→PRIMEIRO LIVRO!
O frio é a sua coroa. O trono foi roubado. A vingança, forjada no gelo.
Em um reino que pune a magia com a morte, Eleanor não é apenas a última herdeira: ela é um segredo vivo que pode congelar o mundo inteiro.
Forçada a correr e a...
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
A NOITE PARECE MAIS DENSA do que deveria, como se um véu de escuridão anômala tivesse se debruçado sobre o mundo. Posso sentir isso no ar, um frio que não pertence ao inverno, um peso invisível que se instala nos pulmões a cada respiração. O silêncio é absoluto, opressor, como uma mortalha que sufoca até o som mais tênue. Nem mesmo as árvores ousam murmurar, seus galhos permanecem imóveis, como se temessem chamar atenção para si. É como se o próprio mundo estivesse à espera, preso em uma pausa inquietante, segurando o fôlego diante do inevitável.
Minha mente deveria estar em outro lugar. Há planos a traçar, defesas a fortalecer, vidas que dependem das minhas decisões. Mas não consigo desviar os olhos do horizonte, fixos na escuridão que se estende além da fortaleza. Algo pulsa lá fora, algo que não vejo, mas sinto. É um peso insuportável que se aloja no peito, apertando como garras invisíveis. Um arrepio percorre minha espinha, o prenúncio de algo iminente, como o eco de um grito que ainda não foi dado, mas já ressoa no silêncio.
Da sacada do meu quarto, observo Thalindra abaixo. Seu corpo, normalmente sereno como o gelo eterno que a molda, vibra com uma energia quase palpável, como se o ar ao seu redor estivesse carregado de eletricidade. Suas asas imensas, feitas de cristal puro, se abrem e fecham em movimentos curtos e tensos, como se tentassem capturar um cheiro ou uma sensação no vento inexistente. Ela não para quieta, girando o corpo, erguendo a cabeça, farejando o vazio com inquietação crescente.
As garras afiadas raspam contra o chão de pedra, produzindo um som baixo e repetitivo que ecoa pela noite. O ruído parece pequeno, insignificante, mas em meus ouvidos é como um tambor, cada arranhão carregado do peso de um aviso que não posso ignorar. É um gesto instintivo, quase involuntário, mas que carrega um significado claro e terrível.
Glactihors não ficam assim sem motivo. Thalindra sente. Ela sempre sente antes que qualquer outro perceba. Algo está vindo, algo grande. É como se ela estivesse em sintonia com uma frequência distante, captando as vibrações de um perigo que ainda não tomou forma, mas que já se aproxima.
Ela lança um rugido baixo, como um trovão abafado que faz o ar vibrar. Em seguida, dispara para o céu com um impulso súbito, suas asas cortando a escuridão em círculos rápidos, como se rastreasse uma ameaça invisível. A luz pálida da lua reflete em suas escamas cristalinas, projetando reflexos iridescentes sobre as muralhas da fortaleza.
Thalindra pousa novamente, mas não consegue parar. A cauda bate contra o chão em intervalos curtos, e seus olhos, azuis como lagos congelados, estão fixos em algo além do horizonte. A tensão em seus movimentos é quase insuportável de assistir, e aperto os punhos contra o parapeito da janela, tentando controlar o nó crescente em meu peito.
Não lembro da última vez que a vi assim. Isso me assusta mais do que qualquer presságio. Glactihors pressentem a guerra, o caos, a destruição que se aproxima. E Thalindra nunca se engana.
— Você sente, não sente? — murmuro, minha voz baixa e hesitante, mal rompendo o silêncio opressor da noite.
Ela vira a cabeça em minha direção, seus olhos se cravando nos meus como lâminas de gelo. Thalindra não responde com palavras,nunca o faz, mas sua cauda bate levemente contra o chão. É uma resposta silenciosa, mas definitiva.