Capítulo 12

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Leonor adentrou o quarto de Tomás. Ele estava sentado na sua cama olhando pela janela os contornos esverdeados daquela floresta enquanto uma mão brincava distraída com um objeto sob a mesa de cabeceira.

— Tomás. Eu preciso conversar com você, meu filho...
Ele virou-se e se ajeitou no mesmo instante a encarando. Leonor nunca conseguia ler os olhos de seu primogênito. Os olhos de Mateo mostravam hesitação, mas também carinho, os de Luca mostravam, quase sempre, determinação, e os de Ernesto mostravam revolta e medo, mas os de Tomás eram um mar que sabia esconder seus segredos.

Tomás também era português, ele foi transformado quase 300 anos depois do casal e pelo casal. Era um jovem soldado que viveu as atrocidades da primeira guerra mundial e voltou desvalido pro seu país. Um tiro na coluna deixou-o manco, e sem perspectivas ou ofício que pudesse ocupar, ele foi jogado aos traços da mendicância. 

Era por Lisboa que percorria até se encontrar com Miguel. De longe, para o homem aquele menino nada além era do que presa fácil, de perto, um caso lamentável e digno de pena.
Miguel sentiu pena do rapaz, e foi a primeira vez em 300 anos que sentiu aquilo. Por isso decidiu que aquela era a hora, e convenceu o rapaz, não a morrer em miséria, mas a permanecer reestruturado na eternidade.
E o rapaz seguiu com o casal, mas nunca perdeu aquele mesmo olhar obscuro de antes.

— Eu sei que você provocou seu irmão, e não minta pra mim se não quiser me ver brava.
O garoto desviou o olhar antes de falar.
— Apenas disse a verdade.
A mulher estremeceu
— E eu posso saber de que "verdade" está falando?

O menino tornou a olhá-la, dessa vez inflamado em raiva. Levantou-se deixando mostrar o objeto com que brincava, e ali estava aquela mesma faca.
— Eu sei de tudo, mamãe. Ouvi a conversa com o tio Levi, sei o que fez...
Leonor apertou os punhos e fuzilou o filho sem piedade.

Tomás era muito esperto, e ele estava crescendo e aprendendo a dominar sua audição mais rápido do que a mulher podia acompanhar. Se fosse em outras eras, sentiria orgulho em saber que o garoto tinha dom para ser um excelente espião, ouvia muito bem, sabia balbuciar como um vampiro ancião e já mascarava o sotaque até mais do que ela.

Mas táticas como essas deviam ser usadas apenas em alvos inimigos, e família não é inimigo.
Se aproximando do rapaz, ela tomou a faca de sua mão e apertou seu antebraço puxando-o para perto.
— Escute muito bem, mocinho. Suas artimanhas e seus truques NÃO SÃO PRA VOCÊ USÁ-LOS CONTRA NÓS!

Tomás juntou as sobrancelhas e levantou um braço em protesto.
— Se eu não ouvisse, então quando me contaria que botou TUDO a perder por causa daquele...
Ora essa. Além de intrometido também era atrevido?
— ISTO NÃO É ASSUNTO DA SUA CONTA! — Gritou a mulher sacudindo o braço do filho até que ele se soltasse. Tomás arregalou os olhos com desprezo e olhou a mãe de baixo acima.

Leonor rosnou e passou uma mão no rosto controlando os impulsos da própria raiva. A sensação de ser encurralada pela própria cria não estava nem perto dos seus planos, mas se não se controlasse, perderia a razão com Tomás.
— Você não toma jeito mesmo, hein menino?! Era pra você cuidar dos seus irmãos e protegê-los. E não sair por aí ouvindo pelas paredes e provocando a ira deles!

O menino fechou a cara e se aproximou da mãe, frente a frente.
— Aquele cafuzo imundo NÃO É MEU IRMÃO! Coisa pior ele merecia... — Ele resmungou a última frase, e suas presas pularam pra fora assustando Leonor com tamanha audácia.
— É melhor você guardar essa presas, Tomás, ou eu JURO que...

Um cheiro singelo cruzou o olfato daquela mulher fazendo com que a sua ameaça fosse interrompida por uma outra grande ameaça.
Os olhos castanhos de Tomás foram se transformando em um profundo escarlate. As presas não eram de abuso, eram de fome.
Esse cheiro era verde, como folhas frescas, ou como capim-santo, ou até mesmo como lama de rio.

O EncouradoOnde histórias criam vida. Descubra agora