Hyosora abre seus olhos preguiçosamente, notando estar deitado em algo macio. Com uma certa dificuldade, o garoto senta no móvel onde estava deitado e observa os arredores de onde se encontrava, percebendo ser o quarto de alguém. Franziu suas sobrancelhas em confusão, a última coisa da qual lembrava era de ter sido acertado por tiros. Olhou para seu abdômen e ergueu a camiseta, percebendo haver ataduras, já avermelhadas, rodeando a região.
Abaixou a vestimenta ao que escutou a porta ser aberta e uma figura conhecida passar por ela. Kirishima. O avermelhado arregalou seus olhos ao ver o menor desperto e caminhou rapidamente até sua cama, sentando-se nela e abraçando o outro, que soltou um grunhido de surpresa e dor pela pressão em sua barriga. Ao escutar a reclamação, o maior se afasta, olhando atentamente para o Shiro.
-Como está se sentindo? Ainda dói muito?
-Não, eu acho. - O menor responde, ainda que ligeiramente atordoado. - Está tudo bem. - Eijiro o encara por poucos segundos antes de o abraçar outra vez, sendo retribuído.
-Não me assuste mais desse jeito, eu fiquei muito preocupado quando te encontrei naquele estado.
-"Naquele estado"?
-Eu estava voltando de uma patrulha com Fat-san quando te encontrei deitado no chão debaixo de uma tempestade, havia sangue ao seu redor e sua pele estava pálida. - Hyosora sentia o maior tremer ao lembrar da noite passada. - Achei que tivesse morrido. O que fazia lá? O que aconteceu? - Kirishima se afasta do menor esperando respostas, enquanto o esbranquiçado se limita a abaixar a cabeça.
-Eu estava desesperado pela situação do Yaki e não pensei direito, então acabei recorrendo as únicas pessoas que me vieram em mente.
-Então você...
-Sim, Kirishima, eu fui atrás de algum roubo para fazer e conseguir dinheiro, mas acabei em uma armadilha e quase morri. - Ele solta um suspiro.
-Como o rastreador não recebeu sua localização?
-Eles tiraram a tornozeleira.
-Mas ainda está com ela.
-Devem ter colocado.
-Não precisava fazer tudo isso, eu conversei com minha família e decidimos te ajudar com o tratamento de Yaki. - O menor levanta sua cabeça ao escutar a frase do avermelhado.
-Kirishima, já te falei que não é para gastar assim comigo.
-Tecnicamente, não é com você. - Ele sorri e o outro iria retrucar quando um espirro o interrompe. O maior muda sua expressão para uma preocupada, tocando a testa de Hyosora.
-O que está fazendo?
-Ainda está quente, a febre não deve ter abaixado. Você, provavelmente, ficou muito tempo na tempestade e agora está resfriado.
Em constrangimento por ainda ter a mão do outro em sua testa, Shiro olha para seu colo, notando somente naquele instante que a camiseta que usava era grande demais para si.
-Essa camiseta...
-Bom, você está doente, eu não podia deixar você ficar usando aquelas roupas molhadas. - Kirishima afasta sua mão e gesticula de forma nervosa. - Mas eu não fiz nada, eu juro! Até tentei ficar de olhos fechados, só que era muito difícil, então tentei olhar o menos possível.
-Não se preocupe, eu entendo. - O esbranquiçado comenta sentindo seu rosto quente, só não sabia dizer se era da febre ou de vergonha.
Interrompendo o momento constrangedor, Eijiro levanta do móvel onde estava sentado e diz que iria até a cozinha verificar se o almoço estava pronto, logo saindo do quarto apressado. Hyosora solta um suspiro e começa a observar melhor o cômodo e a cama, era macia, bem diferente do que costumava dormir em sua casa, se é que poderia a chamar assim. Sorriu consigo mesmo, faziam anos que não deitava em algo tão confortável, talvez nunca tivesse de fato. Enquanto isso, Eijiro, já menos constrangido, entra na cozinha e avista sua mãe, Aimy, arrumando uma bandeja.
-Eiji, o garoto já acordou? - O adolescente afirma positivamente. - Ótimo, porque preparei uma sopa para ele. - A mulher comenta enquanto adiciona um copo d'água, termômetro e remédio na bandeja.
Ambos seguem até o quarto em silêncio e entram no cômodo citado, encontrando Hyosora olhando para algumas fotos numa parede. O adolescente adquire uma postura defensiva ao ver Aimy.
-Não precisa ficar assustado, querido, não irei te fazer mal.
-Shiro, esta aqui é minha mãe Aimy, ela só quer cuidar de você. - Ainda que desconfiado, o jovem se tranquiliza, o que abre uma chance para a mulher se aproximar dele, deixando a bandeja na mesa de cabeceira.
-Eu fiz uma sopa para você, não sei se você gosta. Também tem um remédio e um termômetro.
-Obrigado, senhora.
-Não precisa de tanta formalidade, me chame apenas de Aimy.
-Tudo bem, Aimy-san.
A mulher sorri e sai do quarto para dar privacidade aos garotos. Shiro pega o termômetro e o liga, começando a medir sua temperatura.
-Quem são aquelas pessoas nas fotos?
-Algumas são dos meus amigos, as outras são minhas com as minhas mães.
-"Mães"?
-Sim, eu tenho duas mães.
-Como é ter duas mães?
-Não muda muito de ter um pai e uma mãe, mas acho que elas tem uma relação melhor por passarem pelas mesmas coisas.
Enquanto esperam o termômetro, Kirishima comenta sobre alguns momentos entre ele e suas mães, não eram muito diferentes de uma família considerada "normal" pela sociedade, contudo, parecia mágico na visão do menor, que tinha um certo brilho em seus olhos que não passou desapercebido pelo outro.
-O que foi?
-Nada, é só que, deve ser bom ter suas mães por perto. - Ele diz com um pequeno sorriso. - Eu gostaria de ter conhecido a minha, meu irmão dizia que ela era uma mulher linda e gentil, que ajudava todos que podia e que tinha o sonho de ser uma heroína, mas nunca foi capaz.
-Porque?
-Sua individualidade não ajudava e nunca teve oportunidade, sua família não gostava dessa ideia. - Shiro retira o termômetro ao dar o tempo e entrega para Eijiro, que observa com uma certa preocupação o número trinta e nove marcado no aparelho.
-Ela teria ficado orgulhosa de ter conhecido você. - O esbranquiçado balança a cabeça em negação.
-Eu segui o caminho contrário do que ela esperava, cometi muitos erros, não sou motivo de orgulho. - Ao escutar a frase dita, Kirishima senta em sua cama e olha atentamente para o menor.
-Não diga isso, ela ficaria, sim, orgulhosa, por você nunca ter desistido mesmo vivendo numa situação difícil, por ter sido forte e ter arriscado tudo por alguém que ama. Não foi exatamente o melhor caminho, mas não havia outra escolha, você tinha que sobreviver. E isso é sim motivo de orgulho. - Hyosora estava espantado, aquelas palavras carregavam um forte sentimento, tanto que fizeram o garoto se sentir constrangido.
-Bem, se você diz. - Tentou fingir indiferença, o que, talvez, não tenha funcionado como desejava, já que Eijiro percebeu sua súbita timidez e sorriu por isso.
Do lado de fora do quarto, Aimy escutava a conversa, sabia que era errado, todavia, sempre foi curiosa e queria saber mais sobre o adolescente. Ficou surpresa quando viu seu filho chegando em casa carregando Shiro em seus braços. Por sorte, era formada em medicina e conseguiu realizar uma cirurgia caseira com o auxílio de sua individualidade e cuidar do jovem.
Abriu um suave sorriso, Hyosora era um garoto bom que fez tudo por sua sobrevivência, ele e seu filho lembravam a si e Ririko quando mais novas. Seriam um belo casal quando percebessem os sentimentos que já possuíam um pelo outro.
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Eterno Temporário
FanfictionO mestre do silêncio e da discrição, com habilidades excepcionais mesmo sem ter uma individualidade, o gatuno misterioso, esse era o Leopardo Branco, ou para os mais íntimos, Hyosora Shiro. Um garoto de quinze anos que vive nas ruas do Japão em bus...
