XIX

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Nas semanas que se seguiram, surtos de banditismo tomaram a cidade. O palácio de Lucrezia foi fechado. As famílias italianas dentro de Roma disputavam territórios, utilizando do banditismo para desviar a atenção das autoridades locais. As ruas e vielas, frequentemente, amanheciam encharcadas de sangue, embora não houvessem muitos corpos. As praças eram espaços propícios para roubos e furtos em plena luz do dia. Alguns sequestros foram feitos, o que levou o próprio Papa a reforçar a guarda de Lucrezia, antes de dez soldados, para trinta e sete. A menina foi proibida de deixar o palácio e todos os visitantes eram revistados, no começo. Porém, mais tarde, o Papa impediu que qualquer um entrasse dentro do palácio, exceto membros da família.

A situação estava tão alarmante que Della Rovere incubiu os seus mercenários a investigarem a situação, pois acreditava que aquilo era uma das obras de Alexandre VI. Rodrigo Borgia, o Papa, intimou a prefeitura de Roma a tomar medidas quanto aos crimes. Todavia, a prefeitura meramente a maior parte dos governadores dos rioni colocaram soldados insuficientes nas ruas, como uma maneira de mostrar que estavam fazendo alguma coisa.

Enquanto Roma era flagelada por criminosos de todos os tipos e pelas disputas das famílias Orsini e Colonna, Cesare e Micheletto viajavam pela Toscana, Úmbria e Bolonha. A viagem serviu para procurar os seus futuros aliados, um grupo de condottieri conhecidos apenas por Micheletto. Eram eles Francesco, de Saturnia; Lorenzo, de Dicomano; Giulio, de Castel del Rio; Vittorio, de Bolonha; Raffaele, de Ímola; e Oliverotto, de Ravena. O último deles era Zacaria, que estava em Forlì, onde governava Caterina Sforza e Giacomo Feo, o seu marido. Os condottieri foram deixados em um vilarejo próximo enquanto Cesare e Micheletto iam atrás de Zacaria. Ambos atravessaram a Porta Schiavonia, ao noroeste da cidade.

— O último dos seus amigos mora em Forlì, Micheletto?

— Não são meus amigos, Eminência. São meros companheiros de trabalho.

— Esse tal Zacaria é tão bom como você diz, Micheletto?

— Não, Eminência. Acho que o descrevi com certo exagero.

— Então o que fazemos aqui?

— Se recrutá-lo falhar, há um outro homem a quem pode agradá-lo. O seu nome é Lino. Espero que a imoralidade de Lino não o faça matá-lo, Eminência.

— De que tipo de imoralidade estamos falando?

— Imoralidade sexual, meu senhor. Digamos que ele tem uma preferência peculiar por homens.

— Entendo. Para mim, não vejo problema, desde que saiba como matar alguém com eficiência. As escolhas dele não me interessam.

— Espero que não tenha desaprendido a nossa arte desde o nosso último encontro.

— Como conheceu toda essa gente?

— Viagens, Eminência. Por alguns anos, vaguei entre a Toscana e a Bolonha. Encontrei esses homens quando era jovem e aprendi boa parte do que sei para aperfeiçoar e me tornar muito melhor do que qualquer um deles sonha em se tornarem.

— Tem muita confiança em si próprio. Onde encontraremos ele?

— Se não estiver sendo enganado pela minha excelente memória, morava perto da abadia da cidade.

— Zacaria ou Lino?

— Ambos. Forlì foi o lugar onde aprendi a roubar e enganar. Consequentemente, aprendi a esconder-me também. Na Bolonha e na Toscana, aprendi a matar em segredo e não sentir remorso pelos meus atos.

— Ambiciona o poder, Micheletto?

— Não tenho ambição, Eminência.

— Um homem sem ambição é um homem sem propósito.

Os Borgias - Parte I - Ego Sum PapaOnde histórias criam vida. Descubra agora