C a p í t u l o 16

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Selene estava sentada no canto da cama, o corpo encolhido como se tentasse se proteger do mundo. Seus joelhos estavam dobrados, puxados contra o peito, enquanto os braços os envolviam em um abraço frouxo, mas protetor.

O capuz que escondia seu rosto, parecia mais escuro do que nunca, deixando à mostra apenas o queixo delicado apoiado nos joelhos.

Seus olhos pareciam perdidos em algum ponto distante, refletindo pensamentos que ela mantinha enterrados,  enquanto os dedos tamborilavam levemente no tecido áspero da calça, denunciando um nervosismo que ela não conseguia esconder.

Mas assim que a porta do seu quarto foi aberta. E notou que era Jones, o gesto nervoso pareceu suavizar, o que a fez se sentir mais segura.

— Oi — a porta foi inteiramente aberta, Jones segurava uma bandeja cor rosa  — Trouxe algo pra você comer.

— Não estou com fome — respondeu Selene, parecendo que um bicho havia a mordido.

Calmamente. Jones fechou a porta atrás de si com a perna, caminhou até a cama de Selene, percebeu que a mesma abraçava as próprias pernas, o capuz em seu corpo escondia até a sua mão que tremia levemente.

— Alejandro me disse que você não tá comendo nada desde ontem — apoiou as mãos na cama — Por que?

— Sabia que vocês me sufocam? — ela disse, uma pitada de raiva e sem humor na voz — Vocês me fazem perguntas e desejam uma resposta confiante — Jones ajeitou a sua postura olhando a encapuzada que nem ao menos se mexia, e provavelmente não estaria nem piscando.

— Selene... — Jones murmurou, arrumando o corpo.

— Não me venha com o seu ceticismo — falou de forma grosseira, mal se importando se atingiria o sentimentalismo de Jones.

O mesmo inspirou fundo, sentia a extrema energia negativa que emanava dela. Poderia ser algo sobrenatural, se ele ao menos acreditasse nessas coisas, porém, Selene já era comparada há coisas mais piores.

Tipo a sua mãe.

Ele se aproximou lentamente, um tanto relutante, sentando-se na beirada da cama, ao lado das pernas dela, mas mantendo uma distância respeitosa. Sabia que, se chegasse muito perto, ela se afastaria ainda mais e provavelmente poderia dar-lhe um soco.

— Não estou aqui pra te sufocar — ele disse com a voz baixa, colocando a bandeja mais próxima dela. — Muito pelo contrário, eu me preocupo com você, e isso já basta.

Selene ergueu o olhar por um instante, apenas para voltar a escondê-lo rapidamente sob o capuz. O silêncio dela era perturbador. Mas Jones esperou, como sempre fazia, até que ela finalmente decidisse falar, mesmo que fosse apenas para descarregar a raiva nele.

— Sabe qual é o problema de vocês? — a voz dela saiu baixa, quase um sussurro, mas carregada de frustração. — Vocês acham que tudo pode ser resolvido com comida, palavras ou... tempo. Mas isso... isso aqui... — ela tocou de leve o próprio peito, onde o coração batia, embora rápido e pesado e depois a própria testa, indicando a sua mente  — Não se conserta.

O soldado franziu o cenho, tinha que se manter calmo. Não era a primeira vez que ela dizia algo parecido, mas hoje parecia mais grave, apesar da conversa que tiveram, ele sabia que tinha acontecido mais alguma coisa, havia ficado sabendo que Selene foi pra cima de Rodolfo, na tentativa de matá-lo e estava com tanto ódio, que a adaga que segurava cortou a sua palma.

— Talvez não se conserte — ele admitiu, medindo cada palavra. — Mas você não precisa carregar isso sozinha, sabe disso, né?

Selene riu sem humor, um som seco que quase fez Jones recuar. Ela levantou o rosto, ainda coberto pela sombra do capuz, mas havia um brilho vermelho intenso nos olhos que escapava por baixo do tecido.

Simon Riley - 𝔇𝔢𝔳𝔦𝔩'𝔰 𝔈𝔶𝔢𝔰Onde histórias criam vida. Descubra agora