Eleanor Quinn
A escuridão é fria, chega a ser reconfortante depois de um tempo. É convidativa, te fazer intentar a ficar ali, naquele frio; envolve a tua mente como um fluído pensamento, mas é sólida como uma parede.
Sinto segurança aqui, como se nada fosse atravessar tal breu, como se ali eu pudesse me manter afastada do fogo da minha vida.
Acho que é isso que a morte é para mim. Escuridão. Vazio. Frio. Total contrário do fogo e caos que vivo. Talvez seja isso que preciso, um pouco de paz para tanta confusão que carrego comigo.
Não sei dizer quando todo o preto que via foi iluminando-se aos poucos, um pouco borrado e desfocado no começo, mas posso afirmar que, de coração, desejei ficar envolta pela escuridão novamente.
A luz era forte demais, a visão distorcida me incomodava, tudo muito confuso... Sinceramente, eu queria mesmo continuar no escuro.
- Senhorita? - ouviu-se uma voz abafada, mas grave e masculina. - Consegue me ouvir.
Certamente, mas não consegui responder nada.
- Tudo bem... - suspirou - Aperte minha mão - senti a dele segurar a minha. - se estiver me ouvindo, okay?
Fiz um esforço e consegui apertar a mão dele, soltando-a logo em seguida.
Fecho os olhos novamente, vendo a corrida, vendo Elliot me encarando, o que me faz abri-los para não ver aquele olhar.
Assim que abro, enxergo tudo perfeitamente bem. Ou algo próximo disso, já que demoro a me acostumar com a luz branca e forte, típica de hospital.
Hospital.
Estou em um hospital.
Por quê?
- Elen, filha... - olhei para a direção da voz, vendo o rosto do meu pai esboçando preocupação.
- O quê...
- Não, não... Não fale muito, okay? Tá tudo bem agora, você está segura. - Beijou minha testa.
Quis muito questionar, deixar as perguntas saírem, mas eu conheço o meu pai, não adianta insistir.
Então volto ao que eu esperava ser a escuridão, mas tudo que vejo é um garoto. Aquele quem teve meu coração um dia e que preferiu tacá-lo na parede repetidas vezes até se despedaçar. Eu o vejo tão bem que parece real. Não é o Maven que vi na corrida há pouco tempo, não. É o Maven que, quando me via, seus olhos se queimavam de algo suave.
Quero correr até ele, quero mesmo. Mas não posso. Demorei anos para catar cada pedaço do meu coração despedaçado por ele, muitas vezes quase desistindo. Não posso querer correr até o mesmo erro, isso já seria burrice demais. Então eu fico e o vejo de longe, com os olhos me encarando, aquele castanho, agora escuro, tão sombrio me atraindo para sua órbita como um buraco negro. Mas resisto, porque não quero passar por aquilo mais uma vez. Meu coração não aguentaria.
[...]
- Seus olhos, às vezes, são como uma floresta vista de cima na noite, jeli. Escuros. Frios. Perigosos. - Sorrio ao ouvi-lo. - Mas, outras vezes são como um mar verde bem claro. Alegres. Imprevisíveis. Me dão vontade de me jogar neles e morrer afogado.
- Aí eu não seria mais feliz.
Ele ri. Sua risada é tão gostosa de se ouvir que sinto meu coração se aquecer ao ouvi-la.
- O ponto é... - desviou o olhar das estrelas para baixo, em seu colo, onde eu estava deitada -, sei quando você está mal e quando está bem apenas por olhar para eles. - Se aproximou, seu nariz tocando o meu - Eles são bem fofoqueiros, na real. - Me beija enquanto ria.
Sempre soube que sou um livro aberto. Não consigo esconder direito, muito menos mentir. Mas, tem vezes que a pessoa apenas não percebe, não consegue ler. O que não é o caso dele. Ele sabe me ler. Sabe o que passa em minha mente antes mesmo de eu dizer em voz alta.
- Então quero que seja sincera comigo agora, Eleanor.
Abro os olhos, vendo os seus sérios, olhando através de mim.
- Você tá esquisita há um tempo e eu não quis cutucar para não piorar, até porque pensei que iria passar... - meu corpo tensionou. - Mas não passou. O que aconteceu, Elen?
Desviei o olhar.
A real era que havia sim algo acontecendo, mas Maven já tem problemas suficientes para lidar, uma carga extra poderia ser demais para ele.
Não quero que ele pense que eu sou uma fraca também. Sei que posso lidar com os meus problemas, mas a questão é que o problema não é realmente meu e sim do meu pai, então, de uma forma e de outra, eu acabado sendo afetada por isso.
- Jeli, não faz isso... - levantei do seu colo, mas senti algo ao redor do meu pescoço.
Ele me puxou para trás, minha cabeça deitando em seu ombro. Um abraço por trás meio desajeitado.
Mesmo com toda a vergonha, o conforto do corpo dele conseguiu ofuscar qualquer outro sentimento, então não o impedi de se aproximar, tampouco me afastei.
- Minha mãe costumava dizer "Maven, filha dos outros não é bagunça; se você segurar a mão dela, não solte nunca mais, porque atrás daquela menina tem um coração inteiro que ela te entregou, então o pegue e segure-o como se fosse o teu." - Olhei para ele por cima do ombro, esperando que continuasse.
Vi a hesitação em seus olhos que desviaram dos meus e percebi que a mesma saudade que eu sinto ao falar da minha mãe também era a dele. Vi a dor de lembrar de alguém e concomitantemente lembrar de que ele não está mais ali.
Mas também vi seus olhos se encherem de um sentimento, de uma necessidade de desabafar, por fim voltando:
- Não pense que irei soltar a sua mão nos momentos difíceis e só estar lá por você nos fáceis. Esse não sou eu, Eleanor. Se você tá passando por um problema, me diga, ou só fique comigo, mas não se afaste. Seja lá o que está acontecendo, me contando ou não, estarei lá para você, por você e com você. Nunca pense que eu faria o contrário, porque, antes de morrer, minha mãe, com toda certeza, fez questão de me ensinar a ser um bom homem para a minha garota.
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Fire Game
RomanceEleanor Quinn Ele voltou, e, se antes ele já era ruim, agora ele é pior. Mas eu não vou fugir como antes, nem vou permitir que ele me veja vulnerável de novo. Você gosta de brincar com chamas e eu quase morri por isso, Maven. Eu não sou a mesma garo...
