26- Anjinho

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O mundo ao meu redor parecia tão distante enquanto eu dormia. Sonhei com um campo de flores, o cheiro doce da primavera me envolvendo. Mas, de repente, uma dor aguda me atingiu. Primeiro no sonho, depois na realidade. Um peso insuportável tomou conta do meu ventre, e eu acordei sobressaltada, meu corpo coberto de suor frio.

"Não..." A palavra escapou dos meus lábios antes que minha mente pudesse registrar o que estava acontecendo.

Senti algo úmido entre minhas pernas e, com a respiração entrecortada, ergui o cobertor. O lençol estava manchado de vermelho. Meu coração começou a martelar no peito, tão forte que achei que fosse explodir.

- Não... não... não... - repetia como um mantra, tentando me convencer de que aquilo era um pesadelo.

Uma onda de dor subiu pelas minhas costas, cortante, e eu quase caí ao tentar me levantar. Cambaleei até o banheiro, cada passo um esforço. Quando me sentei, o silêncio foi quebrado pelo som cruel do sangue caindo. Foi ali que percebi: algo estava sendo arrancado de mim. Algo que era meu.

Coloquei a mão no meu ventre em forma de proteger meu filho, mas não tinha mais chances.

Meu mundo parecia ruir. O calor do sangue entre minhas pernas contrastava com o frio que tomava conta do meu corpo. As lágrimas começaram a escorrer, grossas, quentes, enquanto meu coração se apertava em uma dor que não era apenas física.

- Por favor, não... - sussurrei, mas minha voz era fraca, quase um soluço. Não sabia exatamente para quem implorava. Para Deus? Para o universo? Ou para aquele pedaço de vida que parecia estar escapando de mim?

Eu não conseguia respirar. Era como se o mundo tivesse sido esmagado sob o peso de uma dor que eu nem sabia ser possível. Minhas mãos tremiam enquanto eu apertava meu ventre, tentando, de alguma forma, impedir o inevitável. O sangue manchava minhas roupas, um grito mudo da perda que eu não estava pronta para aceitar.

Eu o ouvi antes de vê-lo. A porta do quarto foi escancarada, e Mattheo entrou, ofegante. Seus olhos, que sempre carregavam uma mistura de intensidade e charme, estavam arregalados de preocupação. Quando ele me viu, congelou.

- Amor, o que? - Sua voz vacilou, quebrada. Ele correu para mim, caindo de joelhos ao meu lado. Suas mãos hesitaram antes de me tocar, como se tivesse medo de me machucar ainda mais.

- Mattheo...-minha voz saiu como um sussurro fraco, quase inaudível. Eu não conseguia olhar nos olhos dele. Não queria ver o que eu sabia que estaria lá: medo, dor, e aquela esperança agonizante de que talvez não fosse o que parecia.

Ele finalmente se atreveu a segurar meu rosto, forçando-me a encará-lo. Lágrimas já escorriam pelos seus olhos.

- Não... Não pode ser...- Sua voz era um misto de negação e desespero, um som que quebrou algo dentro de mim.

- Eu sinto muito...- consegui dizer antes que minha garganta se fechasse em um soluço.

Ele olhou para o sangue, o queixo tremendo enquanto tentava controlar as emoções que transbordavam.

- Não. Nós podemos fazer algo. Precisamos fazer algo! Por Merlin, alguém pode ajudar!- Ele se levantou de repente, quase tropeçando nos próprios pés, como se fosse correr e buscar ajuda, qualquer ajuda.
Eu segurei sua mão antes que ele pudesse sair.

-Mattheo, não há nada que possa ser feito.- Minhas palavras pareciam cortar o ar entre nós.

Ele voltou a se ajoelhar, me puxando para seus braços como se pudesse me proteger de tudo aquilo.

- Eu... eu não posso perdê-lo. Eu já o amava, amor. Eu já sonhava com ele.- Sua voz se partiu no final, e ele encostou a testa na minha, respirando de forma irregular.

𝐇𝐞𝐫𝐚𝐧ç𝐚 𝐃𝐚𝐬 𝐓𝐫𝐞𝐯𝐚𝐬Onde histórias criam vida. Descubra agora