30 de novembro, Città di Pisa
O Arcebispo de Valência, Cesare Borgia, havia chegado à cidade de Pisa, acompanhado por seu mercenário, Micheletto. Seu objetivo na cidade era encontrar um homem: Leonardo da Vinci. Desejava contratar os seus serviços. Embora Leonardo estivesse trabalhando para Lodovico Il Moro, em Milão, da Vinci tinha o direito de voltar à Toscana para se inspirar. Ele costumava passar pela cidade de Pisa e instalar-se no Palazzo Medici, residência de repouso de Lorenzo de' Medici, o Magnífico, que vinha à cidade para recuperar-se de suas doenças. Sem mais um habitante, recebendo apenas manutenções essenciais, o palácio podia ser frequentado pelos artistas da Corte de Florença e por Leonardo. Havia chegado a informação de que Leonardo havia deixado Milão, portanto, estava a caminho de Florença.
O Arcebispo conduziu-se diretamente ao palácio, encontrando-se com guardas na entrada, que apenas observavam o movimento sereno daquela manhã fria de outono.
— É aqui que se encontra o mestre Leonardo? — Perguntou Cesare, vestindo carmesim, sobre um cavalo branco.
— Sim, Eminência. — Responderam.
— Preciso vê-lo.
Os guardas se entreolharam e permitiram a passagem. Eles os guiaram à presença do grande mestre. O polímata estava em um quarto, o mesmo que usava enquanto Lorenzo ainda estava vivo. Ali, Leonardo estudava a anatomia de uma águia que havia encontrado morta ao longo do caminho. Felizmente, ainda estava fresco. Abria o seu peito, naquele momento, com uma lâmina afiada, cauteloso, contemplando cada breve instante. Com a mesma cautela, tirou os músculos peitorais para não danificar a estrutura dos órgãos subjacentes e ossos. Os músculos foram colocados numa tigela à direita.
A caneta de prata arrastava-se sobre o papel com delicadeza. O ruído soava como música aos seus ouvidos, uma sinfonia formada pelo tracejar daquela ferramenta prateada e pontiaguda. Calado, contemplava e reproduzia aquilo que observava. Cada membro, cada órgão, os seus ossos e penas. Depois de terminar, começaria a separar os órgãos.
A porta estava aberta, pois era costume de Leonardo deixá-la assim para que soubessem quando ele se fazia presente no palácio.
— Ave Leonardo! — Saudou Cesare.
— O que deseja, Eminência? — Indagou Leonardo, sem perder a atenção em seu trabalho, talvez ignorando a estranha saudação do bispo.
— Gostaria de apreciar o seu trabalho e, se possível, conversar com vossa digníssima pessoa, mestre.
— Sinta-se à vontade. Apenas tente não se opor à luz que ilumina esta sala. A luz é indispensável para este trabalho.
Cesare aproximou-se da mesa onde Leonardo trabalhava.
— Estuda os corpos para recriá-los na tela, mestre?
— Não. Eu faço o que faço para compreender a natureza. Compreendendo a obra, compreende-se o Autor.
— Então busca compreender o Criador estudando cadáveres de aves? Como isso pode ajudar a compreender o Criador?
— Cada ciência difere-se pela forma pela qual o conhecimento é obtido. A astronomia é uma ciência enquanto a física, outra. Todavia, ambas podem afirmar as mesmas coisas. Sendo a teologia também uma ciência, creio que posso, através do conhecimento obtido do estudo da Criação, entender o Criador ou, ao menos, as Suas criaturas.
— Então seus cadernos são inspirados pela Criação.
— Assim como as Escrituras são inspiradas por Deus, Eminência.
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Os Borgias - Parte I - Ego Sum Papa
Ficción histórica💢💢Atualizações suspensas (ler avisos) Em 11 de agosto de 1492, subiu ao Trono de São Pedro Rodrigo Borgia, conhecido como "Il Valenciano", assumindo o nome Alexandre VI. Com o seu poder, fez da família Borgia uma das mais poderosas da Itália, ame...
