10 de janeiro de 1493, Nápoles
O cardeal Della Rovere chegou em Nápoles naquela manhã de janeiro. Ele havia conseguido a tão esperada audiência com o único rei da Itália. Aquele rei chamava-se Ferdinando.
O Rei era muito conhecido por sua crueldade e pela sua longa história de resistência ao Papa, à França e aos barões. Utilizava o medo e a crueldade como arma. Todavia, não poupava benevolência aos seus fiéis súditos, nobres ou camponeses. Amado pelo povo, recebendo laudes e honrarias de todas as partes do grande Reino de Nápoles.
Diferentemente de seu filho, Alfonso da Calábria, que era temido e odiado desde a Calábria e Puglia até a Campania e o Molise. Tomava mulheres dos seus súditos apenas para obter prazer, matava sem motivo algum, era cruel ao executar seus inimigos e levava a discórdia à sua própria casa; porém, mesmo diante de tamanhos vícios e excessos, era um cavaleiro louvável e com virtudes que, durante os tempos de guerra, pareciam superar suas faltas e falhas morais. Apenas em meio ao caos dos campos de batalha, quando lutava ao lado de seus homens, sentia brotar em seu íntimo uma centelha de nobreza e coragem, uma esperança de redenção. Em tais momentos, lembrava-se dos valores da cavalaria que seu pai lhe ensinara, desejando ser admirado não apenas pelo temor que inspirava, mas também pelo respeito. No entanto, quando a paz retornava e os salões do castelo se enchiam de banquetes e intrigas, Alfonso sentia as antigas sombras o envolverem novamente. Era aí que suas virtudes se perdiam, e os vícios dominavam, deixando-o prisioneiro de uma raiva e solidão que ele dificilmente confessaria a qualquer um. Mas não demorava muito, nos tempos de paz, para que tais virtudes fossem deixadas de lado e seus pecados superassem as virtudes de um cavaleiro e nobre Príncipe de Nápoles, herdeiro de seu pai, o Rei.
O cardeal estava em uma carruagem negra de carvalho, como era comum, porém sua era especial: assentos aveludados escarlate, grandes rodas eixos e chassi de prata, além de suspensão metálica rara e cara. Era puxada por dois cavalos brancos ligados a um pole de prata. Os detalhes da cabine incluíam ramos de ouro e a cobertura de couro carmesim.
Dentro desse veículo, apreciava a leitura de uma cópia de "De Imitatione Christi", envolvida em uma capa de couro — uma fortuna paga —, enquanto o cocheiro guiava os cavalos pela estrada principal. As pessoas olhavam para sua condução com curiosidade. Os prédios altos e vivos despertaram sua atenção. Nenhum prédio parecia abandonado por Deus e pelos homens. Não havia pedintes nas praças nem em frente às catedrais da cidade. As pessoas sorriam e as crianças brincavam. Não havia perigo aparente — diferente do que era Roma sob Alexandre VI, eleito há pouco mais de 3 meses como Papa.
Pouco depois, chegaram ao litoral diante da fortaleza Castel Nuovo. Suas cinco torres circulares, feitas de piperno—uma rocha vulcânica dos Campi Flegrei—tinham cor acinzentada e eram muito resistentes. Três torres (San Giorgio, Mezzo e Guardia) davam para a cidade, e outras duas (Dell'Oro e Beverello) apontavam para o mar. Entre San Giorgio e Mezzo erguia-se o portão de bronze com grandes arcos, encimado por colunas coríntias. Acima do portão, no primeiro nível, via-se uma quadriga triunfal conduzindo Alfonso de Aragão. No centro, aparecia o escudo de Aragão e a seguinte inscrição em friso:
ALFONSVS REX HISPANVS SICVLVS ITALICVS PIVS CLEMENS INVICTVS.
Acima deste, há a inscrição:
ALFONSVS REGVM PRINCEPS HANC CONDIDIT ARCEM.
O segundo arco superior é encimado por leões e quatro nichos com estátuas das virtudes de Alfonso de Aragão. Acima deste, encontra-se um lintel arredondado com dois gênios com cornucópias, encimados por Afonso em traje de guerreiro. Esta cornija foi concebida para uma estátua equestre. As três estátuas de São Miguel, Santo Antão Abade e São Sebastião encontravam-se no topo do arco. As portas de bronze do arco foram executadas pelo monge Guglielmo de Nápoles e representam as vitórias de Ferrante de Nápoles sobre o Duque de Anjou e os barões rebeldes, guerras das quais saiu invicto e indiscutivelmente triunfante.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Os Borgias - Parte I - Ego Sum Papa
Ficção Histórica💢💢Atualizações suspensas (ler avisos) Em 11 de agosto de 1492, subiu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, conhecido como "Il Valenciano", assumindo o nome Alexandre VI. Com o seu poder, fez da família Borgia uma das mais poderosas da Itália, ame...
