Numa manhã qualquer de primavera, no Palazzo di Santa Maria in Portico, Adriana de'Mila educava a filha de seu primo — o Papa Alexandre VI —, como havia concordado em fazer. Porém, a sua nora ainda não havia conhecido a filha do Papa, pois havia sido recebida primeiro no Palazzo Apostolico.

A jovem Farnese havia adentrado o palácio durante a madrugada, enquanto todos os cardeais dormiam; quando os protonotários jaziam nos braços de Morfeu; quando havia poucas sentinelas e todos eles um pouco sonolentos, guardando as entradas e saídas da pequena cidade. Por meio do passeto del Borgo, chegaram às muralhas e, logo, adentraram o Palazzo Apostolico, através de uma das muitas portas de entrada. Achou logo para ela um quarto adequado para que pudesse passar aqueles dias: os apartamentos do Papa Inocêncio VIII.

Fazia poucas semanas que Adriana estava a educar. Ensinou-lhe como se portar à mesa, como se deve falar e agir diante de convidados, como andar, vestir-se e se portar na presença de nobres — não que Lucrezia já não soubesse algumas dessas coisas. Também lhe foram introduzidos os seus deveres como esposa. Todavia, Adriana apenas comentara sobre eles.

Lucrezia levantou-se cedo, como lhe foi instruído, pois era propício que fizesse a primeira oração e consagrasse aquele dia — rito chamado de hora prima. Portanto, a primeira coisa que fez ao se levantar foi rezar o seu terço e consagrar aquele dia. Antes de prosseguir com a sua rotina, foi ao antigo escritório do cardeal Zeno, que havia deixado Roma há algum tempo. Por alguma razão, ainda havia alguns documentos dele no palácio, mas Lucrezia não tinha interesse neles, embora tenha lido um ou outro no seu tempo ocioso.

Antes que pudesse sentar-se, Adriana adentrou o escritório, surpresa ao encontrá-la ali tão cedo.

— Senhora. — Respondeu, curvando-se gentilmente.

— Aprendeu rápido, senhorita. — Sorriu Adriana.

— Obrigada.

— Bem, eu a estava procurando para lhe perguntar a respeito do matrimônio...

— Na hora prima?

— Sua Santidade me pediu para perguntar a respeito.

— E o que meu pai deseja saber?

— A senhorita disse que tinha quantos anos, querida?

— Treze? É a resposta adequada.

— Sim, senhorita. A sua tenra idade, porém, pode ser um empecilho para o matrimônio.

— O que quer dizer? Basta irmos ao altar e tudo está resolvido, imagino.

— Não, minha querida. Precisa consumar o casamento para que seja válido. Caso contrário, torna-se um casamento em branco.

— Consumar? O que quer dizer com isso?

— A consumação acontece na noite de núpcias, minha querida, no primeiro contato íntimo, na união carnal e espiritual do casal.

— Me deitar com um completo estranho? — Indignou-se, abrindo a porta.

— Lucrezia, por favor, escute. — Suplicou Adriana.

Lucrezia não quis ouvir. Correu para fora do escritório, atravessou o corredor, desceu as escadarias e saiu do palácio. Adriana veio atrás, desesperada, tentando contê-la antes que chegasse ao Papa.

Adentrou a Piazza di San Pietro, atraindo atenção indesejada de um grupo de visitantes, dentre eles jovens e velhos, florentinos e lombardos, franceses e napolitanos, gente que aguardava ansiosamente para visitar a Biblioteca construída pelo Papa Sisto IV. Olhavam os seus passos rápidos, sendo perseguida pelo que lhes parecia ser sua dama de companhia, talvez uma das nobres que moravam no Borgo, pensavam. Tanto pela situação estranha como pela beleza da dama,

Os Borgias - Parte I - Ego Sum PapaOnde histórias criam vida. Descubra agora