007

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A paranóia era um labirinto sem saída, e Sam era a rata presa nele, mastigando as próprias patas em busca de alívio. Mas não havia alívio. Só o gosto metálico da própria carne, o ciclo cansativo de desconfiança e pavor correndo por suas veias. Não importava para onde olhasse, para onde fosse, ela nunca estaria segura.

Nunca estaria sozinha.

Seus olhos eram câmeras de vigilância defeituosas, captando tudo e nada ao mesmo tempo. Aquele vulto no corredor – seria uma pessoa ou o casaco esquecido no cabide? O rangido no assoalho – madeira velha ou facas arrastando-se sob as tábuas? Ela catalogava perigos como uma estrategista em guerra, mas seu inimigo era invisível. Ou, talvez, fosse seu próprio reflexo borrado no espelho sujo, sorrindo quando ela não ousava. 

Havia duas Samanthas. A primeira era a adulta funcional: trabalhadora, pontual, capaz de rir de piadas sem graça. A segunda era uma criança acocorada no escuro, tapando os ouvidos para abafar os sussurros das paredes. "Ele está voltando. Ele está aqui. Ele é você." Não sabia qual das duas era real. Talvez ambas. Talvez nenhuma.

Ela não sabia mais quem era sem a paranoia corroendo sua sanidade. Sem alguém nas sombras, sem um fantasma respirando em sua nuca, o mundo parecia... errado. Silencioso demais. Seguro demais. E segurança nunca fora algo real para ela.

O medo a moldara. Estava em seus ossos, misturado ao sangue. Não importava quantas vezes olhasse para trás e visse apenas um corredor vazio – sua mente preenchia os espaços com monstros. Criava vultos, passos, lâminas. Criava perigo onde talvez não houvesse.

Talvez porque, se não houvesse perigo, quem ela seria?

Com Richie, era mais fácil. O medo tinha um rosto, um nome, um propósito. Ele era seu alicerce distorcido, sua âncora no caos. Um inimigo definido. Ele dizia que a amava, e ela queria acreditar. Queria tanto que ignorava o desconforto rastejando sob a pele, aquela sensação pegajosa de que algo estava errado. Richie era doce, era atencioso, era confiável. Mas confiança era uma mentira. E mentiras matavam.

Depois dele, restaram os estilhaços. A realidade que se partiu em mil pedaços e nunca mais se recompôs.

Agora, sua paranoia era um animal faminto, devorando tudo. O desconhecido era seu predador. O invisível, seu carrasco.

Mas também era solidão. Era gritar "Fogo!" para ouvidos surdos. Era saber que, se um Ghostface surgisse, ninguém creria até ver seu sangue escorrer. 

E havia ela. Sempre ela. Nunca nomeada, mesmo nos pensamentos, mas presente como um tumor nas entranhas da mente de Sam. Seu riso ecoava entre as costelas. Seu cheiro, impregnava os lençóis mesmo nas noites vazias. Samantha a acusava sem provas, julgava sem evidências. Seria desconfiança? Ou medo de descobrir que a obsessão alheia era um espelho da sua própria? 

Seu corpo funcionava como um farol para o perigo. Cada célula gritava "Fuja!", mas seus pés enraizavam-se no chão. Esperando. Sempre esperando. O horror não era o ataque, mas o antes: o suspense esticado até virar tortura. Questionava-se se Billy sentira o mesmo. Se ele saboreara o medo alheio como ela agora engolia o próprio, amargo e viciante. 

Nas noites mais longas, revirava a casa em busca de câmeras ocultas. Nunca encontrava, mas sabia que estavam lá. Ou não. O que importava era que ela soubesse. Que sentisse seu desespero como um predador fareja o pânico. Isso as conectava, mesmo que Sam negasse. Eram dançarinas na mesma corda bamba, fingindo não ver o abismo que as engoliria. 

Quando a insônia vencia, Samantha imaginava diálogos. "O que você quer de mim?" perguntava ao vazio. O vazio respondia com a voz dela, melíflua e cortante: "Só quero que você me veja. Realmente me veja." Então, Sam fechava os olhos, porque enxergar era render-se. Enxergar era admitir que, no fundo do poço, havia duas loucas: uma que perseguia, outra que se deixava caçar. 

𝗗𝗜𝗩𝗜𝗡𝗘 𝗟𝗢𝗩𝗘; 𝗦𝗔𝗠 𝗖𝗔𝗥𝗣𝗘𝗡𝗧𝗘𝗥Onde histórias criam vida. Descubra agora