O silêncio, diferente daquele que Olivia conhecia em casa, tranquilo, confortável, não existia mais. Dois dias já deveriam ter dissolvido tudo, o mecanismo automático que acionava em momentos de tensão, mas Isabel continuava com os gestos de rejeição. Surpreendente, porque sua mãe raramente cultivava mágoa por tanto tempo. Geralmente explodia, resolvia, seguia em frente. Mas isso agora era novo, alimentado por alguma coisa que ia além da conversa sobre Samantha, que se ramificava em lugares que Olivia ainda não havia procurado entender...
Por mais que tivesse contribuído para o mal-estar que reinava, Olivia não sentia culpa. No entanto, ver a própria mãe andando quieta pela casa, desviando de cômodos, ajustando tarefas para evitar contato, instaurava um incômodo fisiológico, desse que vai à fundo. Havia uma constatação surda de que, mesmo necessária para defender seu espaço e o relacionamento com Samantha, a briga tinha deixado marcas que não sabia avaliar se seriam passageiras.
Ser responsável por criar esse tipo de brecha em Isabel feria algum senso interno de ordem: jamais viu na mãe uma figura injusta ou desmedida, só uma mulher rígida, protetora, pronta para brigar mesmo quando brigar significa engolir os próprios valores para proteger alguém. Se fosse possível escolher, Olivia preferia um retorno àquela velha praticidade em conflitos: discussão, lágrimas rápidas, pratos do jantar voltando a se encontrar no armário, e então vida seguindo adiante. Mas aquilo instalado entre elas não era simples, e não se dissolvia no tempo habitual das tempestades.
Sem querer admitir, uma parte dela ainda esperava a explosão resolutiva: a conversa que derrubaria os muros de silêncio, soasse falso ou não verdadeiro, bastava à ordem da casa. Porém, depois que a discussão com Isabel — logo após Sam ir embora — tinha empacado num novo impasse de acusações, Olivia percebeu que, dessa vez, calar e aceitar era o máximo que conseguiria oferecer. Era sua estratégia defensiva: arrastar as horas sem confronto até que Isabel verbalizasse, fosse pela necessidade de controlar ou proteger, que não queria mais ver Olivia com Samantha. Só assim, talvez, saberia qual linha não podia cruzar, qual das versões de si mesma precisava deixar do lado de fora daquela casa.
Isabel nunca havia colocado restrição explícita em nada da vida da filha, pelo contrário, sua norma era de confiar até o limite do bom senso, de deixar decidir e depois sustentar as consequências ao lado, pronta para acolher ou intervir se necessário. A sensação que Olivia tinha agora era diferente: uma suspensão premonitória, de que o próximo passo seria ditado por palavras duras.
A quebra definitiva.
Olivia desceu a escada ouvindo podcast sobre mitologia grega, os fones de ouvido espremidos contra o cabelo ainda bagunçado do banho. Tinha evitado fazer barulho para secar, pois Lily ainda dormia como um bebê em cima do colchão, e bebê mesmo era eufemismo quando se tratava de dormir compartilhado. Lily remuía durante o sono, desferindo chutes aleatórios e tapas ocasionais que acordavam Olivia no meio da madrugada. Noite anterior havia levado um soco direto no peito, um golpe que só parecia acidental até você ver uma pessoa dormindo com a expressão tranquila enquanto você permanecia acordada, respirando fundo e mordendo a língua.
Às vezes a ideia de sufocar a melhor amiga com um belo travesseiro era tentadora.
A cozinha cheirava a café passado há horas, café que provavelmente Tom tinha deixado só esquentando enquanto lia jornal, porque o padrasto era desses que começa a manhã com tarefa, meia-volta e vai completando conforme o dia pede.
Adam encarava a tela do tablet, a colher pendendo da boca, olhos fixos na tela como se o cereal fosse o menor detalhe dessa operação.
Olivia largou o celular na bancada e se dirigiu para a geladeira, tirando um dos fone do ouvido.
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𝗗𝗜𝗩𝗜𝗡𝗘 𝗟𝗢𝗩𝗘; 𝗦𝗔𝗠 𝗖𝗔𝗥𝗣𝗘𝗡𝗧𝗘𝗥
FanfictionA obsessão de Olivia Bowen por Samantha Carpenter começa de forma inofensiva, mas cresce rapidamente em uma necessidade insaciável de ser notada. Assumir a identidade do mascarado que a atormenta parece uma boa ideia de chamar sua atenção. Mas quand...
