórias criam vida. Descubra agora