Vaticano, 18 de novembro
Mais tarde, o Papa estava em seus aposentos, sentado numa banheira, de olhos fechados, relaxado. Os músicos tocavam seus instrumentos. Os criados estavam em pé, diante dele, um segurando as suas roupas, outro as toalhas, ambas brancas. Um outro massageava as costas do Santo Pontífice.
Seu banho do final da tarde foi interrompido. Tentou ignorar. A porta bateu novamente.
— Entre. — Disse o Papa, abrindo os olhos.
Um homem adentrou a porta, vestido de preto dos pés à cabeça. Ele se curvou diante do Santo Padre antes de continuar.
— Diga o que quer, meu bom homem.
— Trago uma carta à Sua Santidade.
O Papa levantou-se da banheira, completamente nu, espreguiçando-se. O mensageiro envergonhou-se ao ver a santa nudez e cobriu os olhos com a mão vazia. O Borgia riu de sua reação.
— Por que cobre os olhos? — Indagou ele, apanhando a toalha para secar-se.
— Cubro meus olhos para Sua Santidade poder vestir-se longe dos olhares indesejados.
— Eu estou cercado por um mensageiro, três crianças e um punhado de músicos. Todos me veem nu. Não precisa envergonhar-se. Não tenho nada que você não tenha entre as pernas. — Disse ele, vestindo uma espécie de camisola branca para dormir. — Sua Santidade está coberta e seca. Pode abrir os olhos.
O homem abriu os olhos e deu-lhe a carta. Ao fazer isso, despediu-se, curvando-se diante do Santo Padre. Os músicos e os criados foram dispensados. Ele sentou-se sobre a cama, calçando um chinelo felpudo e macio. Com uma faquinha, ele abriu a carta.
Sua Santidade,
Graças dou ao bom Deus, que criou os céus e a terra por vossa vida. Graças dou por Ele, em Sua infinita sabedoria, por escolher elevar alguém de nossa família à Cátedra de Pedro, chefe dos Apóstolos, coroa dos Apóstolos, Pastor Universal. Que Deus abençoe o vosso pontificado com a sua paz, trazendo prosperidade à Sua Santidade e à Roma.
Venho, humildemente, declarar minha profunda alegria em recebê-lo como sucessor de São Pedro. Eu, uma pobre viúva, esposa de Lodovico Orsini Migliorati, antigo senhor de Bassanello, insignificante aos vossos olhos. Gostaria de ter escrito antes, porém os contratempos vieram contra minha casa e tive de adiar enviar-lhe tal letra.
Desejo vê-lo muito em breve, Santidade, para me prostrar diante de seus pés. Desejo ir a Roma muito breve, no dia da Encarnação de Nosso Senhor. Anseio por ver novamente vossos sobrinhos, os três rapazes e a jovem moça, a quem a beleza chegou aos nossos ouvidos.
Agradeço à Vossa Santidade pelo tempo dedicado à minha humilde carta. Se o ofendi de alguma forma, peço-lhe minhas sinceras desculpas e juro reparar por qualquer dano que tenha cometido. E, como forma de demonstrar minhas boas intenções e prestar minha primeira homenagem, suplico que aceite vir à Carbognano para que possa oferecer-lhe um banquete digno de um Pontífice, sucessor de São Pedro.
Ao ler aquelas palavras cuidadosamente escritas, redondas e sem rasuras, sem pontas soltas ou rabiscos, reconheceu bem a motivação daquelas palavras. Conhecia bem aquele tom, embora inaudível. As palavras de cortesia e elogios excessivos, beirando quase a veneração, bem como o aspecto clemente só poderiam significar uma única coisa: bajulação. Era uma arte que conhecia muito bem. Quantas vezes não escreveu cartas aos seus inimigos, fazendo elogios e desculpando-se insistentemente? Quantas vezes não ofereceu banquetes suntuosos, presentes caros e rendeu louvores a outros homens apenas para conquistar seus corações e pedir favores e concessões? Aquela mulher — como todo Borgia, aparentemente — também conhecia essa arte. Mas o que poderia ser? A família Colonna está ameaçando tomar Carbognano? Os Orsini e seu conhecido orgulho? Seria uma crise de que não estava sabendo? Acaso um anúncio? Uma boa nova? Uma notícia ruim? Uma troca? O que poderia ser? Certamente, não era um pedido desinteressado. Sem dúvida, tinha algo a ver com Carbognano.
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Os Borgias - Parte I - Ego Sum Papa
Fiksi Sejarah💢💢Atualizações suspensas (ler avisos) Em 11 de agosto de 1492, subiu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, conhecido como "Il Valenciano", assumindo o nome Alexandre VI. Com o seu poder, fez da família Borgia uma das mais poderosas da Itália, ame...
