028. lies and fights

536 43 4
                                        

Sabina Hidalgo

Todos dizem que amar é deixar ir, mas ninguém fala sobre o abismo que se abre dentro de você quando precisa soltar a mão de quem mais ama. Perder alguém para a morte é como ter o coração arrancado enquanto você ainda está vivo. É gritar até a garganta queimar, chorar até faltar o ar e, mesmo assim, perceber que nada muda. O vazio que fica não é só ausência, é uma dor feroz, um buraco que devora tudo por dentro. Não importa o quanto você implore, o quanto se culpe ou o quanto deseje trocar de lugar, quem se foi não volta.

A despedida de papa não me matou, mas apagou uma parte de mim que jamais vai voltar. Quando o vi ser engolido por aquele buraco escuro e depois soterrado pela terra fria, algo em mim se quebrou.

—Não chore, por favor... não chore. — Sussurrei para mim mesma, e respirei fundo antes de desviar o olhar do quadro em cima da pequena estante ao lado da cama, com uma foto minha dele, e de Any.

Já faziam 2 meses, mas o tempo não trouxe alívio, apenas um peso insuportável que parecia dor cada vez. A saudade se transformou em uma saudades amedrontadora, me cercando por todos os lados, sufocando qualquer tentativa de respirar. Pensar nele era completamente inevitável, até as memórias mais bonitas, aquelas que deveriam me deixar feliz, agora eram como pesadelos.

A verdade é que a saudade só é bonita quando é escrita nas poesia de amor, porque na vida real ela arde, sufoca, e vai te matando ao poucos.

Suspirei, tentando puxar alguma força de dentro de mim, e me levantei da cama. Caminhei até o banheiro enquanto ajeitava minha roupa, e lavei o rosto, deixando a água fria bater como um choque de realidade contra minha pele. Hoje era o primeiro dia que eu voltaria a empresa para trabalhar, depois da leitura do testamento. Agora a empresa que meu pai construiu com tanto amor e esforço, era minha. Depois de tanto tempo afastada, eu precisava tentar voltar... precisava ocupar minha cabeça, precisava cumprir com minhas responsabilidades.

Desci os degraus da escada devagar, á medida que sentia o cheiro bom de café por toda casa. Estava tudo silenciosamente assustador, cada canto com um peso sufocante. Algo parecia errado. Tudo parecia quieto demais, calmo demais, como se o mundo tivesse parado de girar. Quando entrei na cozinha, olhei ao redor procurando por Any, mas não a encontrei. Queria abraça-la, queria sentir aquela sensação que só seus braços me faziam sentir, era como se ela fosse capaz de segurar todos os pedaços quebrados dentro de mim.

A mesa estava posta com tudo que eu adorava comer pela manhã, as coisas estavam arrumadas com um carrinho tão cuidadoso. Ao lado do meu prato, tinha uma rosa, e ao lado dela, um pequeno cartão. Assim que o vi, reconheci a letra. Redondinha, linda, uma caligrafia perfeita, inconfundivelmente dela.

Me aproximei para pegar o pegando o papel, e o li em minha mente, enquanto sua voz ecoava dentro da minha cabeça como se ela mesma estivesse falando comigo.

"Espero que goste do café. Com amor, da sua linda esposa."

Fechei os olhos por um momento, e segurei o cartão com força entre os dedos. E, pela primeira vez em dias, um pequeno sorriso surgiu em meus lábios. Era um sorriso carregado de amor e saudade de beija-la, mas também de uma profunda gratidão. Por tê-la. Por ainda ter algo, alguém, que faz eu me sentir viva, mesmo quando tudo dentro de mim parecia querer desistir.

Eu sei que nos últimos meses não tenho sido boa o suficiente para ela. Não tenho dado tudo de mim como ela merece, mas, mesmo assim, ela tenta todos os dias me arrancar um sorriso, tenta me trazer de volta à vida. Enquanto eu me afundava no meu luto, na minha dor, não percebia o quanto ela estava ali o tempo inteiro ao meu lado, se preocupando comigo, tentando me curar, acabar com minha dor. Minha mãe foi para o México, tia Priscila voltou para Nova York, e eu... eu deixei Any sozinha. Ela se importava tanto comigo, com o que eu estava passando, e eu a deixei de lado, não liguei para o que ela estava sentindo, não dei meu ombro para que ela também pudesse chorar. Enquanto ela cuidava de mim, eu a ignorei, como se seus sentimentos não importassem.

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Dec 05, 2024 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

𝗱𝗼 𝗻𝗼𝘁 𝗹𝗲𝗮𝘃𝗲 𝗺𝗲 - 𝘀𝗮𝗯𝗶𝗮𝗻𝘆 Onde histórias criam vida. Descubra agora