Alguns filhos demoravam mais para entrar na fase da rebeldia. Isabel sempre esperou por isso, tinha lido sobre o assunto, conversado com outras mães, até mesmo brincado que talvez Olivia fosse uma das sortudas que pularia essa etapa completamente. Aos dezenove anos, ela ainda era a menina doce que perguntava se podia sair, que mandava mensagem avisando onde estava, que voltava no horário combinado.
Isso acalmava a mãe protetora dentro dela. A preocupação não sumia, mesmo sabendo que Olivia era responsável, inteligente, capaz de tomar boas decisões sozinha. Mas era difícil não ser protetora quando se tratava da sua menininha. Da garota que tinha criado com tanto cuidado, tanto amor, tanta dedicação.
Olivia era um exemplo, a filha que uma mãe educou bem.
Mas nem sempre tinha sido assim.
Houve um tempo em que tudo tinha desmoronado. Quando ele saiu. Quando a porta bateu pela última vez e nunca mais abriu. Olivia, que até então era uma criança grudada no pai, que o seguia pela casa como sombra, que pedia para ele ler histórias antes de dormir, que ria daquelas piadas bobas que só crianças achavam graça, tinha ficado... perdida.
A adaptação foi extremamente dolorosa.
Olivia não entendia por que o pai não voltava. Por que ele não ligava. Por que, de repente, ela não era mais importante o suficiente para ele querer ficar. E aquilo se manifestou de formas que Isabel nunca tinha imaginado que sua filha doce seria capaz.
Agressividade.
Não contra Isabel, nunca diretamente contra ela. Mas contra outras crianças na escola. Contra objetos. Contra qualquer coisa que estivesse no caminho quando a raiva explodisse. Olivia empurrava colegas no recreio. Jogava brinquedos contra a parede. Gritava quando contrariada. Chegou a quebrar um prato de propósito só porque Isabel tinha dito que não podiam sair naquele dia.
Foi assustador ver aquela transformação. Ver a criança gentil se tornar alguém que ela não reconhecia.
A psicóloga foi inevitável, e necessária. Sessões semanais, às vezes duas por semana, onde Olivia aprendia a entender o que sentia. A raiva. A rejeição. O abandono. Aprendia que não era culpa dela. Que o pai sair não significava que ela não era amada. Que tinha pessoas — A mãe, principalmente — que nunca iam abandoná-la.
Levou tempo. Meses. Mas os comportamentos foram corrigidos. Lentamente. Com paciência. Com muito, muito amor. Até que Olivia voltou. Não exatamente a mesma, ninguém sai ileso de um trauma assim.
Aos poucos, Olivia parecia ter amadurecido não só no corpo, mas na mente. Aquela menininha insegura que se estilhaçava ao menor sinal de rejeição deu lugar a uma jovem de olhar firme, capaz de reconhecer seus próprios demônios e decidir enfrentá-los. Ela aprendeu a respirar fundo antes de explodir, a entender cada sentimento em vez de deixá-los escapulir em gritos ou objetos partidos, e a buscar ajuda quando as memórias do abandono apertavam seu coração. Mais do que responder aos estímulos com raiva, passou a investigar de onde vinha cada pontada de dor, a questionar se valia a pena reagir com hostilidade ou se uma conversa, mesmo difícil, poderia apagar a tensão antes que ela crescesse.
Na convivência diária, Isabel passou a perceber uma filha que pensava dez passos à frente, que calculava o peso das palavras antes de pronunciá-las e que, mesmo quando irritada, se fazia entender. A velha impetuosidade não desaparecera por completo, mas agora vinha acompanhada de autoconsciência: em vez de estragar alguma brinquedo, ela se afastava e explicava o que a estava incomodando; em vez de mentir para se livrar de perguntas, passava horas refletindo sobre o que falaria para soar honesta e verdadeira.
Claro, nem tudo foi resolvido com esse comportamento milagroso.
Isabel ainda a ouvia chorando no quarto. Soluços abafados no travesseiro, tarde da noite, quando todos já deviam estar dormindo. Passos inquietos pelo corredor às três da madrugada. Portas de banheiro trancadas por tempo demais, água correndo para disfarçar o barulho.
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𝗗𝗜𝗩𝗜𝗡𝗘 𝗟𝗢𝗩𝗘; 𝗦𝗔𝗠 𝗖𝗔𝗥𝗣𝗘𝗡𝗧𝗘𝗥
FanfictionA obsessão de Olivia Bowen por Samantha Carpenter começa de forma inofensiva, mas cresce rapidamente em uma necessidade insaciável de ser notada. Assumir a identidade do mascarado que a atormenta parece uma boa ideia de chamar sua atenção. Mas quand...
