X.

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ELEANOR

THALINDRA CORTA O CÉU RUMO A FROSTHAVEN. O vento cortante não é tão afiado quanto a incerteza que dilacera meus pensamentos. Seguro-me firme nas escamas reluzentes de Thalindra, sentindo cada batida de suas asas reverberar no ritmo das dúvidas que me assombram. O casamento estratégico ecoa em minha mente como uma corrente que ameaça me prender a um destino que eu mal compreendo.

As palavras de Drakar continuam ecoando, uma sombra que não consigo afastar. Não é a proposta em si que pesa sobre mim, mas a forma como ele a entregou: não com a imposição que eu esperava de um rei, mas com uma vulnerabilidade que ele raramente deixa escapar.

Drakar, o homem que constroi muralhas ao redor de si como fortalezas, deixou uma brecha aberta naquele momento, suficiente para que eu visse o conflito em seu interior. Não era apenas um rei tentando selar uma aliança, era um homem lutando contra a própria solidão, oferecendo mais do que uma proposta política.

Mas eu não posso me permitir o luxo de ceder a essas sutilezas. Minhas escolhas não são sobre emoções ou desejos. Elas são calculadas, moldadas pelo peso de Frosthaven e pelo sangue dos Syndarion que corre em minhas veias. O que Drakar vê como um futuro, eu enxergo como um jogo de forças que ele talvez ainda não compreenda por completo.

Ainda assim, quando me pego revivendo aquele momento, não consigo ignorar o que vi em seus olhos. Não era só uma aliança que ele estava propondo, era um chamado, um desafio, e talvez até um pedido.

Mas Drakar deveria saber: eu não hesito por fraqueza. Hesito porque, para mim, cada passo é como andar sobre gelo fino. Uma escolha mal calculada pode afundar não apenas a mim, mas tudo o que carrego.

E se ele acredita que pode me dobrar com palavras, então subestima a tempestade que me forjou.

— E se esse futuro não for o que eu desejo? — murmuro para mim mesma.

As montanhas cobertas de neve surgem no horizonte, trazendo comigo o peso de decisões que eu sei que não posso adiar. Drakar é mais do que um rei estrategista, cada palavra sua revela um homem marcado por cicatrizes invisíveis, lutando entre sua coroa e seu passado sombrio. Esse casamento – salvação para Frosthaven ou apenas uma armadilha cuidadosamente tecida, onde cada fio esconde uma nova traição?

— Thalindra, túrinya lyëa vánë. (Thalindra, leve-me rapidamente) — murmuro em Eldaric, sinto o vento contra meu corpo. A dragão solta um rugido baixo, aumentando a velocidade enquanto o peso das responsabilidades pende sobre mim. A liberdade do voo é um alívio momentâneo, mas a inquietação em meu coração permanece.

Frosthaven surge à distância, uma joia cravada no gelo e pedra, sua silhueta brilhando sob a lua pálida. Essa fortaleza não é apenas uma muralha de poder, mas o eco vivo do meu sangue. Gerações dos meus ancestrais governaram essas terras, enfrentando tempestades e ameaças humanas com a mesma dureza que moldou nossas muralhas. E agora, o peso dessa herança repousa sobre meus ombros. Cada torre, cada parede coberta pela neve eterna, carrega a marca de meus antepassados, forjados na dureza da vida sob o frio constante.

Quando Thalindra desce suavemente no pátio gelado, o ar cortante me envolveu, mas não como um estranho. O frio não é um inimigo, ele corre em minhas veias, tão intrínseco a mim quanto a própria pedra que sustenta Frosthaven. A fortaleza é a minha casa, e, apesar de sua austeridade, ela está entranhada em minha alma. 

As grandes portas de ferro rangem ao abrir, revelando o interior esculpido no próprio gelo ancestral. As paredes, translúcidas e cristalinas, refletem a luz das tochas, transformando-a em uma dança de sombras e brilhos gélidos. É como caminhar dentro de uma caverna viva, onde o passado de minha família sussurra em cada canto.

Hydrazar: O Despertar do Gelo (EM REVISÃO)Onde histórias criam vida. Descubra agora