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O primeiro mês de recuperação foi a pura definição de adaptação. Em pouco tempo foi indicado que Cassie abandonasse a cadeira de rodas, começando a usar um andador que a permitia ter mais independência dentro de casa. Mia optou por manter os tapetes ainda guardados, além de estar o tempo todo alerta. A porta do quarto sempre ficou encostada por conta de Andy, mas agora permanecia quase escancarada.

Toda noite, por volta de duas e meia, Cass se levantava e acendia a luz fraca de um abajur na sala. Quase instintivamente, a mais velha também despertava, mas continuava deitada, com os olhos abertos na escuridão que não era absoluta por pouco.

Podia ouvir o som do andador se aproximando do corredor, dela entrando no banheiro e depois lavando as mãos, em seguida, se afastava e um armário na cozinha era aberto, a pia era ligada enchendo um copo de vidro com água. Os ouvidos de Mia estavam atentos a tudo, inclusive quando abria a porta de vidro da sacada, apoiava o copo na mesinha colorida que fora presente de Ashley e começava a tragar um cigarro.

Eram sempre três cigarros, as vezes ela também chorava um pouco, ou conversava com Andy, que havia se afeiçoado de forma quase instantânea com a mais nova. Apenas quando o som das molas do sofá sendo pressionadas para baixo pelo corpo da garota soava e o abajur era apagado, a irmã sentia-se no direito de voltar a dormir.

Na manhã seguinte, Mia sempre encontrava o copo lavado e posto de cabeça para baixo no escorredor da pia, mas Cassie também sempre acordava antes.

Com frequência, era encontrada sentada na sacada, observando os pássaros. Era algo quase religioso, elas não discutiam sobre essa rotina que se estabeleceu, da mesma forma que nenhuma das duas sabia que a outra estava sempre acordada as duas e meia da madrugada.

Depois de apenas três dias com a mais nova morando consigo, Mia teve de voltar a rotina da faculdade. Fora de casa, ela se tornara muito mais falante do que antes, talvez como forma de compensar aquele silêncio sufocante que a envolvia durante os finais de tarde.

Christopher se preocupava e muito.

Alguns professores haviam sido muito compreensivos com suas faltas, outros nem tanto, então precisou estender delongadas horas de estudo na biblioteca, na tentativa de recuperar o tempo perdido.

Claro, as vezes as garotas trocavam palavras, pequenas conversas que morriam, mas eram melhores do que nada. Como no dia que Mia começou a relembrar mentalmente seus afazeres do dia e foi interrompida quando citou "Pagar a conta de Internet." Cassie disse que ajudaria a pagar as contas e a irmã sem jeito respondeu que não era problema, que não precisaria se preocupar em conseguir dinheiro.

Prontamente, contou que duas semanas antes do "acidente", abriu uma conta separada dos pais e gradativamente subtraiu valores, repassando para sua própria conta por baixo dos panos. Disse que tinha chegado a pensar em fugir e sumir de vez no mundo, mudar de nome, algo do gênero.

— Nossa, você pensou em quase tudo mesmo. — Reagiu a mais velha com surpresa.

— Já viu de quem eu sou filha? — Cass respondeu e sorriu pequeno ao perceber que tirou uma risada bem sincera da irmã.

Talvez essa tenha sido a fresta que se abriu, bem pequenininha, no recomeço da relação delas.

Naquela mesma semana, Mia acordou com mensagens muito empolgadas de Chris, porque ela havia aceitado finalmente ir ao cinema no final da tarde, ao invés de ficar até a meia noite imersa nos estudos. Perguntou qual filme iriam ver, mas ele disse logo que era segredo. Com estes planos em mente, decidiu aceitar uma carona dos meninos para ir a faculdade.

Se espreguiçou na ponta dos pés e seguiu pelo corredor, encontrando Cassie na sacada. O cinzeiro prateado estava limpo, mas isso não significava muito porque sabia que a mais nova sempre o lavava antes que a irmã acordasse.

model | chris sturnioloOnde histórias criam vida. Descubra agora