Capítulo 44

115 9 1
                                        

Eleanor Quinn

A palavra “perdão” vem do latim perdonare, em que per significa totalmente e donare significa doar. Juntando ambos, a tradução é doar totalmente, o que demonstra que o ato de perdoar, de dar o seu perdão a alguém, deve ser sempre por completo.

No Grego, há diversas palavras para expressar tal ato com sentidos mais profundos. Por exemplo, a palavra synchóresi significa algo como “abrir espaço”, tendo a ideia de liberar espaço no coração, antes preenchido por mágoa e ressentimento, para perdoar alguém que se arrepende. Aphiemi significa “enviar embora”, como se mandasse toda a raiva e rancor por alguém para longe. Apoluo significa “se livrar” e, levando em conta não só o sentido literal, mas também conotativo, expressa uma ideia de se desprender da angústia.

Escolher perdoar alguém não é apenas deixá-lo livre da culpa, mas também deixar-se livre da dor.

É isso que eu estou fazendo.

Eu estava quase dormindo, depois de quase quarenta minutos vendo os prédios passando como borrões pela janela, quando o carro começou a desacelerar e, então, parar completamente.

Não é exatamente o melhor horário para se estar em Mott Haven, mas não é como se Maven fosse muito paciente para esperar até o dia seguinte.

— É aqui? — perguntei, me ajeitando no banco. — Onde estamos?

— Terceira Avenida, e sim, é aqui.

Terceira Avenida.

Olho ao redor e vejo uma placa verde escrito “E 143ˢᵗ”

Não é aqui que tem aquela gangue? Qual era o nome…

Haviam algumas pessoas nos observando de longe, provavelmente pensando quem seriam os idiotas que vieram para Mott Haven às onze da noite.

— Fique aqui dentro.

Não adiantou de nada em pedir, porque, no segundo em que ele saiu, eu já estava o acompanhando.

Nem precisei ver para saber que, enquanto caminhávamos, aquelas pessoas estavam nos seguindo e sabia que Maven também percebeu, esticando uma mão atrás do corpo para que eu pegasse.

— Quem são essas pessoas? — sussurrei para ele ao me aproximar.

— São os Red Saints, uma gangue que surgiu lá nos anos setenta aqui em Nova Iorque. Eles me conhecem, tenho um amigo que comanda essa área.

Então esse era o nome. Minha mãe, quando vínhamos para cá em uma típica viagem em família supostamente feliz, costumava falar sobre eles com o meu pai e, até hoje, ainda não sei o porquê.

Não muito longe de nós, vi um homem de pele negra, uma regata branca, calça jeans bem larga e um boné bege virado para trás. Ele era musculoso e alto, porém alguns centímetros mais baixo que Maven.

— Pensei que nunca mais ia te ver, Dawson. — A mão que estava segurando fortemente a minha bateu contra a que ele estendeu.

Seu sorriso era incrivelmente bonito, combinava com ele e com o seu olhar, também atraente com as orbes negras rodeadas por um castanho.

Fire GameOnde histórias criam vida. Descubra agora