27- Um dia após o luto

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Acordei com um aperto no peito que me fez questionar, por um breve momento, se tudo aquilo tinha sido um sonho. Olhei ao redor, o quarto de hospital, as paredes brancas, o cheiro de desinfetante... Não era um sonho. Era real.

No canto do quarto, uma mulher estava de pé, embalando seu bebê. A outra, do lado oposto, conversava animada com uma enfermeira enquanto ajeitava a pequena touca rosa na cabeça da filha recém-nascida. Ambas estavam radiantes, com olhares cheios de vida e esperança.

E eu?

Eu estava ali, deitada na mesma cama de ontem, com os braços vazios. Minha barriga ainda doía, mas a dor física não era nada comparada ao vazio que se instalara em mim. Era como se tivessem arrancado uma parte de mim que eu jamais conseguiria recuperar.

Eu deveria estar feliz por elas, mas não conseguia. Cada risada, cada pequeno som que os bebês faziam, eram como facas rasgando meu coração. O choro que eu ouvia não era o meu bebê. Meu filho... ou filha... nunca teria a chance de chorar.

Tentei me convencer de que não era inveja. Talvez fosse. Ou talvez fosse só a dor falando mais alto. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando afastar o nó na garganta. Não queria que ninguém me visse chorar.

 Não queria que ninguém me visse chorar

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Estava sentado ao lado de Laya. Eu via como ela olhava para as outras mães, entendia completamente aquela inveja. Os pais das crianças recém nascidas estavam os dois conversando juntos, e a conversa dava para ouvir de onde eu estava

— Eu amo minha menininha, fiquei tão feliz quando ouvir o chorinho dela

— Eu também, o maior presente de um homem é ouvir o chorinho de seu primeiro filho – Eu não ouvi o do meu...ou minha. Ele nasceu morto, sem som, apenas o vazio habitou na hora do nascimento. Daqui apenas quatro meses seria eu..seria eu segurando meu bebê nos braços e ouvindo ele chorar. Não aguento mais ficar nesse quarto, não posso, a minha inveja é muito grande

— Amor, fique aqui...irei falar com uma médica, é rapidinho – Ela assentiu com a cabeça. Sai daquele quarto e encontrei uma doutora bebendo café no corredor – Olá

— Ah olá

— Eu quero pedir para tirarem a minha mulher daquele quarto.. eu pago o valor que for necessário, eu só preciso que ela não fique em um quarto vendo mães com seus filhos vivos enquanto eu e ela perdemos o nosso. Por favor, troquem ela de quarto

 Por favor, troquem ela de quarto

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𝐇𝐞𝐫𝐚𝐧ç𝐚 𝐃𝐚𝐬 𝐓𝐫𝐞𝐯𝐚𝐬Onde histórias criam vida. Descubra agora