ELEANOR
DUAS SEMANAS ESCONDIDOS NA FLORESTA.
Duas semanas de silêncio, de sombras, de olhares lançados por cima do ombro a cada passo.
E, agora... agora não há mais como fugir do que sempre esteve escrito.
Decidimos que o melhor a se fazer é ir para Frosthaven.
Tomar essa decisão não foi simples. Não foi leve.
Desde criança, cresci ouvindo histórias sussurradas sobre Thalindra. A última. A lendária. A sombra que nunca foi encontrada. E, de algum modo... sempre soube. Sempre. Minha jornada me levaria até ela.
Mas não busco só respostas. Busco raízes. Busco o que foi roubado de mim. Busco a herança dos Syndarion.
À medida que o sol rompe o horizonte, deixando a floresta dourada por alguns instantes antes que o frio tome tudo de volta, deixamos nosso refúgio entre as árvores.
O caminho que se abre à frente não é só desconhecido.
É uma promessa e uma ameaça.
O sol começa a nascer quando deixamos a mata. A luz atravessa as folhas, dourando por segundos, o que logo volta a ser frio, cinza e silencioso.
Cada passo carrega mais do que só movimento. Carrega escolha. Carrega destino.
Arthur caminha ao meu lado. Não diz nada. Mas o silêncio dele é cheio de coisas que não precisamos verbalizar. Ele sente o mesmo peso que eu.
As trilhas se afunilam, cruzando florestas densas, vales fundos e terrenos que parecem esquecidos pelo próprio tempo.
O vento sopra diferente aqui. Quase como se a própria Thalador nos observasse.
Caminhamos lado a lado com o riacho quando meu irmão decide parar. Seja por exaustão, seja pelo cansaço acumulado, a pausa é um alívio. De uma certa forma, eu também sinto isso, estou mais cansada do que demonstro.
Eu me abaixo, buscando apenas o silêncio que não vem. Inclino-me sobre o riacho, forçando a visão no reflexo da água, como se ali pudesse vislumbrar alguma lucidez.
Minha cabeça parece feita de chumbo fundido, e mover um único pensamento é um martírio. Não há foco. O meu rosto é um borrão ruidoso que despeja palavra sem sentido.
Eu só quero o silêncio, mas ele não vem.
Minha cabeça pulsa com o eco das decisões não tomadas, das responsabilidades que me esmagam. Cada dia é um ciclo repetitivo de ansiedade e frustração, e eu não vejo a saída.
Fecho os olhos, mas a escuridão também está lotada. As ideias giram, rápido demais para serem capturadas, e lento demais para me libertar. Eu sou apenas um recipiente que já transbordou, e agora, tudo o que resta é o vazio ruidoso.
Eu não estou mais vivendo. Eu estou apenas funcionando. E a única certeza é a dor surda e constante no centro do peito, o peso imóvel do cansaço.
A água corre rápida, quebrada, inquieta – uma superfície que treme –, como se relutasse em me devolver um reflexo nítido. Mas ela me força a encarar quem eu sou.
Meus olhos me encaram de volta. A tonalidade é a mesma de sempre, mas há algo de estranho neles: um azul cortante, gélido, frio. É a cor exata que o céu assume quando o inverno está prestes a desabar sobre tudo.
Eu me pergunto, nesse instante frio: quando foi que ficaram assim?
Quando foi que deixaram de ser só olhos e se tornaram essa tradução viva do meu cansaço, da minha frustração e de uma determinação que beira a obsessão?
VOCÊ ESTÁ LENDO
Hydrazar: O Despertar do Gelo (EM REVISÃO)
Acción→PRIMEIRO LIVRO! O frio é a sua coroa. O trono foi roubado. A vingança, forjada no gelo. Em um reino que pune a magia com a morte, Eleanor não é apenas a última herdeira: ela é um segredo vivo que pode congelar o mundo inteiro. Forçada a correr e a...
