8| 𝐎s pontos curiosos

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De repente, me vi arrancando a tinta com uma velocidade incrível. Assim, quando terminamos a remoção, surgiu diante de nós algo fantástico: o maior mapa que eu já tinha visto em toda a minha vida.

⎯ É um desenho bonito ⎯  Disse o Lee novamente.

⎯ É um mapa ⎯  falei. Eu já tinha visto um muito parecido durante a expedição ao Império de Gelo.

⎯ Mapa? O que é isso?

⎯ Foi num livro... ⎯  mal comecei a falar, Minho me interrompeu.

⎯ Eles só servem como apoio, nunca vi um desenho assim neles...

Fiquei pensando se ele já tivera o interesse de abrir um livro alguma vez na vida para saber como era por dentro.

⎯ Vou lhe explicar. Veja bem, o que é isto aqui? ⎯  perguntei apontando para um ponto que indicava uma sala lotada de livros.

⎯ Não sei. ⎯  reclamou Minho.

⎯  Você não acha que é muito parecido com o lugar em que estamos? Olha só, quantas estantes, livros... É a biblioteca. ⎯  Ele, derepente, ficou interessado, e eu não podia perder aquele momento, pois sabe-se lá quando eu teria outra chance de fazer com que ele compreendesse alguma coisa. Resolvi mostrar outro local. ⎯ Olha aqui, veja isto. O que lhe parece?

⎯ Uma mancha azul? ⎯  respondeu ele.

⎯ É o lago!

Ele observou melhor e fez cara de espanto. Para mim, estava tudo bem claro. Reconheci a sala com as estantes, o lago, o saguão, a porta e a Sala dos Grandes Quadros. Consegui acompanhar os corredores e as passagens pelas quais eu tinha andado. Teria sido ótimo conhecer aqueles caminhos antes de enveredar pela biblioteca. Seria uma chave para não se perder. Não conseguia entender por que alguém teria coberto aquele mapa com tinta. Deveria haver uma boa razão.

⎯  Gostei desse desenho. ⎯  disse Minho, que começou a me perguntar o que significavam os demais pontos indicados no mapa com aqueles olhos fofos. Mas, além do que eu já tinha visitado, não fazia a menor ideia do que seriam. A única coisa que era óbvia, e até assustadora, era o tamanho da biblioteca.

Na vila, sempre se comentou sobre a sua a grandiosidade e que, por essa razão, jamais faltariam novos apoios para mesas ou suportes para se bater na cabeça dos pretendentes rebeldes. Entretanto, olhando o mapa, acho que ninguém jamais conseguiu compreender o espaço ocupado por aquela construção.

Ela se esparramava por todos os lados, parecia não ter fim. Como eu já disse, nossa vila é cercada por geleiras, desertos, e a biblioteca se estendia floresta adentro. Em um dado ponto estava indicado: PROSSEGUE SEM PARAR, DESCONHECIDO: POR SUA CONTA E RISCO. O único limite que eu podia observar era justamente a porta de entrada e as primeiras salas. Depois do lago, tudo se espalhava, inclusive para o subsolo.

Continuei explicando para Minho apenas os poucos sinais que eu me sentia capaz de entender. Era incrível que existisse tanta coisa dentro dela: rios, montanhas, vales... Só dava para ter certeza de que se tratava do interior da biblioteca porque sempre havia livros em todas as partes, ora formando pequenas pontes, ora pilhas imensas, que tanto poderiam ser montanhas de livros como de picos reais. Havia algumas indicações, como toca do lobo, parque das abelhas selvagens, fundo do poço e tanque da baleia devoradora de camundongos, demonstrando que poderia haver vida animal por ali.

⎯ Gostei do mapa. ⎯  disse Minho. ⎯ Quero visitar todos esses lugares com você.

Talvez ele não tivesse compreendido que aqueles lugares poderiam ser bastante perigosos.

⎯ Não tenho certeza se eu gostaria de fazer isso  ⎯   respondi calmo.

⎯ Pois eu acho que sei por onde gostaria de começar. ⎯  disse ele apontando para um ponto do mapa.

Quando eu olhei para onde ele indicava, fiquei surpreso. Se fosse o que eu imaginava, talvez o desejo de Minho se tornasse realidade.

O ponto no mapa indicado por Minho se destacava de todo o restante. Estava cercado por um grande e irregular círculo vermelho, certamente feito à mão. Parecia que quem o fizera se esforçara para alcançá-lo, pois a imagem estava no alto do mapa; somente a base do círculo parecia bem feita. Deveria ter sido desenhado por alguém baixinho.

Dandy, teria sido ele?

De uma dúvida passei à quase certeza. No local circulado estava escrito: NINHO DO GRIFO. Agora, eu começava a juntar algumas peças. Dandy estava realmente caçando o Grifo, e não sendo caçado. Certamente procurava pelos ovos de ouro.

Imaginei que aquilo deveria ser inviável atravessar a biblioteca, tentar pegar os ovos daquele monstro, conseguir retornar e, depois, ficar esperando dez anos até que abrissem a porta novamente. O pior era que, pelo jeito, ele ainda não tivera sucesso.

Para mim, nada daquilo fazia sentido, mas eu descobri uma coisa, ou melhor, duas: primeira, que era uma aventura bastante perigosa e, segunda, que eu sabia onde Dandy poderia estar. Queria esquecer aquela situação e fiquei inventando mil desculpas, mas não me conformava em ficar parado no saguão pelos próximos dez anos.

Dandy já poderia ter saído dali. Ele deixou muito claro que conhecia todo o ritual da biblioteca.

É, não tinha jeito, o melhor era seguir minha consciência e ir atrás do estranho homenzinho, descobrir o que se passava e, possivelmente, tentar salvá-lo. Olhei para Minho e perguntei:

⎯ Você realmente gostaria de ir até esses lugares?

⎯ Sim. Se está com aquele círculo, é porque deve ser importante, não é? E o que é importante sempre é interessante, certo?

⎯ Não sei  ⎯  respondi. ⎯ Pode ser também um pouco assustador. ⎯  Olhei para o mapa e avaliei mentalmente por tudo que teríamos que passar até encontrarmos Dandy. ⎯ Mas e se para chegar nesse lugar tivéssemos que atravessar um pântano de areia movediça, um deserto cheio de cactos pontudos e sabe-se mais lá o quê. Você não teria medo?

⎯ Nunca vi um cacto na minha vida.

Para variar, fiquei sem saber se aquilo era uma resposta positiva ou não.

⎯ Então, acho que está tudo bem. Vamos até lá, até o ponto vermelho... e retornamos, se tudo der certo.

Parecia que Minho tinha acabado de ser convidado para tomar um sorvete de morango, mas fiquei feliz; pelo menos, eu não teria que passar por tudo aquilo sozinho. Teria aquele garoto nada fraco para me acompanhar.

Procuramos por alguns objetos que pudessem ser úteis durante aquela jornada. Foi muito bom, no fim das contas, que os homens tivessem largado tantas coisas para trás. Consegui pegar um cantil, um casaco e até uma bússola. Arrumei tudo dentro do alforje de Dandy, de forma que acomodassem e protegessem o ovo. Decidi levá-lo comigo, talvez fosse importante.

⎯ Agora, precisamos estudar o mapa direitinho para não nos perdermos. ⎯ Eu pretendia entender as direções, mas, pelo que já tinha visto, tínhamos que seguir sempre para o norte. Após o deserto, encontraríamos, no alto de um pico, o tal do ninho.

⎯ Pode deixar que eu já decorei o mapa ⎯  disse o Lee

⎯ Como assim?⎯  perguntei.

⎯  Olhei para ele e decorei todos os desenhos.

Incrédulo, pedi a ele que ficasse de costas e me contasse o que tinha visto. Ele me olhou com a cara mais estranha do mundo, como se eu não soubesse o óbvio, mas deu um sorrisinho, me deixando um pouco desconfigurado, virou-se e descreveu o mapa com todos os mínimos detalhes. Quando terminou, olhou para mim e disse:

⎯ Pronto, satisfeito gatinho?

Então, Minho se aproximou lentamente colocando suas mãos em minha cintura apertando-a e logo depois, beijando o meu pescoço. Em seguida, pegou a sua mochila e partiu em direção ao lago como se tivesse habitado o local por toda a sua vida.

𝗽𝗿𝗶𝘀𝗶𝗼𝗻𝗲𝗶𝗿𝗼𝘀 𝗻𝗮 𝗯𝗶𝗯𝗹𝗶𝗼𝘁𝗲𝗰𝗮' 𝗆𝗂𝗇𝗌𝗎𝗇𝗀 Histórias para pegar e não largar. Descubra agora