XIX - A VISÃO DORME

45 14 162
                                    

Onde não há visão

O povo perece

           "Como se luta contra a escuridão?" Foi o que consegui me perguntar quando vi a criatura começar a vir com toda a velocidade em minha direção. A figura, feita de sombras densas e pulsantes, avançava como um predador pronto para atacar. Seu movimento era fluido e aterrador, como se a própria escuridão estivesse se moldando ao seu redor, distorcendo o ar e sugando a luz. Meu corpo congelou por um instante, o medo tomando conta. Mas então, Ian agiu com uma precisão e uma rapidez que me deixaram impressionada. Ele segurou com força uma das adagas, ela tinha uma lâmina que brilhava escarlate, refletindo a pouca luz que restava ao nosso redor. Sem hesitar, ele lançou a adaga com força e habilidade diretamente contra a criatura.

          Eu esperava que a arma passasse direto pela sombra, como se cortasse através do ar. Mas, para minha surpresa, a adaga se cravou no emaranhado de escuridão. O impacto fez a criatura hesitar, seu avanço parou abruptamente enquanto um som agudo, quase um grito, ecoava do seu corpo etéreo.

           A adaga não apenas ficou presa na criatura; ela parecia brilhar com mais intensidade, irradiando uma luz vermelha que contrastava com a escuridão ao seu redor. A sombra se contorceu, como se estivesse sentindo dor. A escuridão ao seu redor começou a se dissipar, revelando um núcleo mais sólido dentro da forma nebulosa. Era como se a adaga estivesse drenando a força da criatura, expondo suas vulnerabilidades. A figura, antes imponente e ameaçadora, agora se debatia, tentando se livrar da adaga. Seus movimentos eram erráticos, e a escuridão que a compunha parecia estar sendo sugada para dentro da lâmina brilhante. A atmosfera ao nosso redor mudou; o ar ficou mais leve, e a temperatura começou a subir novamente, como se a presença maligna estivesse sendo purgada.

          Ian deu mais um passo à frente, seus olhos fixos na criatura, completamente calmo. Ele estendeu a mão em direção à adaga, que parecia responder ao seu comando, brilhando ainda mais intensamente.

         A criatura emitiu outro som agonizante, e eu pude ver sua forma se desfazendo lentamente, pedaços de escuridão caindo como cinzas no chão. Com um último esforço, ela tentou se afastar, mas a luz da adaga era implacável. Finalmente, a sombra se dissipou completamente, deixando apenas a adaga cravada no ar vazio antes de cair no chão com um som metálico. O meu coração estava acelerado, algo dentro de mim me dizia que a situação toda estava muito errada. Ele guardou a adaga e se aproximou, estava visivelmente irritado com a minha teimosia.

— De todas as pessoas, eu nunca imaginaria que logo você faria algo assim. — Ele se abaixou guardando as adas e acompanhei seus movimentos olhando para as armas. — As armas são sagradas, todas as que temos possuem sangue do nosso mestre e possuem poder.

— Então, é assim que se luta contra a escuridão...

— Sim, — disse Ian, seus olhos brilhando com determinação. — Mas a batalha contra a escuridão não é apenas física. É mental e espiritual. Imagine dez desses vindo contra você, eles só possuem um ponto fraco, precisa mirar onde deveria haver um coração, se você não for rápida o bastante e eles acessarem a sua alma... já era, nervosinha. Tive sorte, ele estava tão focado em você que não notou a minha presença.

         Respirei fundo, tentando absorver suas palavras.

— Me desculpa, mas era como se me chamasse, eu precisei ir atrás. — Eu não conseguia entender meus atos, nem o porquê de meus olhos terem visto a sombra tão claramente, ou o fato de que ela ignorara totalmente a presença de Ian para vir para cima de mim. 

— Tudo bem, você não tem tanto treino quanto eu, tive uma vida toda para aprender. — Ian realmente parecia já ter deixado o acontecido no passado. — Vamos, precisamos descansar, pois tivemos uma noite e tanto.

DESPERTOS - A ESCOLHAOnde histórias criam vida. Descubra agora