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2010, Brooklyn.

A torneira da cozinha pingava com ritmo irregular que John já havia registrado mentalmente: três gotas rápidas, pausa de oito segundos, duas gotas, pausa de cinco segundos. Precisaria consertar aquilo antes que se tornasse verdadeiramente irritante, mas por enquanto servia como metrônomo para o sábado de manhã tranquilo.

Olivia estava sentada no balcão da cozinha, pernas balançando no ar, um joelho ralado que ela havia conseguido ao tentar escalar a cerca do quintal como se fosse alpinista. O curativo improvisado que Isabel havia feito antes de sair para o trabalho já estava começando a descolar nas bordas.

— Papai, dói — Olivia resmungou, tocando delicadamente a gaze solta.

— Eu sei, amor — John respondeu, lavando as mãos na pia. — Vamos dar uma olhada.

Ele se virou para ela, secando as mãos num pano limpo antes de examinar o machucado. Olivia o observava com aquela confiança total que crianças de cinco anos depositavam nos pais — como se ele fosse capaz de consertar qualquer coisa, resolver qualquer problema, afastar qualquer dor.

Era reconfortante e aterrorizante ser visto dessa forma.

— Sua mãe fez um bom trabalho — John comentou, removendo cuidadosamente a gaze velha — mas precisa de limpeza adequada.

— Vai doer mais?

John considerou mentir, dizer que não sentiria nada. Era o que pais normais faziam, não era? Ofereciam falsas garantias para evitar lágrimas desnecessárias.

— Vai doer um pouco — articulou. — Mas só por alguns segundos. E depois vai sarar mais rápido e melhor.

Olivia assentiu, e John pegou o estojo de primeiros socorros que mantinha organizadamente numa gaveta específica da cozinha. Cada item no lugar correto, cada ferramenta esterilizada e pronta para uso. Havia aprendido a importância de estar preparado para emergências médicas muito cedo na vida, e essa preparação havia se estendido naturalmente para cuidar da família.

— Por que você sempre sabe o que fazer quando as pessoas se machucam? — Olivia perguntou, observando-o preparar uma solução antisséptica numa tigela pequena.

— É meu trabalho conhecer o corpo humano — John redarguiu, molhando uma gaze limpa na solução. — E porque quando você ama alguém, aprende a cuidar dela.

— Você me ama?

A pergunta saiu tão natural, tão despretenciosa, que por um momento John esqueceu completamente de sua tendência a analisar motivações por trás de perguntas simples. Olivia não estava testando afeto ou procurando reasseguramento emocional. Era curiosidade de criança que ainda estava entendendo como relacionamentos funcionavam.

— Mais do que você pode imaginar.

Era estranho, essa capacidade de amar que Olivia havia despertado nele. John sempre soubera que era diferente de outras pessoas, que processava emoções de forma mais... mecânica. Que suas reações eram mais premeditadas que espontâneas.

— Isso pode arder — ele avisou, aproximando a gaze do ferimento.

Olivia respirou fundo e segurou nas bordas do balcão, preparando-se para o desconforto. John limpou o ralado com movimentos gentis, removendo pequenos detritos e sangue seco. Olivia fez uma careta mas não chorou, não reclamou.

𝗗𝗜𝗩𝗜𝗡𝗘 𝗟𝗢𝗩𝗘; 𝗦𝗔𝗠 𝗖𝗔𝗥𝗣𝗘𝗡𝗧𝗘𝗥Onde histórias criam vida. Descubra agora