20 de agosto, Palazzo Apostolico, Città del Vaticano
Naquela manhã, o Papa caminhava pelos corredores do palácio. Era um hábito que tinha tomado desde a sua eleição: uma caminhada matinal pelo palácio, cumprimentando a todos. Sua simpatia era inefável. Tirava sorrisos até daqueles que o detestavam — como o protonotário Francesco Alidosi, que vinha todas as manhãs aos aposentos de Giuliano della Rovere e depois dirigia-se para o palácio dos protonotários. Pensamentos bons pareciam fluir em sua mente. Tudo parecia correr conforme os seus planos. Nada abala seu bom humor.
Passando por aqueles corredores espaçosos e salas intermediárias, procurava estar sempre próximo às janelas. Suas cortinas vermelhas de seda eram formidáveis, contrastando com as paredes claras do palácio.
De repente, parou em frente a uma delas. Com as mãos para trás, contemplou a Piazza di San Pietro. Uma praça simples, rústica, sem grandes adornos, como as de Florença e Veneza.
— Tenho grandes planos para São Pedro... Que Deus me ajude...
Interrompeu-se com um silêncio repentino. Ouviu passos lentos, quase arrastados. Voltando-se para trás, viu o cardeal Sforza, que parecia preocupado, caminhando do lado oposto e carregando alguns documentos. Intrigado, Sua Santidade aproximou-se, esperando descobrir o motivo da sua inquietação.
— Vossa Santidade.
— Vai estudar, Eminência?
— São documentos que acabaram de chegar de Florença.
— Encomendas atrasadas dos Medici, suponho.
— Il Magnifico morreu antes que pudesse trazê-los.
— Que Deus o tenha. — Lamentou, fazendo o sinal da cruz.
— Com certeza o tem, Santidade.
— O que enviou-nos o nobre Lorenzo?
— Cópias de Esopo, Hesíodo, Homero, Sólon, Anacreonte, Safo, Píndaro, Eurípides, Sófocles, Ésquilo e outros.
— A Biblioteca do Vaticano fica mais rica a cada dia.
— Se me permite, eu preciso ir agora.
— Gostaria de acompanhá-lo. — Disse o Papa.
Ascanio respondeu com um sorriso suave e dissimulado, como se a sua presença fosse um encômodo. Encontrando um dos protonotários, chamado Lonati, Ascanio entregou os documentos e pediu que os levasse para a biblioteca.
— O que realmente deseja, Santo Padre? Sinto que não veio me acompanhar apenas por cortesia.
— Como Vice-Chanceler, tem em suas mãos os guardas do palácio e da Città del Vaticano, exceto os meus conterrâneos que partirão em breve.
— O que deseja?
— Quero que diga aos guardas que permitam a passagem dos meus sobrinhos aos meus aposentos. Diga que permita também a passagem de mulheres. Mas, por favor, instrua-os para que o façam com maior discrição. A indiscrição levará ao escândalo. O escândalo levará à intriga. A intriga levará à discórdia. Não queremos isso, Ascanio.
— Quando Vossa Santidade diz "mulheres", não quer dizer...
— Exatamente isso que eu quero dizer, cardeal Sforza. Não vejo nada de errado nisso. Outros papas tiveram amantes. Se Inocêncio as teve em abundância, por que não poderia? Afinal...
— Mas tão rápido? Não seria mais prudente esperar um pouco? Há cardeais poderosos formando uma oposição, ao que soube dos protonotários. Se virem uma mulher por esses corredores, só Deus sabe o que farão. Boatos. Conspiração... A prostituição precisa ser erradicada, não alimentada, Santo Padre. Essa é uma pauta muito antiga.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Os Borgias - Parte I - Ego Sum Papa
Fiction Historique💢💢Atualizações suspensas (ler avisos) Em 11 de agosto de 1492, subiu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, conhecido como "Il Valenciano", assumindo o nome Alexandre VI. Com o seu poder, fez da família Borgia uma das mais poderosas da Itália, ame...
