III.

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DRAKAR

COMO ELA PODE SER TÃO BELA?

Estes sonhos... são sempre o seu santuário, a única verdade.

Sempre o mesmo rosto que a razão insiste em não reconhecer, e que, paradoxalmente, pulsa com uma verdade mais sólida do que a realidade que me cerca. Um rosto sem história que devora a minha realidade.

E a vertigem dos cabelos. Ah, os cabelos.

A cascata prateada forjada pelo luar, platinada ao limite, que não brilha, incendeia como se fosse a própria luz lunar condensada. Os fios se movem numa lentidão irreal e espectral, como uma névoa que me envolve e me arrasta, prendendo meu olhar em um espetáculo hipnótico. Esquecê-los é uma impossibilidade; ignorá-los é uma rendição.

Dias e noites se esvaem. Ela não se move. Ela resiste.

Gravada em minha mente, não como uma memória, mas como uma cicatriz de luz, uma âncora indelével que nem o tempo nem a escuridão conseguem extinguir.

Quem é você? Ela existe fora de mim? E, se é real... por que esta perseguição incessante, quem é ela?

O que esconde esta presença que me consome, este rosto que jamais contemplei e, ainda assim, possui olhos oniscientes que parecem deter a chave da minha própria identidade, sabendo quem eu sou melhor do que a minha própria alma?

A inquietação pulsa, crescendo como uma ferida aberta que não cicatriza. E, de novo, aquela ideia volta. Ousada. Imprudente. Obsessiva.

Mandar procurá-la.

Talvez seja loucura. Ou talvez... seja a única forma de calar esse vazio que cresce aqui dentro. Talvez, se eu encontrá-la... as respostas venham. Ou, quem sabe... paz.

Meus olhos percorrem rapidamente a sala do pequeno conselho, buscando uma distração que não vem. Nada. Nem mesmo o silêncio me serve agora.

As paredes me observam. Ou, pelo menos, é o que parece. As tapeçarias pendem, pesadas, retratando a história de Thalador como feridas abertas no tecido. Linhas, cores e sangue costurados juntos. Memórias que não me pertencem, mas que me esmagam mesmo assim.

A luz do sol poente escorre pelas janelas arqueadas, tingindo o mármore de dourado, manchando a mesa de carvalho com reflexos que dançam... como se zombassem. Ali, onde tantas sentenças foram ditas, onde tantas vidas começaram e acabaram com uma única palavra.

Do meu assento elevado, vejo os conselheiros. Silêncio absoluto. Cada um mergulhado no próprio teatro interno, esperando – sempre esperando – que eu fale. Mas minha mente não está aqui. Nunca esteve. Está presa a ela. Àquela sombra que me persegue até nos sonhos.

Lá fora, as torres de Thalador se erguem, negras contra o céu em mutação. A luz dourada desliza sobre os glifos entalhados nas pedras – vestígios do reinado do meu bisavô. Marcas de um passado que não me deixa. Que pesa. Que sufoca.

Cada conquista dele ecoa aqui dentro, nesse salão cheio de vozes mortas. E cada eco é uma acusação. Um lembrete do que se espera de mim... e do quanto isso me dilacera.

Meus olhos caem sobre o mapa aberto à minha frente. Territórios. Linhas. Fronteiras. Estratégias.

Minha mão desliza por elas quase sem perceber, traçando o contorno como se isso fosse me ancorar no presente. Mas não é a guerra que me ocupa. Não são terras.

É ela.

— Vossa Graça... Vossa Graça! — a voz me atravessa como uma lâmina, arrancando-me do torpor. Piscando, volto – à força – para o agora.

Hydrazar: O Despertar do Gelo (EM REVISÃO)Onde histórias criam vida. Descubra agora