29- if I knew it all then, would I do it again?

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Poucas pessoas conhecem a sensação de se afogar.

Uns dizem que a morte por afogamento é silenciosa e calma, a minoria acredita ser tão ruim quanto a morte por queimadura e asfixia, eu faço parte dessa minoria.

O processo do afogamento até a morte leva tempo. Primeiro, você acredita ter familiaridade com o sentimento, acha que dá tempo de reverter a situação e superar o trauma.

Em seguida, o ar vai fazendo falta e seu raciocínio passa a trabalhar dobrado no momento em que seu espírito de sobrevivência fica em alerta e tenta de alguma maneira, te fazer lutar por sua vida.

Os segundos vão passando, você não percebe, mas a única coisa que ainda funciona é o seu cérebro. Seus pulmões estão cheios de água, a síntese de oxigênio vai faltando no cérebro, te deixando nauseado e tonto, seu coração que antes estava acelerado, naquela afobação para chegar a superfície, vai parando de bater, os seus tímpanos estouram devido a pressão da água, logo o seu corpo para de lutar e você aceita que aquele é o momento em que sua vida acabou.

Eu me identifico com esse sentimento, porque estou vivendo ele agora.

— S/a?

Escuto uma voz de fundo, como no fundo da minha cabeça, distante.

— O que você fez? S/a... o que você fez?

Sigo a voz com a cabeça, vendo uma figura embaçada pelas lágrimas, pisco e então vejo Mencía parada na ponta da escada.

— O que você fez?

Desço meu olhar para a figura desfalecida no chão, então a ficha cai, Mencía corre ao meu encontro, me abraçando.

— E-eu... e-eu não queria ter machucado, eu só queria tirar ele de cima de mim. Mencía, eu acabei de matar o nosso amigo. Eu matei o Alessandro!

— Shh...

— Eu matei ele! – Meu choro é alto e escandaloso, meu coração bate tão forte que a sensação é de que vai furar a minha pele e prolapsar para fora do meu peito. — Eu matei ele, eu matei, eu matei ele... Mencía...

— Respira... por favor, respira.

— Men...

— Você não matou ele. – Mencía segura o meu rosto com força, me obrigando a olhar para ela. — Eu vou te tirar daqui antes que alguém o encontre.

— Você não p-pode, todo mundo me viu sair com ele, eu não tenho um álibi.

— Eu vou ser o seu álibi.

— Você não pode. – Fecho os olhos, sentindo minha vida esvair por aqui mesmo.

Mencía saca o celular do bolso.

— Me passa o número do seu namorado.

— Não. – Nego freneticamente com a cabeça.

— S/n.

— Não, ele não, por favor, ele não. Ele não vai aguentar isso.

— Para de tentar ser perfeita pra ele, S/n! Pelo menos nesse momento! Ele só vai deixar de quebrar quando você parar de tratá-lo como se fosse feito de vidro.

Passo o número para ela.

Quando Mencía se levanta e começa a falar na ligação, todo o resto fica silencioso, paro de escutar absolutamente qualquer coisa quando um zumbido alto praticamente fura os meus tímpanos, me obrigando a tapar os ouvidos na intenção de protegê-los, exceto pelo fato de que esse zumbido só existe na minha cabeça.

𝘸𝘢𝘪𝘵𝘪𝘯𝘨 𝘳𝘰𝘰𝘮 - 𝘫𝘢𝘥𝘦𝘯 𝘸𝘢𝘭𝘵𝘰𝘯.Onde histórias criam vida. Descubra agora