12| 𝐎 vale do Grifo

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Quando deixamos o pântano, senti uma espécie de alívio e insegurança. Tinha sido realmente fácil escapar de lá, bastou esquecer o medo. O chão se firmou, as árvores deixaram de ser ameaçadoras e até pulei de cipó em cipó para me divertir. Porém, ao mesmo tempo, o local era extremamente perigoso e poderia ter sido meu túmulo. Se Minho não tivesse aparecido, eu teria morrido sufocado. Cada vez mais eu entendia que me encontrava em um mundo onde uma linha bastante delicada dividia o real do imaginário, e isso era o mais difícil de enfrentar: eu poderia me expor a algo real e me dar muito mal, achando que era imaginário, e vice-versa.

Acho que tinha sido uma grande sorte que tivéssemos conseguido chegar até ali inteiros.

⎯ Falta pouco agora Hannie. ⎯ disse Minho, me tirando do meu pensamento. ⎯ Depois que terminarmos esta estrada, chegaremos ao Vale do Grifo.

Sim, finalmente estávamos chegando. A estrada que seguíamos era cercada por livros. Havia alguns tão grossos que iriam fazer a alegria de muita gente na vila. E foi olhando para eles que senti, de verdade, muita saudade dos meus pais. Será que eles estavam sentindo a minha falta? Teriam tentado me procurar, me salvar, ou nem teriam percebido a minha ausência?

Eu realmente não queria estar naquela situação. Lembrei-me do que aconteceu no diário número 17. Até o início da tarde, o dia tinha sido inteiramente normal, mas, de repente, se transformou numa enorme calamidade em razão de um furacão gigante que veio para nossa vila. Aliás, foi ele que levou os diários números 5 e 13. Acho que, se alguém encontrá-los qualquer dia, deverão estar muito borrados.

O que interessava agora era o fato de que eu finalmente havia chegado às portas do Vale do Grifo.

-Nossa! ⎯ gritou Minho. ⎯ Que lugar incrível!

E eu tive que concordar. A estrada terminava à beira de um precipício e, de onde estávamos, podia-se avistar um vale imenso, com rios, florestas e até alguns animais estranhos que se escondiam atrás de livros ainda mais grossos do que os que eu tinha verificado pelo caminho. Além disso, praticamente no centro de tudo havia um pico de base bastante larga, mas que ia se afinando, adquirindo o formato de uma agulha. Bem no alto dele, o ninho do Grifo.

Era exatamente igual ao que eu me recordava do desenho no mapa.

Minho se sentou para ficar admirando a paisagem. Eu não conseguia ver se o Grifo estava no ninho. Fiquei com medo de que ele aparecesse novamente sobre nossas cabeças. Ali, onde estávamos, realmente não era possível permanecer. Já tínhamos chegado tão longe, não seria um desfiladeiro de centenas de metros que iria nos impedir. Procurei um meio de descer e, para minha surpresa, era o mais óbvio possível.

Os livros!

Eles formavam uma espécie de escada natural. Toda aquela montanha em que estávamos era formada por livros, de todos os formatos e tamanhos imagináveis. Bastava tomar cuidado para não errar o local em que iríamos apoiar o pé, que tudo daria certo.

⎯ Vamos Lino. ⎯ chamei Minho. ⎯ Acho que encontrei um jeito de descermos.

Ele não me pareceu interessado em deixar o seu belo ponto de observação, mas, assim que iniciei a descida, ele veio atrás de mim. Descobri em seguida que foi muito mais fácil ter aquela ideia do que executá-la... Havia muita umidade e algumas páginas estavam bastante escorregadias. Era preciso precaução para não escorregar e se esborrachar no fundo do vale.

𝗽𝗿𝗶𝘀𝗶𝗼𝗻𝗲𝗶𝗿𝗼𝘀 𝗻𝗮 𝗯𝗶𝗯𝗹𝗶𝗼𝘁𝗲𝗰𝗮' 𝗆𝗂𝗇𝗌𝗎𝗇𝗀 Histórias para pegar e não largar. Descubra agora