O desentendimento

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 Um mês depois...

Foi um dia difícil numa semana mais difícil ainda. Treinamentos e estratégias mostrando falhas, execução de planos sendo interrompidas. Os planos de Shepherd caminhavam a passos lentos e ela não estava nada feliz com isso.

O grupo de elite que recrutaram sentia o peso daqueles dias. Estavam frustrados e desanimados.

Para Remi, as coisas não poderiam estar piores. As buscas por informações sobre o desaparecimento de Avery não tiveram sucesso algum. Shepherd a transformou numa espécie de relações públicas da organização e isso era muito bom. Ela sabia como conquistar a confiança e a empatia das pessoas. Nessa função, oportunidades de subverter as ordens da mãe usando seus novos contatos para conseguir informações além daquelas exigidas por ela permitia que Remi ampliasse rapidamente o alcance de suas buscas. Mas não ter absolutamente nada após um mês inteiro de investigações era frustrante.

A relação com Weller não podia estar pior. Ele lhe passou tudo o que tinha conseguido com as agências de segurança sobre o desaparecimento de Avery através de arquivos criptografados. Fora isso, só conversaram na presença de Shepherd. Inferno! Não ter uma mísera pista para reacender a esperança dele a dilacerava. Se, pelo menos, ela não o conhecesse o bastante para saber que aquela veia pulsante da sua fonte ou os músculos tensos sobre as omoplatas era o sinal claro do quanto ele sofria...

Minuto após minuto seu fracasso como mãe também a cercava. Falhou com sua filha desde a concepção. E repetia isso dia após dia enquanto a era capaz de trazê-la de volta aos braços do pai. Talvez se a vida dela tivesse sido diferente, se ela fosse uma garota normal, poderia agora enrolar os braços ao redor de si mesma, se atirar na cama e chorar. Mas nem isso ela podia.

A reunião com Shepherd e Weller foi dura. Ela amargou cada palavra da mãe, cada gesto... Mas não transpareceu. Manteve o olhar indiferente e os comentários frios e calculistas. Quando ele propôs uma nova forma de obterem os explosivos que precisavam, manteve-se atenta sem olhar para ele uma vez sequer.

— A quantidade não é suficiente, mas negociar com os coreanos pode diminuir o rombo que essa semana nos causou. – Ele concluiu de forma totalmente profissional, como sempre fazia.

— Não era minha primeira opção, mas as perdas dessa semana não nos deixam outra escolha. Faça! – Shepherd concedeu seu aval.

— É um risco grande demais. A CIA já tem Shatei, podem ter outros contatos dentro da Yakuza. Esse plano nos entregará explosivos insuficientes e um risco incalculável. É o momento para ter calma. Nenhuma das agências sabe de nossa existência e, se queremos realmente tomar o poder, precisamos nos manter assim. — a voz incisiva de Remi trouxe os olhares para cima dela.

— O que você propõe, então? – o tom desafiador de Weller era nítido.

— Esperamos. Uma ou duas semanas mais. Yakuza fará sua limpeza interna como sempre faz. Só depois disso poderemos negociar com eles em segurança.

— Duas semanas é tempo demais. Todos os nossos planos terão que ser reorganizados – rosnou dirigindo-se diretamente para Shepherd.

— Ser servidos numa bandeja de prata para a CIA parece mais animador? – Remi retrucou.

Shepherd engoliu seco e puxou o ar pensativa. Após uma breve pausa, concluiu:

— Vamos nos recolher por hoje. Amanhã retomamos o assunto.

Weller fechou a tela do lapbook insatisfeito e saiu da sala pisando duro. Remi fez menção de fazer o mesmo, mas a voz da mãe a deteve:

— Espere!

Salve-meOnde histórias criam vida. Descubra agora