O Lar

69 1 1
                                        


Felicidade. Muitos acreditam que ela não passa de ilusão. Outros defendem sua existência real, seja ela fugaz ou duradoura. Remi nunca refletiu sobre isso. Ao longo de sua vida, considerar a possibilidade de haver felicidade à sua espera sempre pareceu uma forma enganosa de lidar com seus problemas. Concentrava-se em fazer o que devia e cumprir as ordens recebidas. Seu foco estava nisso. Kurt era seu ponto fora da curva, um convite a formas de deleite da vida que ela desconhecia. Ao lado dele, suas emoções, antes tão ponderadas e sensatas, fervilhavam em novas cores e sabores. Era tentador se entregar, deixar-se mergulhar no aconchego que ele criava.

Era incrível como as muralhas de gelo dentro dela se derretiam no calor daquele quarto. Mesmo com todas as suas certezas estilhaçadas e com o coração pulsando tão rápido e forte, ela sentia uma paz que provou poucas vezes. Sua razão silenciava, negando-lhe o alerta do quão perigoso era se entregar, afinal ela caiu numa armadilha preparada na calada da noite. Devia estar se rebelando, deixando a fúria em seu olhar atingir Kurt e Roman. Ela tinha sido clara: partir era o melhor que podia fazer nesse momento. Mas eles conspiraram contra suas razões. Agora era tarde demais. Rever a filha foi o golpe fatal.

Os cabelos dourados, as bochechas rosadas, os olhos azuis a fitando, a testa com a mesma linha de tensão do pai. Remi tentou sorrir e dizer olá, mas nenhuma palavra encontrou o caminho certo, perdendo-se em tantos sentimentos bons.

— Olá, seja bem-vinda. – A voz da menina soou receptiva.

Antes que Remi pudesse responder, Avery estava muito próxima, em pé ao lado da cama.

— Essas flores são para você.

— São lindas! – O tom afável da resposta surpreendeu até ela mesma. – Muito obrigada.

Com delicadeza, Remi estendeu o braço e projetou o corpo para o lado recebendo as flores que a pequena soltou sem cuidado algum. Impetuosa, Avery aproveitou-se da aproximação para alcançar os cabelos da misteriosa mulher, afastou-os para trás com a clara intenção de ver melhor o hematoma em seu rosto.

— É, você realmente se feriu bastante nesse acidente. Veio ao lugar certo! Somos bons em cuidar de pessoas. Cuidamos uns dos outros. E nada de motos depois disso, entendeu? Uma bicicleta já basta.

Remi sentiu-se grata por sua filha ser tão falante, as informações saltaram sobre ela antes que a razão lhe dissesse que deixar uma criança perceber seus ferimentos era um erro.

—Tio Roman, você pode trazer um vaso para as flores?

— Claro que posso.

— Obrigada. E você – disse virando-se novamente para Remi – precisa de roupas mais confortáveis. Um pijama bem quentinho e gostoso.

— Tem alguns pijamas ali sobre a cadeira. – Emma disse se aproximando. – Bem-vinda, Remi. Posso ajudá-la a se trocar.

Avery imediatamente estendeu-lhe a mão. A garotinha tinha senso de liderança, Remi teve que admitir que a genética favorável em parte era culpa sua. Assentiu com a cabeça e obedeceu. Mas havia algo totalmente novo na velha obediência que a acompanhou a vida toda. Uma nova forma de satisfação e paz.

Conduzida de volta ao banheiro, assim que a porta se fechou atrás dela, Remi pareceu voltar ao normal.

— Emma, me desculpe por tudo isso. Essa invasão...

—Shishishi! Nada disso. Sem desculpas. Estamos felizes que você esteja aqui, que tenha vindo até nós. Avery tem razão: somos bons em cuidar uns dos outros. Roman pode te confirmar isso. E você, Remi, é parte dessa família. Então, apenas deixe-nos fazer nosso trabalho.

Salve-meOnde histórias criam vida. Descubra agora