É sério que até agora você não me reconheceu?
Aquela mensagem deixada na madrugada da sexta para o sábado me deixou empertigada. O número era o da prima da Mon, Lilian, o qual não fiz questão de salvar na agenda. Não sabia do que ela estava falando, mas tive medo do que aquela maluca poderia aprontar. Parecia estar com alguma espécie de obsessão por mim, e eu sabia o que alguém assim poderia fazer.
Na dúvida, decidi ignorar. Contudo, não pude deixar de pensar bastante naquelas palavras, tentando me lembrar de alguma situação em que eu já tivesse visto a Lilian antes. Não recordei absolutamente nada. Será que havia mandado a mensagem por engano? Ou estava apenas querendo puxar papo? Seja o que fosse, eu não daria corda.
Depois de trabalhar o sábado inteiro feito um condenada, cheguei a casa meio tarde e a primeira coisa que ouvi, ao adentar o meu quarto, foi o choro incontido da vizinha. O meu coração entrou em desespero no mesmo instante.
— Mon? — Os ruídos cessaram. Ela sempre ficava muda quando eu a achava, e isso me irritava. Não adiantava fingir que não estava, eu sabia. Sempre sabia. — Mon, você está bem?
Estava quase desistindo e arrombando a porta do 104 quando ela respondeu:
— Não... — a voz saiu embargada, meio desafinada devido ao choro.
— O que houve? Algum problema?
O meu primeiro, e egoísta, pensamento foi achar que eu, de alguma forma, tinha-a deixado triste. Embora não tivesse feito nada, ouvir Mon chorando era sempre muito doloroso e me sentia extremamente culpada por tudo.
— Saudades da minha avó... — choramingou, e soprei o ar que se manteve preso em meus pulmões. — Sinto falta de tudo o que eu queria dizer a ela e nunca disse.
Fiquei em silêncio. Sabia bem que tipo de ausência era aquela. Mon ainda se martirizaria muito por causa das palavras não ditas, das ações não feitas, do futuro que não existiu e do passado insuficiente. Infelizmente, eu não podia fazer nada além de prestar o meu apoio, oferecer um ombro amigo.
— Você, eu, tapete da mamãe e um chá de camomila. Topa? — propus.
— Você chegou agora... Está cansada.
Sim, eu estava exausta, mas jamais me negaria a apoiá-la em um momento como aquele.
— Não importa. Chego aí em alguns minutos, só vou esquentar a água para o chá.
Mon não respondeu nada, então procurei não perder tempo e fui até a cozinha. Enquanto a água fervia, tomei um banho rápido e vesti roupas confortáveis. Joguei os sachés de camomila – melhor opção para quem está sofrendo uma perda – dentro de um bule e fui encontrá-la. A porta do 104 estava aberta e Mon me esperava entre travesseiros e edredons, sobre o tapete da minha mãe.
Depositei o bule e as duas canetas que levei sobre a mesa de centro. Sorri para ela, que sorriu de volta um sorriso triste, mas que me encheu de um sentimento gostoso. Toquei a sua bochecha, molhada por causa das lágrimas recentes, com muito carinho. Os dedos afoitos atravessaram seus lábios, e não pude deixar de conferir aquela boca apetitosa. Foi difícil demais buscar algum controle.
Precisei parar antes que fizesse besteira. Enchi as canecas e lhe dei uma delas, percebendo mais lágrimas escorrendo pelo seu rosto lindo. Fizemos um brinde silencioso e tomamos o primeiro gole ao mesmo tempo. O líquido quente me fez bem, torcia para que trouxesse para Mon um pouco de conforto.
— Queria uma frase que pudesse arrancar toda dor que está sentindo, Mon... — falei seriamente, em um tom baixo. Vê-la sofrendo me deixava maluco de vontade de fazer alguma coisa, qualquer uma que a tirasse do limbo. A vizinha fechou os olhos, entristecida. — Mas é melhor que a sinta. É melhor que chore tudo o que precisar chorar.
Mon acabou abrindo as comportas do choro. Foi tão ruidoso e triste que envolvi meus braços ao redor do seu corpo, trazendo-a para que se deixasse derramar com o rosto afundado em meu peito. Segurei a onda como pude, mas a verdade foi que fiquei emocionada. Alisei seus cabelos delicadamente, enquanto, sem nada falar, esperei que tanta a aliviasse. Tomamos o chá devagar, sem pressa, entre as lágrimas de Mon e o nosso silêncio profundo, cúmplice. Quando terminamos com as nossas canecas, fechei a porta com o pé, pois começava a fazer frio, e nos aninhei dentro do edredom quentinho. Nada precisou ser dito durante muito tempo.
Foi Mon que se afastou um pouco, como se estivesse incomodada com a aproximação. Apenas a encarei. Queria que se mantivesse perto, mas podia entendê-la. Eu já estava ficando com um tesão horrível.
— Sabe... Acho que você devia passar um sábado comigo na casa dos meus pais — sugeriu simplesmente.
Achei a sua proposta bastante esquisita. O que eu faria na casa da família dela? Não entrou na minha cabeça a realização de um cenário assim.
— Por quê?
— Não sei... Só seria legal. A gente faz coisas de família. Há quanto tempo você não faz coisas de família?
Pensei um pouco, e não pude deixar de me sentir extremamente infeliz.
— Muito tempo.
Ela assentiu, balançando a cabeça, e começou a alisar os meus cabelos carinhosamente. Adorei aquela sua atitude, mas me sentia tão vulnerável que não correspondi.
— Como foi a sua semana? — Decidi mudar de assunto.
— Exaustiva, e a sua?
— Idem, mas proveitosa. Estou me adaptando bem ao novo cargo. Ela largou os meus cabelos e virou para me olhar. Ficamos de frente
um para o outro, distantes o suficiente para não cairmos em tentação.
— Sensacional! Estou na torcida... Ah, e qualquer dia desses farei uma visita.
— É... Você está me devendo. Vou cobrar, hein?
Ter a Mon no restaurante, olhando o meu trabalho de perto, seria bem bacana.
— Pode deixar!
Ela sorriu na minha direção e sorri de volta, feliz por passar aquele tempo ao seu lado. A coitada soltou um bocejo e percebi que estava sonolenta. Já estava bem tarde, por isso fui me levantando:
— Vou te deixar dormir.
Mas Mon espalmou o meu peitoral, impedindo-me de sair daquela posição. Olhamos juntos para o ponto em que ela me tocava.— Não vá. — Sua voz saiu como um sussurro tímido.
Não sabia se tinha entendido direito. Tomei aquele seu pedido como uma forma não apenas de exigir que eu ficasse, mas que aplacasse o desejo que eu sabia que ela também sentia. Estava tão louca para me enfiar dentro dela que, enfim, a ataquei, colocando meu corpo por sobre o seu.
Mon soltou um gritinho de susto.
— Se eu ficar, não vou ignorar o meu desejo. — Movimentei meus quadris para que ela sentisse o volume duro entre as minhas pernas. Seus olhos abriram ao máximo, parecendo surpresa, mas eu sabia que não estava tanto assim. — Estou tentando respeitar a sua decisão, mas não me provoque. Não me toque assim, não me olhe assim... Não fale, não respire, não viva perto de mim, Mon... Qualquer coisa que faça me deixa muito excitada.
Poderia parecer cruel, mas era a mais pura verdade. Ficar ao lado dela me deixava louca, não importava o que dissesse ou fizesse. Tudo nela me enchia de um tesão insuportável, e era doloroso demais me conter.
— Calvin... — soprou no meu rosto.
Aquela porra de apelido estava me enervando. Fechei os olhos com força e prendi os lábios. Voltei a olhá-la.
— Eu não acredito que você não me quer, Mon. É difícil demais de aceitar.
Continuei esfregando minha ereção pulsante em seu ventre, doida para que, enfim, cedesse. Agarrei o seu rosto e a encarava fixamente, no entanto sem dar o próximo passo. Estava esperando por ela. Impacientemente, devo confessar.
— Não se faça de desentendida — Mon me empurrou e eu me afastei, ajoelhando-me no tapete. — Sabe o que está acontecendo e sabe os motivos da minha rejeição. Não vivo como você. Não funciono assim.
— Como você funciona? Queria entender. — Eu estava tão frustrada que soltei aquele questionamento. Mas no fundo sabia perfeitamente como Mon funcionava, só não queria encarar o fato de que não podia oferecer o que ela queria e merecia.
— Não sou mulher para ser dividida com outras — disse com uma seriedade incrível. — Não me satisfaço com uma noite nem com mil, porque não é só sexo o que busco. Quero uma pessoa, não uma transa. Continuei a olhando, prendendo os lábios com tanta força que a minha mandíbula doía. O desespero atingiu um ápice tão grande dentro do meu peito que quase cedia ao que Mon queria. Não sabia se estava pronta, nem se eu seria o bastante para ela, e a vizinha precisava saber daquilo, antes de tudo.
Não soube como começar, mas abri a boca e tentei:
— Você sabe que eu só...
— Eu sei! — Mon me interrompeu prontamente. — Não busco o que quero em você. É por isso que somos amigas.
Arfei, chacoalhando a cabeça em negativa. Eu estava prestes a ceder, mas ouvir palavras tão duras saindo de sua boca me fez recuar de imediato. Senti-me ua belíssima idiota. Claro que Mon não iria querer algo comigo. Abri um sorriso nervoso, tentando disfarçar o quão arrasada fiquei, e desviei os olhos porque não consegui sustentar seu olhar firme direcionado a mim.
— Certo — resmunguei.
Eu me levantei, pronta para juntar o bule e as canecas vazias.
— Tem certeza, Calvin?
Encarei-a mais uma vez.
— O quê?
— Você tem certeza?
Sorri, nervosa. Não fazia ideia do que aquela mulher estava falando. Não havia um pingo de certeza circulando pelo meu ser, e desconfiava de que essa situação não mudaria tão cedo. Eu me curvei e beijei a sua testa. Juntei as coisas, abri a porta e só então respondi:
— Tenho, Mon.
Deixei-a para trás com um gosto amargo terrível circulando pela minha boca.
Não busco o que quero em você.
Claro que não. Por que buscaria? Por que se entregaria a alguém que não sabe amar? Que não faz ideia de como se portar num relacionamento? Que vive rodeado de mulheres com ligações na madrugada e mensagens esquisitas? Alguém cheio de problemas emocionais, que não se decide em nada, que não está apto para levar uma relação a sério?
Aquele fora me desmontou por completo, o primeiro que tomei na vida.
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A safada Mora ao Lado
RomanceDEIXO CLARO QUE A SAM É INTERSEXUAL A analista de sistemas Mon Phetpailin finalmente compra um imóvel e realiza o sonho de morar sozinha. Assim que ela se muda para a casa de número 104, descobre que sua nova vizinha, que ela apelida de Calvin, é um...