8.

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- Você pode deixar que eu levo pra ela se qui... - Matthew ia dizer pela milésima vez, mas o irmão o cortou na hora.

- Uau, quanto esforço para ver a Huang, não tem nada pra me contar não? - Ele falou com um sarcasmo quase violento.

O outro fechou a cara, olhando para os lados irritado.

- As vezes entendo todo mundo que te acha um idiota. - Disse por fim, fechando o vidro do passageiro e seguindo rumo ao estacionamento do seu prédio, sem se despedir do mais novo.

Chris se sentiu um pouco chateado pela reação do outro, também ecoava em sua cabeça a pergunta de quem era "todo mundo" a quem ele havia se referido. Bufou frustrado, caminhando sem muita pressa pelas calçadas de pedra, na direção do bloco onde Nick e Mia tinham suas aulas.

De fato era muito próximo, uma vez que a região do campus dedicada às artes e linguagens era a mais antiga da universidade e, lentamente, a mais esquecida também quando o assunto era reformas.

Ainda dentro do carro, havia espiado algumas coisas que haviam anexadas no fichário do irmão, muitas folhas eram desenhos e anotações da garota. Haviam páginas sem fim, escritas à mão, sobre o significado do uso de determinados símbolos, acessórios e tecidos dentro da contracultura punk. Era engraçado, se levasse em conta o estereótipo criado em torno do "punk", não fazia o menor sentido ser logo Mia procurando a respeito daquilo.

Matt havia observado algumas coisas de canto de olho também, falou que ela desenhava bem, que a alguns dias havia enviado fotos da última versão que produziu para um dos looks que ele usaria nas fotos. Ele gastava todos os seus elogios para Mia sempre que possível e aquilo lentamente incomodava Christopher.

Ela do dia para a noite estava tão próxima dos seus dois irmãos enquanto continuava o desprezando... Tudo bem que o sentimento era mútuo, mas ainda o deixava irritado.

Bem na entrada do prédio alongado e de tons cinzas, sentiu seu corpo ir contra o de outra pessoa, tirando sua linha de raciocínio fosse lá onde ela estivesse.

Olhou ao redor confuso, segurando com força o fichário nos braços. Só então, notou os cabelos loiros em um penteado meio preso, aqueles olhos azuis também o encontraram e então ele a reconheceu de fato: era Heather, sua namorada - se é que podia chamar assim - da época da escola.

- Me desculpe. - Ele balbuciou meio confuso ainda, tinha um bom tempo que não a via e definitivamente não era o melhor momento.

- Ah, Chris. - Ela sorriu amarelo. - O que faz por aqui?

- Eu estudo aqui. - Respondeu com o cenho franzido, como se aquilo não fosse óbvio. - Na verdade, em outro prédio mas enfim, faço música.

- Oh, entendi. - Sua resposta pareceu até depreciativa, um tom ácido naqueles dentes extremamente brancos da garota. - Faz seu estilo.

O sorriso dela tinha uma pitada de maldade. Quando lembrava das coisas que Heather já havia dito e feito a inúmeras pessoas, inclusive ele, perguntava-se como conseguira ser tão imaturo para se relacionar com ela até quase terminar o ensino médio. Era uma patricinha, do tipo mais detestável e pelo jeito, continuava tão ruim quanto antes.

- Tenho que ir. - Christopher disse subitamente, passando por ela sem esperar outra fala.

Adentrou os portões nervoso, ficou próximo a porta principal do prédio, esperando a figura de Mia surgir para que ele pudesse apenas se livrar logo do serviço que Nick havia designado e voltar a sua rotina.

Aquele dia estava desenrolando-se de uma forma tão estranha. Estranha no mau sentido. Os minutos passavam com uma lentidão angustiante, já se arrependia de não ter cedido a Matt quando se ofereceu para fazer aquilo por ele. Tentou se distrair passando por centenas de fotos no Instagram, mas nem isso adiantou.

Depois de mais ou menos cinco minutos, uma risada familiar chamou sua atenção, mas virou-se para olhar com calma na tentativa de disfarçar a curiosidade.

Viu Mia, usando suas sapatilhas de gosto duvidoso que ele sempre insistia em zombar, ao lado de uma garota ruiva, que conhecia apenas de vista pelo campus. Esperou as duas se aproximarem e entrou em sua frente, com uma cara de poucos amigos enquanto segurava o fichário verde nas mãos.

- Christopher? - Mia franziu o cenho surpresa. - Cadê o Nick?

- Provavelmente fumando com algum cara que ele achou bonitinho. - Ele deu de ombros, ambos pararam de caminhar.

- Um dia normal na universidade. - A ruiva riu simpática, olhando com uma careta para Mia. - Vou nessa, tenho aula prática no último andar, até mais.

Chris abanou em despedida, ela sorriu para ele em devolutiva. Huang rolou os olhos discretamente antes de voltar-se para ele outra vez.

- Pediu pra te entregar isso. - Ele explicou, esticando o item para ela. - Bem legais as suas anotações.

- Bom, obrigada. - Ela sorriu sem mostrar os dentes. Alguns segundos desconfortáveis de silêncio caíram e a ansiedade pareceu invadir o espaço entre eles. - Ham... Eu vou pra aula, também deve estar no seu horário.

- Ah, sim. - Pigarreou sem jeito. - E tipo, qualquer hora você pode me mostrar como estão as peças do projeto? Me falar das... simbologias, tudo mais? Eu gostaria de saber sobre.

A garota fez uma careta, soltando um riso nasalado.

- Não sei se você vai entender muita coisa, mas claro. - A resposta foi direta, como sempre entre eles.

Aquilo foi a gota d'água no mar de frustrações do Sturniolo para aquela manhã. Ela não havia falado com o mesmo tom de desprezo que Heather, mas ainda parecia insinuar que ele apenas não era bom o suficiente para entender algo em que ela era ótima.

- Eu sei que você é muito inteligente, mas não precisa me tratar como se eu fosse burro, beleza? - Seu tom foi mais rude que o costumeiro.

- Você me acha muito inteligente, Senhor Rockstar? - Ela sorriu convencida e com bom humor.

- Tá, esquece. - Ele murmurou, virando de costas para ir embora.

Mia não entendeu bem aquela explosão repentina dele, mas se sentiu mal pelo garoto. Puxou-o pela mochila, quase levando a mesma ao chão para pará-lo ainda nas escadas da entrada.

- Chris, é brincadeira, me surpreende ter que justificar isso logo pra você. - Disse com gentileza. - Eu te explico, relaxa.

Ele travou em seu lugar, a olhando enquanto colocava a mochila de volta ao ombro. Ficou envergonhado sem explicação, desviou o foco para o chão quando sentiu o rosto queimar.

- Tá bem. - Cedeu, a espiando rapidamente antes de descer as escadas de vez. - Foi mal.

Ela ficou ali parada sem entender nada, vendo-o caminhar rápido por entre os estudantes que corriam apressados pelo horário que estava quase no limite. Tinha a cabeça baixa bem como os ombros encolhidos e sumiu entre a multidão.

Não tinha a menor ideia do por que repentinamente ele havia ficado tão sensível com aquela brincadeira, que por sinal era leve comparada as da época do ensino médio. Ainda assim, se colocava no lugar dele, mesmo odiando assumir tal empatia. Odiava que desdenhassem de sua inteligência.

Entretanto, a reação inesperada dele não era seu maior choque. Havia uma pergunta que inundava sua cabeça, quase a perturbando pela raridade daquela situação.

Christopher Sturniolo havia pedido desculpas?

model | chris sturnioloOnde histórias criam vida. Descubra agora