Foi estranho chegar ao lago. As minhas recordações daquele lugar não eram boas. Olhei para o alto temendo que o Grifo surgisse a qualquer momento. Fiquei em dúvida se a decisão de ir atrás dele tinha sido a certa.
⎯ Pronto ⎯ disse Minho. ⎯ Chegamos ao lago.
Sim, e eu achei aquilo um grande marco. Até ali, sabíamos o que existia de fato. Poderíamos retornar facilmente e encontrar abrigo nos salões que conhecíamos. De agora em diante, a única referência era a de um mapa, que, pensando bem, não deu nenhuma garantia de ser confiável.
⎯ Se quisermos chegar no lugar circulado, temos que virar à esquerda no final daquele corredor. ⎯ apontou Minho para uma passagem que se iniciava entre duas paredes de pedra.
⎯ Então vamos lá ⎯ respondi respirando fundo.
Eu tinha feito algumas anotações, copiei o mapa até onde pude, mas o Lee parecia bastante seguro em relação ao caminho a seguir. Antes de prosseguir, olhei para trás para garantir uma visão de um lugar familiar.
Entramos no corredor. Ele era gelado e um pouco escuro. Só dava para continuar porque um pouco da claridade da área do lago o atingia. Era uma espécie de túnel, ao longe podia-se ver a saída, iluminada por uma luz tênue.
⎯ Nossa, este lugar está escorregadio.
Minho tinha razão, o túnel era um pouco úmido.
⎯ Vamos nos apoiar nas paredes. Assim, escorregamos menos ⎯ falei.
Havia muito limo no chão e tudo se tornava cada vez mais liso.
⎯ Estou tentando, mas... ⎯ de repente, Minho caiu no chão.
Percebi quando o vulto dele desapareceu diante de mim. Fiz menção de segurá-lo, mas, em seguida, também me desequilibrei e caí. Se eu tivesse apenas caído, tudo estaria certo, mas, imediatamente, comecei a deslizar sem controle. Escutei os gritos do meu parceiro:
⎯ Socorro! Socorro!
Tudo ficou ingreme e a minha velocidade apenas aumentava. Aquele túnel não era reto, como eu imaginara, mas perigosamente inclinado. Tentava me segurar em qualquer coisa, mas não havia nada que pudesse me deter. Tudo que eu tentava pegar, rasgava. Compreendi então que, embora as coisas tivessem a aparência de rochas ou pedras, tudo era de papel. Milhares ou milhões de livros empilhados que foram cobertos, ao longo do tempo, por plantas, poeira, mas, no fundo, eram frágeis pedaços de papéis.
Não tive outra opção: também gritei por socorro. Um filete de água corria por baixo do meu corpo e me arrastava junto com ele. A saída se aproximava e era muito larga. Ao longe, parecia um pequeno buraco levemente iluminado, mas, quanto mais nos aproximávamos, maior ele ficava, assemelhando-se à saída de uma caverna.
De repente, ouvi claramente seu grito se transformar num eco, que foi ficando cada vez mais distante até sumir por completo. Aquele silêncio me apavorou. Minho já tinha deixado aquele túnel terrível e eu não conseguia mais escutá-lo.
Fosse o que fosse, faltava muito pouco para que eu tivesse o mesmo fim e, confesso, nunca senti tanto medo em toda a minha vida.
Atravessei o túnel e foi uma sensação bastante estranha. De repente, o medo se transformou em outra coisa, vontade de viver, de resistir. Fui praticamente tragado para fora dele e me senti bem. Daquele corredor estreito e escuro, saí para um lugar amplo e iluminado. A primeira coisa que fiz foi encher os pulmões de ar.
Eu não havia caído. Pensei que, pela velocidade com que era arrastado, eu iria despencar num abismo, mas não, apenas continuei sendo empurrado para baixo, velozmente. Não conseguia observar tudo que se encontrava ao meu redor, pois a quantidade de água aumentava enquanto eu deslizava.
Certo, pensei, não despenquei mundo abaixo, mas certamente vou me esborrachar em alguma parede, pois, com essa velocidade, não vejo como não me machucar bastante quando tudo isso terminar.
Então, senti que meu corpo não tocava mais em lugar algum, eu certamente deveria estar no ar, voando. Mas foi muito rápido, pois em questão de segundos mergulhei na água. Fui para o fundo, como uma pedra. Juntei todas as minhas forças e retornei à superficie. Quando consegui colocar a cabeça para fora, escutei o seguinte:
⎯ Não foi divertido?
Era Minho que me mirava com um grande sorriso no rosto. Olhei ao redor e vi que estava num lago, bem maior que o anterior, e novamente a luz do sol penetrava pelo alto da biblioteca. Não havia telhado. Eu me lembrei vagamente de que havia no mapa um desenho indicando água num nível inferior, mas nunca imaginei que o caminho para ela seria aquela assustadora corredeira.
⎯ Queria ir de novo ⎯ Disse Minho, estendendo a mão para me tirar da água. Posicionando a sua mão em minha cintura novamente. Como ele conseguia?
⎯ Mas você nem sabe nadar ⎯ gaguejei ainda tentando me recuperar. ⎯ Quase se afogou no laguinho lá em cima.
⎯ Mas eu aprendi quando vi você nadando.
Pelo jeito, Minho tinha uma capacidade de aprendizagem que eu ainda não havia compreendido totalmente. De qualquer forma, encharcado e refeito do susto, olhei para o alto e entendi o que tinha acontecido. Estávamos à beira de um lago que era formado por uma pequena cachoeira. A água vinha da boca do túnel, por onde escapamos, e deslizava por um caminho tortuoso junto à montanha. Sorte nossa que a água que formou o tal lago amparou a queda.
Estávamos vivos e era o que importava. A partir de agora, eu tomaria muito mais cuidado com os lugares por onde pretendia andar.
⎯ Olha o que eu achei ⎯ disse o Lee depois te tirar suas mãos fortes da minha cintura, me mostrando uma fruta vermelha que ele mordia com bastante gosto. ⎯ É uma delícia. Acho que caiu desta árvore aqui.
Era uma árvore baixinha, mas carregada com aqueles frutos. Peguei um e comi. Era muito bom, mas cheio de sementes. Como a fome era grande, não dei muita bola para aquilo. Comi alguns e coloquei outros na mochila. Não tinha certeza de quando iríamos conseguir comida novamente.
"E agora, para onde vamos?", pensei.
⎯ Você não está sentindo algo estranho? ⎯ perguntou Lino. ⎯ Estou meio tonto...
Eu estava um pouco atordoado, porém não achei que fosse algo especial. Relacionei o problema ao recente deslizamento; entretanto, quando vi Minho se curvando e em seguida se deitando, fiquei preocupado.
⎯ O que você tem, Min? Dói alguma coisa, será que você se machucou durante a queda?
⎯ Não, estou com sono, muito sono, só isso gatinho.
Achei aquilo muito estranho. De repente, comecei a sentir a mesma coisa, um sono estranho, repentino. Instintivamente, procurei um lugar para dormir, sabendo que seria inevitável, foi então que observei ao lado de Minho um resto de fruta. Ele não teria parado de comê-la, era um glutão. Até mesmo eu teria comido mais alguma....
Haveria alguma coisa de errado com a fruta? Só podia ser... Ela nos fazia dormir, mas por quanto tempo?
Meus olhos começaram a se fechar, eu tentava resistir, mas era difícil. Porém, quase no último segundo, forcei meus olhos e avistei algo que me encheu de esperança.
VOCÊ ESTÁ LENDO
𝗽𝗿𝗶𝘀𝗶𝗼𝗻𝗲𝗶𝗿𝗼𝘀 𝗻𝗮 𝗯𝗶𝗯𝗹𝗶𝗼𝘁𝗲𝗰𝗮' 𝗆𝗂𝗇𝗌𝗎𝗇𝗀
Fantasy𝐇an Jisung vive em uma vila onde as pessoas evitam o desconhecido. A cada dez anos, ocorre o desafio "A busca do livro ideal" na biblioteca local, fechada devido ao desaparecimento misterioso de um homem. Jisung e seu pai participam do desafio, mas...
