IV.

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ELEANOR

DUAS SEMANAS ESCONDIDOS NA FLORESTA.

Duas semanas de silêncio, de sombras, de olhares lançados por cima do ombro a cada passo.

E, agora... agora não há mais como fugir do que sempre esteve escrito.

Decidimos que o melhor a se fazer é ir para Frosthaven.

Tomar essa decisão não foi simples. Não foi leve.

Desde criança, cresci ouvindo histórias sussurradas sobre Thalindra. A última. A lendária. A sombra que nunca foi encontrada. E, de algum modo... sempre soube. Sempre. Minha jornada me levaria até ela.

Mas não busco só respostas. Busco raízes. Busco o que foi roubado de mim. Busco a herança dos Syndarion.

À medida que o sol rompe o horizonte, deixando a floresta dourada por alguns instantes antes que o frio tome tudo de volta, deixamos nosso refúgio entre as árvores.

O caminho que se abre à frente não é só desconhecido.

É uma promessa e uma ameaça.

O sol começa a nascer quando deixamos a mata. A luz atravessa as folhas, dourando por segundos, o que logo volta a ser frio, cinza e silencioso.

Cada passo carrega mais do que só movimento. Carrega escolha. Carrega destino.

Arthur caminha ao meu lado. Não diz nada. Mas o silêncio dele é cheio de coisas que não precisamos verbalizar. Ele sente o mesmo peso que eu.

As trilhas se afunilam, cruzando florestas densas, vales fundos e terrenos que parecem esquecidos pelo próprio tempo.

O vento sopra diferente aqui. Quase como se a própria Thalador nos observasse.

Caminhamos lado a lado com o riacho quando meu irmão decide parar. Seja por exaustão, seja pelo cansaço acumulado, a pausa é um alívio. De uma certa forma, eu também sinto isso, estou mais cansada do que demonstro.

Eu me abaixo, buscando apenas o silêncio que não vem. Inclino-me sobre o riacho, forçando a visão no reflexo da água, como se ali pudesse vislumbrar alguma lucidez.

Minha cabeça parece feita de chumbo fundido, e mover um único pensamento é um martírio. Não há foco. O meu rosto é um borrão ruidoso que despeja palavra sem sentido.

Eu só quero o silêncio, mas ele não vem.

Minha cabeça pulsa com o eco das decisões não tomadas, das responsabilidades que me esmagam. Cada dia é um ciclo repetitivo de ansiedade e frustração, e eu não vejo a saída.

Fecho os olhos, mas a escuridão também está lotada. As ideias giram, rápido demais para serem capturadas, e lento demais para me libertar. Eu sou apenas um recipiente que já transbordou, e agora, tudo o que resta é o vazio ruidoso.

Eu não estou mais vivendo. Eu estou apenas funcionando. E a única certeza é a dor surda e constante no centro do peito, o peso imóvel do cansaço.

A água corre rápida, quebrada, inquieta – uma superfície que treme –, como se relutasse em me devolver um reflexo nítido. Mas ela me força a encarar quem eu sou.

Meus olhos me encaram de volta. A tonalidade é a mesma de sempre, mas há algo de estranho neles: um azul cortante, gélido, frio. É a cor exata que o céu assume quando o inverno está prestes a desabar sobre tudo.

Eu me pergunto, nesse instante frio: quando foi que ficaram assim?

Quando foi que deixaram de ser só olhos e se tornaram essa tradução viva do meu cansaço, da minha frustração e de uma determinação que beira a obsessão?

Hydrazar: O Despertar do Gelo (EM REVISÃO)Onde histórias criam vida. Descubra agora