Olivia sempre teve um certo fascínio pelo Halloween. Não era pela data em si — as fantasias, os doces, ou as decorações espalhadas pelas ruas. Isso tudo era interessante, mas o que ela realmente amava era a sensação que vinha com a data: aquela animação conjunta, a estranheza que fazia até mesmo os cantos mais seguros parecerem um pouco incertos. O mundo inteiro abraçava o bizarro por uma noite, e isso fazia ela se sentir… em casa.
Ainda assim, não era uma sensação totalmente confortável. O Halloween também tinha o poder de abrir portas internas que ela preferia manter fechadas. Memórias enterradas voltavam à superfície como fantasmas, trazendo junto a inquietação de quem se vê cara a cara com versões de si mesma que não reconhecia ou não queria reconhecer. Era como um portal emocional, onde a linha entre o presente e o passado se tornava tênue demais.
O Halloween trazia à tona ecos de sua infância. Não de uma maneira direta ou óbvia, mas em flashes, pedaços de lembranças que ela preferia enterrar. Uma dessas imagens era a de seu pai. Por mais que quisesse apagá-las, elas insistiam em voltar, trazendo saudade e amargura. Como aquela noite de Halloween, pouco antes dele ir embora.
Ele a levou para pedir doces, insistindo que ela se vestisse como uma vampira. O traje era extremamente exagerado, com uma capa preta e dentes falsos que não cabiam direito na boca dela. Eles andaram por várias ruas, e ela ainda conseguia ouvir a risada dele quando ela tentou rosnar para assustar um grupo de outras crianças.
O pai dela sempre tivera um senso peculiar de criatividade — ou assim ele chamava. Ela ainda conseguia sentir a textura fria na pele quando pensava naquela fantasia.
Mesmo que ela não se lembrasse com tantos detalhes dele, da situação em si, ela se lembrava. Em como ele a chamou no porão da casa naquela tarde, dizendo que precisava "finalizar o toque especial".
As escadas rangiam sob seus pés enquanto ela descia, encontrando-o já à espera, com um pequeno pincel na mão e uma garrafa de líquido escuro sobre a bancada. "É tinta" ele disse, mas o cheiro metálico que emanava era forte, quase incômodo. Ela torceu o nariz, a medida que ele molhava o pincel e se aproximava.
— Fique parada — murmurou, inclinando-se para desenhar marcas no pescoço dela. O pincel deixava um rastro frio e viscoso na pele, e ela não pôde evitar fazer uma careta.
— Isso é mesmo necessário papai? — perguntou, tentando olhar o que ele fazia.
— Confie em mim. — Ele sorriu, os dentes amostra, também passando o líquido em sua roupa. — Você vai ser a vampira mais convincente da vizinhança.
Quando terminou, ele deu um passo atrás para admirar o trabalho. As marcas em seu pescoço pareciam feridas abertas, e Olivia, ainda que relutante, não pôde deixar de se impressionar. Agora ela carregava manchas escuras e irregulares que se destacavam sob a luz — quase como pele desgastada.
— Agora, está perfeita. — Ele elogiou, sorrindo de lado, soando orgulhoso demais. — Como uma verdadeira vítima.
Aquela última palavra ecoou em sua mente, ainda que na época ela não entendesse o significado mais profundo. Ser chamada de vítima parecia contradizer o papel de vampira que ele a incentivara a interpretar. Mas de certa forma, fazia sentido: ela não era apenas um monstro, mas também alguém com uma história, com marcas que indicavam uma transformação.
Agora, mais velha, ela entendia o quanto essas lembranças eram perigosas. Eram armadilhas, momentos que faziam parecer que ele era mais do que realmente foi.
Havia um paradoxo insuportável nisso tudo: se fossem memórias ruins, talvez fosse mais fácil deixá-las para trás. Talvez ela não sentisse essa falta tão dolorosa. Era o fato de terem sido boas — ou pelo menos, de parecerem boas — que tornava tudo mais difícil. Quem dera se fosse fácil transformá-las em algo que ela pudesse desprezar.
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𝗗𝗜𝗩𝗜𝗡𝗘 𝗟𝗢𝗩𝗘; 𝗦𝗔𝗠 𝗖𝗔𝗥𝗣𝗘𝗡𝗧𝗘𝗥
FanfictionA obsessão de Olivia Bowen por Samantha Carpenter começa de forma inofensiva, mas cresce rapidamente em uma necessidade insaciável de ser notada. Assumir a identidade do mascarado que a atormenta parece uma boa ideia de chamar sua atenção. Mas quand...
