capítulo 15 - ódio e repulsa

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Emery Greengrass

— Emery agrediu uma colega, Sra. Greengrass... — o diretor começou, mas logo foi interrompido pela minha mãe.

— Swan. — o corrigiu. — Por favor, não vamos citar o nome do profano aqui — ela sorriu, recebendo um olhar de julgamento por cima dos óculos redondos do diretor, então, ajeitou sua postura e pigarreou — Prossiga...

— Como eu estava dizendo, Sra. Swan — continuou ele —, Emery cometeu um erro gravíssimo. Vocês tiveram sorte que os pais da aluna Susan não quiseram acionar a polícia.

Nós não teríamos dinheiro para um advogado de qualquer forma.

— Entendo... — assentiu. — Mas eu acredito que vocês tenham uma política rígida em casos de bullying, não é?

Eu ergui minha cabeça no mesmo instante, levando o olhar até minha mãe. Ela mantinha a expressão mais suave possível, sua voz totalmente calma, cínica.

— Como assim, Sra. Swan?

— Bem... Minha Emmy jamais se meteu em brigas fora do tatame.

Arqueei as sobrancelhas, surpresa com a sua fala. É verdade que eu sempre tento manter a calma e resolver na base do diálogo, mas as vezes era difícil segurar a vontade de encher a pessoa de socos. Como fiz com Johnny, Tommy, Dutch e agora, Susan. Mas eu sabia que minha mãe iria tentar manipular a situação, transformando todos em filhos das putas e eu seria a vítima indefesa.

— E ela foi humilhada na frente dos colegas! — forçou uma voz embargada. — Nós duas já fomos humilhadas o bastante pelo meu... — engoliu em seco, levando as pontas dos dedos entre as sobrancelhas. — Ex-marido.

— Senhora, tudo bem... — o diretor disse, tentando ser o mais compreensível que pode.

— Não! Isso foi o cúmulo, já aguentei muito. Eu posso suportar ser trocada pela psiquiatra da minha filha — apontou o dedo na direção do rosto do diretor, que a olhava atentamente. — Mas suportar o bullying e desprezo que a minha Emmy está sofrendo por aquelas... nojentas mimadas é muito para mim. Eu não posso suportar ver a minha bebê sofrendo tamanha falta de respeito e humilhação.

Minha mãe passou sua mão pelo meu cabelo, alisando os fios. Seus olhos estavam vermelhos e cheios de lágrimas falsas. Ela é boa, eu admito. Eu apenas entrei na cena, meu olhar caído e sem ânimo. Bem, eu acho que não era fingimento...

— Veja bem, eu entendo...

— Não! O senhor não entende. Já imaginou ser trocado por sua esposa por um cara mais novo e com um físico deliciosamente no ponto? Agora imagine sua filha ser massacrada e diminuída por "colegas" de classe. — ela o olhou intrigada e ele ficou pensativo. — É exatamente assim como eu me sinto.

— Bem, senhora Swan, eu cuidarei disso... Vou tomar as devidas providências.

Eu podia notar a incerteza em suas palavras mas minha mãe pareceu estar satisfeita, então, que se foda. Só quero sair logo daqui e ir pra casa.

A porta da sala do diretor se fechou atrás de nós duas e caminhamos pelo extenso corredor vazio. As aulas já haviam terminado e passava pouco mais das 18:00. A conversa com o diretor foi longa e um completo tédio. Estou suspensa pelo resto dos dias letivos até o recesso. Ótimo.

O caminho até Reseda foi silencioso. Minha mãe estava quieta e eu também. Acho que ela estava reprimindo sua raiva ou sei lá.

[.☆.]

Agora, Daniel e eu estávamos cara a cara. Eu não consegui me explicar, até agora. A chuva fina caía sobre nós, limpando cada canto, menos a tensão entre nós dois. Acho que não juntei coragem o suficiente pois, encarei LaRusso por um bom tempo antes de sugar o ar e dizer:

— Eu juro que ia falar...

E eu realmente ia. Já estava tudo planejado, mas um tanto tardio. Agora os planos já não adiantavam de nada.

— Ah, é? Quando, Emery? — eu permaneci em silêncio e ele soltou uma risada nasal. — Pensei que éramos amigos! Eu não me importo se você era rica ou algo do tipo. Mas você mentiu pra mim. Você fingiu que não sabia karatê, me defendeu daqueles caras... mas você fez parte de tudo aquilo, merda!

Eu podia sentir a melancolia no seu tom de voz. Daniel realmente ficou abalado com isso, exatamente como previsto.

— Eu não sou como eles, eu nunca fui.

— Acha que eu deveria acreditar nisso? Eu queria, é sério — me olhou de cima a baixo, o desprezo em seu olhar. — Mas não sei se devo. — seu tom de voz era frio e isso me chateou.

— Eu queria deixar isso pra trás, queria esquecer o passado — murmurei —, por isso não disse nada. Achei que ainda não era a hora certa pra isso.

— Eu soube por outra pessoa, tem noção disso? — semicerrou os olhos, passando as mãos pelo cabelo. — Me senti humilhado naquele gramado. Todos sabiam que você era Cobra Kai, menos eu. Pensei que fôssemos amigos.

— Nós somos!

— Não! — olhou em meus olhos, seu olhar profundo e raivoso. — Amigos não mentem e nem escondem coisas uns dos outros.

— Eu sei, mas... — minha voz falhou e engoli em seco, levando junto minha força pra continuar falando.

Minhas mãos tremiam com a ansiedade e o sentimento de culpa me corrompeu.

— Quem garante que toda essa nossa "amizade" ou os flertes não foram um plano idiota de Johnny ou sei lá? Isso abriu tantas portas pra eu desconfiar de você... Caramba, Emery!

Eu continuei parada no mesmo lugar, ouvindo e engolindo cada uma de suas palavras.

— Que belo presente de aniversário — ele murmurou e chutou uma das latas de lixo.

— É seu aniversário? — minha voz saiu baixa, quase como um sussurro e meus olhos entristecidos se fixaram em seu rosto.

— Amanhã. — suspirou, parecendo se recompor. — Olha, Emery...

Ele soltou mais um suspiro, trazendo seu olhar para meu rosto.

— Nós podemos lutar juntos no torneio, mas depois disso, não quero que fale comigo.

Um nó se instalou na minha garganta, meus olhos se encheram de lágrimas mas as segurei.

— Se é o que você quer...

— Mas também não me importo se você não for — deu de ombros. — Você nunca foi uma Miyagi de verdade, não é? Sempre uma Cobra Kai disfarçada, por mais que não queira. — murmurou.

E assim, ele passou por mim, subindo as escadas e me deixando ali. Completamente sozinha. Merda. Eu me permiti chorar. Minha mente ecoando cada uma de suas palavras. Um misto de raiva e tristeza. "Sempre uma Cobra Kai disfarçada".

É, talvez eu seja mesmo.

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Não revisado!

Chuva da Meia-noite; Daniel LaRussoOnde histórias criam vida. Descubra agora