O velório estava vazio. Eu esperava que alguém aparecesse, mas ninguém veio. Apenas eu, sentada ali, diante do caixão fechado, com os olhos vermelhos e a dor consumindo cada pedaço de mim. A sala parecia um eco vazio, com as flores murchando nos cantos e o silêncio pesando no ar. Eu queria gritar, queria que alguém me tirasse desse pesadelo, mas, no fundo, eu sabia que aquilo era o que ele merecia: uma despedida silenciosa. Nenhuma celebração, nenhuma homenagem, nada além da quietude.
Ryu Shi-oh não tinha ninguém. Nenhuma família. Nenhum amigo. Só eu. E eu estava ali, a única que restava para se despedir de alguém que significou tanto para mim. Talvez ele nunca soubesse o quanto. Talvez, no fundo, ele tivesse acreditado que eu nunca seria capaz de amá-lo de verdade. Mas eu estava ali, e a dor de perder tudo o que poderia ter sido, tudo o que ainda poderia ser, estava me esmagando.
Eu encarei o caixão, os pensamentos turvos. Não havia palavras que pudessem expressar o que eu sentia. O vazio era tão grande que não havia mais espaço para nada, exceto para a saudade que me corroía.
Foi então que ouvi o som da porta se abrindo, quebrando o silêncio da sala. Eu sabia quem eram antes mesmo de vê-los, e meu corpo todo se endureceu com a presença deles. Hee-sik e Gang Nam-soon. Eles estavam ali, de alguma forma, observando, e uma parte de mim queria sair dali, gritar, fugir para longe daquele lugar, mas eu não conseguia. Eu já estava afogada na dor, não havia mais força para lutar.
Eles não tinham o direito de estar ali.
Hee-sik entrou primeiro, com sua postura rígida e o semblante sério. Ele era sempre tão imponente, mas hoje parecia desprovido de qualquer emoção. Eu o odiei naquele momento. Ele sabia o que Ryu Shi-oh significava para mim, sabia como eu me sentia, e, no entanto, estava ali. Ele e sua hipocrisia.
Gang Nam-soon entrou logo atrás, o rosto fechado. O corpo ainda parecia tenso, como se ela tivesse sido forçado a vir. Ambos olhavam para o caixão, mas não para mim. Nunca para mim. Eu os detestava por isso.
Eles não eram meus amigos. Eles não eram os amigos de Ryu Shi-oh.
Mas estavam lá, como se estivessem cumprindo uma obrigação, não porque realmente se importassem. Eu sabia o que eles pensavam. Eu sabia que, para eles, Ryu Shi-oh era uma peça descartável. Alguém que não se encaixava mais no jogo, alguém que já não servia mais.
Eu me levantei, minha respiração ficando mais pesada à medida que sentia minha raiva borbulhar. Eu não queria olhar para eles. Não queria saber o que eles pensavam ou sentiam. O que eles haviam feito, a forma como haviam tratado Ryu Shi-oh, não merecia perdão. Não merecia compreensão.
— O que vocês estão fazendo aqui? - Minha voz soou mais ríspida do que eu esperava, e eu vi Hee-sik e Gang Nam-soon trocando um olhar rápido. Eles não disseram nada imediatamente, mas podiam sentir a hostilidade em mim. Eu não tinha mais paciência. Eu não queria que eles estivessem ali, invadindo esse último momento meu com ele. — Não é como se vocês realmente se importassem.
Hee-sik ficou em silêncio por um momento, observando a distância, antes de finalmente falar com aquela calma de sempre que me irritava profundamente.
— Não estamos aqui para discutir com você, Hae-won. Estamos aqui por você - Ele fez uma pausa, e eu podia perceber a frieza em sua voz. — Ryu Shi-oh fez escolhas, e agora ele paga por elas.
Eu quase ri, mas não de forma engraçada. Era uma risada amarga, cheia de dor.
— Ele pagou por tudo, Hee-sik. Ele pagou de um jeito que vocês nunca entenderiam. E você, você que sempre se achou tão superior a ele, agora vem aqui, em um velório que ninguém mais apareceu para fazer, e tenta justificar tudo o que aconteceu?
Eu dei um passo em direção a ele, sentindo a raiva subir como uma onda prestes a me engolir.
— Ele pode ter feito escolhas erradas, mas pelo menos ele estava tentando algo! Pelo menos ele estava tentando viver, tentar mudar! - Minha voz falhou um pouco no final, mas eu não podia parar. — E você... você fez com que tudo isso fosse mais difícil.
Gang Nam-soon finalmente falou, a voz mais áspera do que o normal.
— Não podemos mudar o que aconteceu, Hae-won. - Ela estava tentando ser razoável, mas eu só a odiava ainda mais. Ela estava apenas defendendo o que sabíamos que era errado. — Ele fez as escolhas dele, e agora é tarde demais para se arrepender.
Eu senti uma dor tão profunda em meu peito que quase não consegui respirar. Não era sobre o que eles estavam dizendo, não era sobre as palavras, era o fato de que eles estavam ali, agindo como se tivessem direito de estar presentes no final, como se fossem parte da vida dele.
— Eu não preciso de vocês aqui. Não preciso do consolo de quem nunca se importou de verdade. - Eu respirei fundo, tentando me acalmar, mas a raiva ainda estava lá, fervendo em minhas veias. — Podem ir embora. Não vou permitir que se apropriem disso.
Hee-sik me olhou por mais um momento, com aquele olhar vazio, sem emoção. Ele sabia que eu estava certa, mas não ia admitir. Ele nunca admitiria.
— Se você não quer nossa presença, tudo bem. - Ele disse, virando-se lentamente para sair. — Mas não se engane, Hae-won. Ele não estava no caminho certo. E no final, foi isso que o destruiu.
As palavras dele me cortaram, mas eu sabia que ele não tinha mais poder sobre mim. Eu estava ali para Ryu Shi-oh. Não para eles. Não para ninguém mais.
Quando eles saíram, o silêncio voltou. O vazio foi retomado. Eu voltei a me sentar, olhando o caixão. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas não importava mais. Eu estava sozinha. E essa solidão era tudo o que restava.
Eu não sabia se ele estava em paz. Não sabia se eu algum dia encontraria paz. Mas, naquele momento, não importava. Eu estava ali para ele, e seria só eu. Até o fim.
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Dangerous - Ryu Shi-Oh
FanfictionEu sou uma policial, o meu dever é proteger as pessoas, por que eu to fazendo isso? "Droga, ele tem olhos lindos amiga." Eu entrei nessa empresa pra investigar ele e não me apaixonar, mas que porra. Eu não sou uma criança, é só um homem bonito. "Voc...
