5| 𝐔ma difícil decisão

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Quando vi Dandy na minha frente, milhares de perguntas vieram à minha cabeça. O que diriam as pessoas da vila se soubessem que ele estava ali, firme e forte? Só criaram aquele evento porque achavam que ele tinha desaparecido. Quando lembrei que a biblioteca fora fechada por causa dele, até fiquei com um pouco de raiva.

⎯  Mas se todo mundo pensa que você morreu... ⎯  disse Minho. ⎯  Você deveria estar morto.

Dandy olhou para ele e perguntou:

⎯  Eu pareço morto?

⎯   Não ⎯  respondeu Minho. ⎯  Então, é só voltar para a vila e provar que está vivo, aí ninguém mais vai pensar que você morreu.

⎯  Mas eu não quero fazer isso.

Julguei que tivesse escutado errado, porém ele foi muito claro ao afirmar que não queria voltar para a vila.

O povo contava que era impossível retornar dali, então estranhei quando ele tratou o assunto como uma opção, Dandy não comentou que não podia, mas simplesmente que não queria voltar.

⎯  Tem como sair daqui? ⎯  perguntei.

Acho que ele percebeu que tinha dito alguma coisa errada e procurou consertar. Demorou, pensou, gaguejou e disse:

⎯  Eu pretendi dizer que quero voltar; entretanto, dentro de certas condições.

⎯  E que condições são essas?

⎯  Vocês foram à sala dos heróis? ⎯  perguntou ele.

⎯  Aquela que tem os quadros enormes? ⎯  perguntou Minho.

⎯  Essa mesma! Quero fazer parte dela.

⎯  Mas, para isso, você precisa matar um monstro, e eu não estou vendo nenhum por aqui ⎯  completou Lee.

⎯  Você é um rapaz muito esperto ⎯   disse Dandy. Eu não acreditei. Os dois não falavam coisa com coisa, e vai ver que era por isso mesmo que eles se entendiam. ⎯  Bem, venham comigo. Vamos sair daqui, pois essa poeira está me incomodando.

⎯  Tem uma saída? ⎯  perguntei.

⎯  Claro ⎯  respondeu ele. ⎯  Você não está vendo?

Dei uma olhada pelos arredores, mas só vi aquele monte de penas.

⎯  Agora, vamos parar com essa conversa. Sigam-me.

Ele então mergulhou no meio de todas aquelas penas e desapareceu. Só era possível perceber o caminho que ele percorria em razão da movimentação produzida. Minho respirou fundo e mergulhou atrás do homenzinho bigodudo. Para não ficar sozinho, fiz a mesma coisa. Foi muito complicado "nadar" no meio daquelas penas, porém percebi que, a cada vez que alguém as atravessava, um buraco se formava, mas também sumia rapidamente. Eu tinha que ser bem rápido para não me perder.

Quando, finalmente, conseguimos atravessar aquele "mar" branco e fofo, encontramos um imenso jardim. Não havia telhado e a luz do Sol iluminava o ambiente. Havia um lago e variadas plantas com flores gigantescas. Algumas eu nunca tinha visto antes.

⎯  Rápido. Vamos à Sala dos Grandes Quadros ⎯  disse Dandy, nos chamando em sua direção. Minho fez questão de ir até o lago para tomar água.

Tentei apressá-lo quando, de repente, percebi que a luz do Sol sumira do nada. Olhei para o alto e levei um grande susto. Acima de nós, pairava o monstro. Desta vez eu não via apenas seu olho, mas todo o seu corpo. Não era mesmo uma ave, parecia uma mistura de pássaro com outro animal. Ele tinha grandes asas e um bico pontudo. O corpo parecia ser de um leão e ele produzia sons terríveis. Compreendi que era por ali que o monstro tinha acesso aos salões da biblioteca.

O ser começou a se aproximar e, claro, eu precisava sumir dali rapidamente. E é o que eu teria feito se Minho, ao tentar se levantar, não tivesse caído e afundado no lago.

Fiquei em pânico, sem saber o que fazer. Salvar o bonitão ou fugir dali? Eu nem sabia se o garoto teria alguma chance, pois já estava submerso e eu sequer desconfiava se ele conseguiria nadar.

Se eu tentasse salvá-lo, poderia morrer afogado ou terminar nas garras daquele monstro. Fugindo, eu estaria seguro, junto de Dandy. Essa seria a decisão natural de qualquer membro da minha vila.

Como não havia tempo para pensar, acabei tomando a única decisão que podia: a correta.

⎯  Socorro! Socorro! ⎯  gritou Lee ao reaparecer na superfície

Eu também deveria gritar por socorro, mas o que fiz foi me esticar em direção a ele para retirá-lo do lago.

⎯  Rápido! Me dê a sua mão ⎯  falei. O monstro descia para nos atacar. Eu conseguia perceber isso mesmo sem olhar para cima, pois a cada segundo tudo ficava mais escuro. De asas abertas, ele escondia a luz do Sol, criando uma imensa e perigosa sombra.

⎯  Eu não alcanço⎯  respondeu Minho ⎯  Não consigo. ⎯   Ele nem tentou, para dizer a verdade. Ficou se debatendo, engasgando e berrando. Estiquei o braço ainda mais. Deu certo, pois senti os dedos dele tocando nos meus, porém não era o suficiente para que eu conseguisse puxá-lo.

O Grifo urrava, estava prestes a me capturar novamente. Então, me enchi de energia, dei um grito para que Minho tentasse se aproximar só um pouco e, finalmente, agarrei a mão dele, sentindo seu corpo se grudar ao meu por conta da força que fiz. Ele, porém, se desesperou e caiu novamente, quando percebi, fui puxado para dentro do lago. Instintivamente, comecei a me debater, mas notei que havia alguma coisa errada. Meu joelho doeu e logo senti que eu roçava em algo duro: o chão do lago. Era muito raso, mal cobria a altura do meu joelho.

Olhei para Minho e ele permanecia em pânico. Eu me aproximei e o segurei com força.

⎯  Obrigado  ⎯   disse ele. ⎯  Você salvou minha vida gatinho. ⎯  Não consegui responder pois, quando olhei para cima, vi que o Grifo estava bem próximo e respondi:

⎯  Acho que não ⎯  fechei os olhos, esperando pelo pior, quando, de repente, ouvi Dandy gritando:

⎯  Agora você não me escapa!

Abri os olhos e vi quando o homenzinho correu em nossa direção. Eu não sabia se ele estava perdido ou algo parecido, mas girou um laço, atingindo em cheio a perna do Grifo.

⎯  Agora eu te peguei. ⎯  comemorou ele. O Grifo então gritou, deu um giro, como que tentando se livrar daquele incômodo, e alçou voo, levando com ele Dandy, que girava no ar preso à corda. O homenzinho ria descontroladamente.

⎯  E agora? ⎯  falei. ⎯  O que é que a gente vai fazer?

⎯  Podíamos sair desta água. Está um pouco gelada. ⎯  reclamou Minho.

Eu concordei e saí, sozinho. Bastou que eu fizesse isso para que Minho entrasse novamente em pânico. Ele deslizava no chão lamacento, não conseguia se colocar de pé. Eu o ajudei e logo estávamos fora do lago novamente. Ele se comportava como se nada de estranho tivesse acontecido. Eu estava muito bravo, pois quase fui capturado à toa.

⎯  Vamos embora. Tenho medo de que o monstro possa voltar.

Disparamos em direção à Sala dos Grandes Quadros e, de repente, algo caiu sobre a minha cabeça. Era um livro, pequeno, de capa dura e, por isso, doeu um pouco quando me atingiu.

⎯  O que foi isso?  ⎯  perguntou Lee.

Ele viu quando o livro surgiu. Deveria estar com Dandy e, durante aquele estranho voo, o exemplar escapou da mochila dele.

⎯  É um livro. ⎯  falei.

⎯  Mas é muito pequeno. Não dá para escorar nada com isso. Joga fora!

⎯  Claro que eu não ia jogá-lo fora... Se estava com Dandy, deveria ter alguma importância. ⎯  Na capa, não havia qualquer título gravado. Ao abri-lo, porém, senti um calafrio e, se eu estivesse certo, Dandy estava correndo grande perigo.

𝗽𝗿𝗶𝘀𝗶𝗼𝗻𝗲𝗶𝗿𝗼𝘀 𝗻𝗮 𝗯𝗶𝗯𝗹𝗶𝗼𝘁𝗲𝗰𝗮' 𝗆𝗂𝗇𝗌𝗎𝗇𝗀 Histórias para pegar e não largar. Descubra agora