Quando me vi de posse daquele livro, fiquei preocupado. Bem, eu estava assim o tempo todo, mas o fato era que aquilo havia caído na minha cabeça como uma verdadeira bomba.
⎯ E agora? ⎯ falei.
⎯ O que foi? ⎯ perguntou Minho.
⎯ O livro, aqui está escrito que...
De repente, Minho me interrompeu e perguntou:
⎯ Como assim, "está escrito"? Você sabe ler por acaso?
⎯ Sim, eu sei...
⎯ Coisa mais inútil! Aposto que, se você não soubesse, como eu, não estaria com essa cara tão preocupada.
Como sempre, por mais estranhas que fossem as coisas que Minho falava, ele parecia ter razão.
Quem mandou eu perder meu tempo com esse tipo de coisa? Se tivesse me dedicado a escolher formigas ou contar estrelas ímpares, talvez eu fosse exatamente como todo mundo da minha vila: esperto do jeito deles.
⎯ Bem ⎯ tentei argumentar ⎯ pelo menos eu tenho certeza de uma coisa.
⎯ O quê?
⎯ Que Dandy está correndo perigo.
⎯ Mas isso eu já sabia ⎯ respondeu placidamente Minho. ⎯ Ele foi capturado por aquele bicho esquisito, então só pode estar correndo perigo. Tá vendo? Nem precisei ler para adivinhar. Livros são realmente coisas bastante inúteis.
Resolvi ficar quieto. Percebi pelo sumário do livro que, pelo menos, havia indicações de como derrotar o Grifo. Eu teria que ler aquele livro de qualquer jeito, mas ainda não tinha muita ideia do que fazer com aquela informação.
⎯ Venha gatinho, vamos ver o que tem por aqui ⎯ disse o Lee observando os grandes quadros.
Eu já tinha investigado aquela sala com meu pai e não encontrei nada de especial, mas, de qualquer forma, segui Minho. Achei um alforje no chão com o nome de Dandy gravado. Deveria ter perdido também. Coitado, fiquei com pena. Naquele momento, algo de terrível poderia estar acontecendo com ele.
Abri o alforje com cuidado. Dentro dele havia apenas uma coisa: um ovo. Achei aquilo muito estranho, pois não me parecia ser a melhor coisa do mundo para se carregar num lugar onde as coisas explodiam. Eu o devolvi para o lugar em que estava e decidi carregar o alforje comigo. Sentia que possuía uma dívida com Dandy, afinal, ele nos salvara duas vezes.
⎯ Vem ver isso aqui. ⎯ disse Minho, chamando-me para perto do quadro em branco.
⎯ Ainda falta um herói. Bem que eu queria que fosse eu.
⎯ "Este quadro só será pintado quando o último monstro for derrotado" ⎯ falei.
⎯ O que você disse? ⎯ perguntou Minho.
⎯ É o que está escrito na plaquinha ⎯ indiquei para ele, que se aproximou curioso das letras gravadas no pequeno pedaço de metal.
⎯ Está escrito isso aí? Será que o povo da vila sabe?
Eu não havia pensado nisso. Se as pessoas tinham parado de ler e não davam mais importância para o que estava escrito pelo mundo, será que desconfiariam que aquele quadro não fora pintado porque havia um monstro solto por aí?
Entretanto, aquilo não tinha importância no momento. Eu tinha muitas outras coisas com que me preocupar e, de repente, algo bem claro passou pela minha cabeça.
⎯ Como é que eu não pensei nisso antes... Minho, acho que vamos conseguir ir embora.
⎯ Como? perguntou ele.
⎯ É muito fácil. Eu me lembro do caminho que percorri com meu pai até chegarmos aqui.
⎯ Era um grande labirinto.
⎯ Sim, mas notei que havia alguns ladrilhos quebrados, que faltavam, e eu acho que consigo segui-los.
Ele ficou parado me olhando. Bem, eu também ficaria, o importante era, afinal de contas, tentar. Tão logo estivéssemos no meio da vila e contássemos o que aconteceu, talvez viessem ajudar a buscar o Dandy. Eu e Minho sozinhos, certamente não conseguiríamos.
Comecei a rastrear o chão, o que não foi muito dificil. Os corredores que eram ladrilhados estavam ainda mais danificados. Há anos não eram cuidados e soltavam-se com facilidade. Com a fuga em massa, eles esparramaram-se por todos os cantos. Tornou-se uma trilha fácil de ser seguida: havia pedaços de roupas, sapatos, chapéus, livros, um pouco de tudo.
Eu sabia que estávamos nos aproximando da porta principal, pois já conseguia reconhecer outras partes do ambiente. Corri. Minho vinha atrás de mim, ansioso e em silêncio. Parecia não acreditar que iríamos escapar ou, simplesmente, não estaria pensando em nada.
Finalmente atingimos o grande saguão de entrada, quando, então, tive uma grande decepção: a porta principal estava fechada.
⎯ Não acredito que trancaram a porta! - falei.
⎯ O que você faria se um pássaro gigante estivesse tentando te pegar? ⎯ concluiu Minho.
A resposta para alguém da vila seria: correr e tentar se proteger a qualquer custo. Se existisse alguma coisa para barrar o inimigo, como uma gigantesca porta, ela deveria ser fechada, naturalmente.
Bem, eu teria feito isso se não tivesse me ocupado em salvar o Lee, mas não adiantava falar sobre isso agora.
O que eu não podia acreditar era que meu próprio pai permitisse que a trancassem. Tentei me consolar imaginando que, provavelmente, ele não teve como lutar contra toda aquela multidão em pânico. Eu desejava que ele tivesse se esforçado bastante para impedir aquilo.
Tentamos abri-la, mas não conseguimos. Fiquei desolado. Não havia chave, tranca, qualquer coisa. Até tentei olhar pelo buraco da fechadura, mas ele havia sido bloqueado pelo lado de fora. Acho que pensaram que qualquer brecha poderia ser perigosa.
⎯ E se batêssemos? - perguntou Minho. ⎯ Talvez alguém consiga nos ouvir.
Eu já tinha feito isso, mas não da forma desesperada como estava prestes a fazer. Esmurrei e gritei. O Lee fez a mesma coisa. Procurei alguns pedaços de madeira e comecei a bater na fechadura, mas não adiantou. Ela era muito grossa, ninguém deveria estar escutando. Era fácil imaginar também que todos estivessem o mais longe possível da biblioteca.
Há anos o monstro não aparecia...
Anos?
Quando pensei nisso, senti um calafrio. Era isso mesmo. Se eu não conseguisse fazer com que alguém abrisse aquela porta, teria que esperar uma década até que o ritual dos livros fosse refeito.
⎯ Acho que estamos presos ⎯ disse Minho. ⎯ Vamos virar lendas.
Pareceu-me que ele estava feliz; entretanto, imagino que Minho ainda não havia percebido a gravidade da situação.
O que eu iria fazer preso ali durante todo esse tempo? E se o monstro reaparecesse? Fiquei com medo. Queria gritar novamente, mas imaginei que poderia piorar nossa situação.
Todo o barulho que fizemos poderia atrair o Grifo, e essa era a última coisa que eu pretendia.
E Dandy, o que teria acontecido com ele? Por que ainda estava ali? Como tinha sobrevivido?
Eu estava cheio de perguntas sem nenhuma resposta, e a principal delas naquele momento era:
⎯ E agora?
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𝗽𝗿𝗶𝘀𝗶𝗼𝗻𝗲𝗶𝗿𝗼𝘀 𝗻𝗮 𝗯𝗶𝗯𝗹𝗶𝗼𝘁𝗲𝗰𝗮' 𝗆𝗂𝗇𝗌𝗎𝗇𝗀
Fantasy𝐇an Jisung vive em uma vila onde as pessoas evitam o desconhecido. A cada dez anos, ocorre o desafio "A busca do livro ideal" na biblioteca local, fechada devido ao desaparecimento misterioso de um homem. Jisung e seu pai participam do desafio, mas...
