XIV.

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DRAKAR

O VENTO FRIO DA MANHÃ GOLPEIA meu rosto enquanto cruzamos os campos em direção ao castelo, ou melhor, a Fortaleza de Valebris, o meu lar. O silêncio que antes me envolvia agora parece um fardo pesado, uma ausência palpável que ressoa em cada batida do meu coração. Eleanor está longe, e a dor da sua ausência é mais forte do que eu gosto de admitir. Minhas mãos apertam as rédeas com força, como se aquilo possa me ancorar, impedir que minha mente vagueie para lembranças que só aumentam a agonia.

À medida que as torres familiares do meu castelo surgem no horizonte, a sensação de retorno não traz o conforto habitual. O lugar que antes era um símbolo de segurança agora parece uma prisão. O crepitar distante de tochas e o som abafado dos guardas anunciam a chegada, mas eu estou longe de qualquer sentimento de lar.

O grande portão de ferro range ao se abrir, e cavalgamos para dentro do pátio principal. Meus olhos percorrem o ambiente, mas minha mente está a quilômetros dali, onde Eleanor está agora, lutando sua própria batalha interna.

"Eu não vou desistir de você." Minhas próprias palavras ecoam em minha cabeça. O tom resoluto que usei com ela, a promessa que fiz... cada vez que eu repito aquelas palavras em minha mente, sinto o peso da responsabilidade que carrego. Não há como voltar atrás, e sei que essa luta não será apenas contra o mundo, mas contra Eleanor e suas próprias muralhas.

— Drakar! — A voz aguda da rainha-mãe corta o ar, me tirando de meus pensamentos. Vejo sua figura esguia descendo as escadas de pedra, os olhos brilhantes como o aço. Vestida em um manto de veludo azul escuro, bordado com o brasão da casa Valorian, minha mãe ainda carrega a imponência de seu sangue.

Ela não demora a cruzar o pátio, seu andar rápido e gracioso contrastando com o peso das palavras que eu sei que viriam. Antes mesmo que ela possa falar, eu já sei o assunto.

— Você demorou, Drakar. — Suas palavras saem como uma bronca, mas há mais do que isso em seu tom. Há preocupação, uma angústia sutil que ela não sabe disfarçar bem. — Recebi cartas dos lordes Valorian, que estão preocupados com o rumo das coisas. E, claro... o assunto do seu casamento.

Eu suspiro profundamente, os músculos do meu pescoço tensionando-se à menção do tema. Paro o cavalo e desço, meus pés tocando o chão frio do pátio com um baque leve, mas não me viro para encará-la ainda. Preciso de um momento.

— Mãe... não agora. — Minha voz sai firme, mas não fria. Eu sei que ela não desistirá fácil, e aquilo apenas aumenta o peso da conversa que eu tento adiar.

— Não agora? — Ela ri baixinho, o som ecoando entre as paredes de pedra do castelo. — Drakar, você já está adiando isso por tempo demais. É hora de pensar no futuro da nossa casa. A sua união é vital para mantermos as alianças. Os lordes Valorian, da minha casa, esperam isso de você. Eu espero isso de você.

Viro-me lentamente, finalmente encontrando o olhar dela. Aqueles olhos prateados, herança da casa Valorian, são como lâminas afiadas que me analisam.

— E eu, mãe? — A pergunta sai mais ríspida do que eu pretendo. — Alianças, futuros, esperanças... e o que eu quero? Ou o que eu preciso?

Por um instante, algo suaviza no rosto dela. Talvez um vislumbre de compreensão, ou de reconhecimento da luta que eu travo. Mas logo sua expressão endurece novamente, o escudo da rainha-mãe voltando ao lugar.

— O que você precisa é de uma esposa. — Sua voz soa mais suave agora, mas carregada de uma determinação inabalável. — É isso que vai fortalecer sua posição. Há várias ladys dignas. Lady Thalys Valorian é uma excelente escolha. Jovem, de boa linhagem, e disposta a unir nossas casas mais uma vez.

Hydrazar: O Despertar do Gelo (EM REVISÃO)Onde histórias criam vida. Descubra agora